Rotina oculta

Ela calçou os sapatos, retocou a maquiagem, ainda em sintonia com seu cheiro atraente.
Abriu a porta devagar e viu aquele corpo esticado na cama, sua maior vontade era pular em seus braços e acalentá-lo. Respirou fundo e resolveu voltar. Enquanto virava as costas ele foi despertado por uma batida repentina de seu cotovelo na cômoda ao lado da porta.
- Por que já vai?
- Não quero atrapalhá-lo, só vim vê-lo.
- Estava desejando esse momento, venha até aqui – ele falava enquanto levantava da cama e jogando o lençol, deixando à tona seu corpo nu.
O corpo dela se contraia por dentro, sentia aquele frio delicioso na barriga e a vontade aumentava a cada vez que ele se aproximava dela.
Roçou em seu ouvido:
- Eu não vejo a hora de lhe dizer aquilo tudo que eu decorei para nós.
- Não há o que dizer – ela falava tentando manter o pulso firme.
- Há sim, você se casará comigo e eu já decorei tudo que é preciso para falar um sim naquele altar.
- Como você é ridículo – ela mencionava sem demonstrar atração.
Ele puxou-a pelo braço e tentou beijá-la. Sem pestanejar ela retrucou:
- Não vou fazer isso se a primeira coisa que você vai dizer depois é "não conte a ninguém". Já estou farta disso tudo em oculto. Você, eu e uma história de amor que não pode ser revelada.
- Mas eu vou me casar com você e tudo isso mudará.
- Mudará? Mudará quando? Você é casado, como pretende casar duas vezes?
Ele puxou-a contra si, aquele cheiro dele deixava-a louca de prazer. Ele encostou seus lábios na nuca dela e aquilo mais parecia um teste impossível de ser passado de fase.
Beijou-o. Beijou-o com tanta intensidade que sua boca por completa invadia a dele. Beijou-o que a temperatura do quarto já não fazia valer as mesmas de segundos atrás. O vestido dela foi caindo as alças e ele pedindo mais, pedindo e ela cedendo. Ela pedia e ele cedia mais do que tudo.
Ela queria pensar em tudo, nos planos, nos projetos, mas não conseguia. A todo instante sabia daquele amor platônico.
Fizeram amor até anoitecer, quando ela já não aguentava mais senti-lo dentro dela.
Ele adormeceu. Ela acordou-o.
- Eu não quero falar agora, não sabe que preciso dormir?
- Venha aqui, amor... Quero saber quais as frases que você tanto decorou para nosso encontro no altar.
- Lá vem você com essa história de casamento de novo, não aguento mais! – ele falava meio sonolento, mas era notório o entendimento.
- Você disse que se casaria comigo – ela disse indignada com a resposta dele.
- Eu já sou casado, esqueceu? Não posso fazer nada.
Aquilo mais parecia uma facada em seu peito. Ela levantou, tirou um objeto debaixo da cama e sacudiu-o:
- Acorda, seu cretino!
Ele arregalou os olhos e viu a arma apontada para si.
- Não faça isso, pelo amor de Deus. Eu não fiz nada! – ele gritava enquanto pulava da cama tentando desvencilhar-se da mira.
- Eu sou o seu brinquedinho, não sou? Vá achando, seu cachorro!
Ela atirou e colocou fim em mais um ponto final.

Ela abriu a carteira dele, tirou dinheiro, cartão, cheques e os documentos. Pegou um lenço em sua bolsa, limpou as digitais na cama, na cômoda, na carteira, pegou a munição que restava no revólver e colocou em cima do corpo. Limpou a maçaneta e saiu.

Entrou no outro quarto do hotel, tirou os cabelos negros e agora aparecia uma ruiva; retirou a maquiagem e mostrava nitidamente suas sardas. Trocou o vestido, embrulhou-o com cuidado e colocou dentro da bolsa.

Sentou na cama, pegou o telefone e discou para a polícia. Informou que ouviu tiros e não sabia do que se tratava, pediu urgência. Ela chorava desesperada, uma cena e tanto para uma novela de horário nobre. Ela manuseava o revólver como um amigo íntimo e não parecia se importar. Averiguou se havia algum resquício de munição e, por fim, jogou-a na janela da sacada que ficaria em frente a dele.

Arrumou suas coisas e saiu. Ruiva, linda e esvoaçante.
“Não existia crime perfeito até não existir os meus” – ela levava essa frase consigo e a repetia a cada caso envolvente com um de seus amantes.


A ação final


Papais,


Antes de qualquer coisa, quero pedir desculpas. Desculpas por não ser o que vocês esperavam que eu fosse; desculpas por nunca poder ser inteligente como Evan; por nunca estudar o curso de direito que vocês tanto sonharam para mim, mas não fui capaz de realizar esse desejo.

Reconheço que nunca fui bom com as garotas como Evan. Nunca fui numa festa e fiquei com várias na mesma noite. Não consigo ser dessa forma. Eu prezo o amor, a paixão, a ternura e o laço da conquista, desculpe por ser assim.
Desculpe por amar vocês demais e por não conseguir sentir a retribuição. Claro, só posso sentir quando há amor de verdade e eu sei que vocês não me amam. Não, não estou cobrando nada, aceito os sentimentos que vocês têm por mim. Afinal, quem amaria um cara como eu?
Eu tentei ser o que vocês tanto quiseram, mas, a força maior de continuar sendo eu mesmo, falou mais alto. Não os culpo, eu sou completamente errado nessa história toda, mas podem acreditar que o amor que sinto permanecerá aqui dentro, indelével.
Dê um abraço em Evan por mim, peça-o que me desculpe pelas coisas que falei, pelas brigas. Eu reconheço que ele é melhor e sempre foi. Essa eu perdi, perdi para sempre, mas ganhei o irmão que nunca havia valorizado e hoje aprendi.
Um grande beijo. Eu amarei vocês, até mesmo quando eu terminar esta carta e fechar meus olhos.
Perdoe-me por não ser forte o suficiente para lutar por essa vida que Deus me deu.


Sei que ao entrarem aqui e verem meu sangue deslizando pelas paredes do meu quarto, o choque não será tão grande.


 Daquele que mais amou vocês, mesmo não sendo amado.


Evan imprimiu a folha no computador que estava em sua frente. Sentou-se e leu-a com cautela, para que não houvesse nenhum vestígio. Dobrou o bilhete ao lado do corpo de Taylor e saiu saltitante, comemorando. Sabia que nunca desconfiariam que ele fosse o assassino do próprio irmão.