Ardente devaneio


O céu flamejava o esplendoroso pôr-do-sol. Na grama, faiscante, o reflexo se interpunha. Os peixes bailavam em consonância com o som simétrico do vento. Os corpos contemplavam tamanho espetáculo, mas recusaram-se ficar, apenas, na plateia. Entraram em cena: voluptuosos beijos foram trocados, longos abraços oferecidos e entregues. Os olhares, doces e intensos, eram dilacerados por ininterruptos toques labiais. A pele roçava noutra, as carnes gritavam, desejosas. Ambos os corpos se queriam. Ambas as peles se entregaram.

Não mais flamejante, o céu tornara-se escuro. Desejaram-se, amaram-se e realizaram peripécias. Mas o gosto da saudade invadiu os rostos, gotejando lágrimas infindáveis. Nada no céu, além de uma estrela tremeluzente. Nada naqueles corações, além de um amor ardente, uma vontade gritante de não partir. A noite chegara, a despedida também. Deixaram-se. Cruzaram outros mundos, outros percursos: outra vida.

Abriu os olhos e viu que já era dia. Mais um daqueles sonhos loucos e desejosos. Tomou seu banho e foi trabalhar. Foi sonhando no verdadeiro encontro, quando ele, realmente, aconteceria e não apenas mais uma ilusão, daqueles filmes em que a linda princesa espera e encontra o príncipe num cavalo branco.