A dor de não sorrir

O relógio anunciava 17h07, dona Eunásia terminava de preparar a refeição da tarde. Estendeu um pano em cima da mesa, todo trabalhado em vermelho, que ela mesma havia tricotado; colocou café, chá, bolachas e alguns pães que ela mesma acabara de preparar. Foi até a cozinha e buscou as geléias de morango e uva, as facas, xícaras e pronto. Tudo estava como sempre fazia para que às 17h30 pudesse degustar de seu preparo juntamente com quem diariamente estava a esperar.

Tudo pronto!
Cansada, ela sentou e resolveu ligar a TV para relaxar, enquanto o relógio tilintava até seu horário tão esperado.
No jornal CNN noticiava que um homem alto, cabelos negros, pele clara e corpo atlético, estava sendo procurado porque acabara de estuprar um garoto de apenas 5 anos. O acontecimento tinha sido pela manhã, mas só foi informado aos policiais por parte da tarde. Helicópteros foram contratados e vinte viaturas disponibilizadas para procurar o homem.
Todos os dias uma criança era abusada e a dúvida permanecia. Ninguém sabia o paradeiro do rapaz. A sociedade acreditava que apenas um homem realizava todas as ações porque sempre colocava um número em cada corpo, como se fosse uma continuação de pessoas abusadas sexualmente. Porém, o que intrigava a população era que sempre o rosto era visto e nunca eram as mesmas pessoas.
Enquanto a senhora assistia o noticiário, o carro de um xerife era estacionado em sua residência. Ela foi até a porta ver do que se tratava e antes de chegar até lá, olhou o relógio marcar 17h30, em ponto. Abriu a porta e ficou parada analisando quem sairia do carro.
Um homem loiro, olhos azuis e com físico aparentemente magro, descia do carro e se aproximava dela.
Beijou-a e disse:
-Estou exausto hoje, quase não consigo realizar meus planos.
Em silêncio, ela simplesmente abraçou-o e segurou em sua cintura.
Ambos entraram.
- Qual foi esse garoto, dessa vez? – perguntou dona Eunásia.
- Filho de um riquinho metido a besta lá.
- Veio com um carro novo hoje.
- Fui promovido, agora sou xerife.

Dona Eunásia vivia com ele naquela casa. Ela teve quatro filhos dos quais três deles faleceram. Todos serviram ao exército e Eunásia fazia questão de deixar registrada a foto dos quatro queridos filhos estampada em cima do cofre que ficava na sala da residência e num outro retrato ela deixava a fotografia do marido que também falecera. Na verdade ela nunca amou verdadeiramente o marido, mas mantinha a imagem dele ali mais porque o filho pedia para deixar, para aguçar a vingança do único filho vivo.
Os quatro tornaram-se policiais, seu marido era xerife e o filho que residia com ela, havia acabado de subir de cargo, tomando conta igual seu pai, possuindo o nome de xerife da família e comandando uma tropa de mais de quarenta policiais.
Dona Eunásia zelava do seu filho, Petrick, mais do que de sua própria vida. Além de ser o único, atualmente, era o caçula e sempre sofreu na mão do seu pai, Alfredo.
Alfredo sempre abusou sexualmente do filho mais novo e dona Eunásia sabia, mas era ameaçada de morte, então, preferia manter o silêncio. Mas, cansada dele abusar de Petrick, ela tomou coragem e tramou o assassinato do próprio marido na noite do dia sete de julho.
Desde o dia em que Petrick entrou na área policial o instinto vingativo tomou conta de si. Depois de sofrer mais de dez anos sendo abusado de todas as formas possíveis, Petrick foi possuído por um ódio sobre-humano e desde então praticava a mesma violência que sofria apenas com garotos. Ele sabia que era ilusória tal vingança, afinal, seu próprio pai não estaria sofrendo em nada, apenas as vítimas e os familiares delas. Ele apenas acreditava que fazendo isso seria uma forma de diminuir suas dores. Estava enganado e sabia, mas mantinha as mesmas coisas, as mesmas farsas. Ora usava peruca loira, ora negra, ora tornava-se ruivo; usava enchimentos para aparentar ser mais forte; ora tinha olhos verdes, ora azuis - o natural, ora castanhos e negros, mas sempre fazia isso porque era muito conhecido na cidade e jamais poderia deixar que fosse pego. A única marca que deixava no corpo das pessoas era para nunca perder a conta de seus registros.

- Acho que chegou a hora de parar – disse ela.
- Não acho, ainda tenho resquícios de dor dentro de mim – respondeu ele.
- As marcas sempre vão ficar. Por mais que você pegue um papel e o amasse, filho, ele nunca mais voltará a ser como antes, por mais que passe ferro ou faça qualquer coisa. As chagas sempre existirão.
- Eu não quero sentir o que sinto, preciso descontar nos demais.
- Você sabe que isso é ridículo. Preciso te contar algo que nunca disse antes. Sente aqui – apontava ela para a mesa recheada do café da tarde, preparado por ela.
Sentou e serviu-se de chá e bolachas com geléia de uva.
- Quando eu tinha três anos, minha mãe contratou uma moça para trabalhar como nossa babá – relatava dona Eunásia, enquanto sentava ao lado do filho. - A moça era boazinha, aparentemente, depois de uns anos ela passou a levar o namorado dela escondido. Quando mamãe saía, ficavam os dois tomando conta de mim e me abusavam. Ela pegava vários objetivos e colocava em mim, o namorado dela me obrigava a ter relações e a babá ria de tudo. Lembro das gargalhadas dela, do olhar e sempre sofri calada com isso. Acha que me contentava quando descobri o que seu pai fazia com você? Só porque todos seus irmãos eram gays e você era o único que gostava de mulher na família? Acha que eu gostava? Eu sofria calada porque ele ameaçava de morte não a mim, mas você. Falava que te mataria e eu pedia por Deus para que não fizesse isso.
Ele olhava arregalado para ela, jamais sabia que sua mãe sofrera coisas piores do que ele. Achava que todas suas dores eram as mais sofridas, sem se dar conta de tudo que a mãe passou.
Petrick chorava, se lamentava e pediu perdão a sua mãe por ser daquele jeito, tão egoísta e desumano.
- Se você quer diminuir sua dor, deve brotar contentamento nos lábios das pessoas ao seu redor. Quando fazemos as pessoas sofrerem, quem sofre primeiro somos nós. Antes de pensar em diminuir sua dor, pense em aumentar seus sorrisos. O sofrimento se vai assim. Queira sorrir, queira viver e a dor desistirá de habitar em você.

Ele se levantou e abraçou-a com intensamente.
- Vamos nos mudar daqui – determinou ele. – Se é para ter uma vida renovada, que comece por uma casa nova.

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1° Lugar na 112ª Edição Bloínquês