Resenha: A filha do pântano


Pode conter o que os chatinhos chamam de spoilers!

Helena leva uma vida tranquila ao lado do marido e das duas filhas. Enquanto o marido trabalha fora, ela produz e vende geleias de vários sabores, para ajudar nas despesas de casa. Ela carrega consigo um enorme segredo, que precisou esconder desde os seus treze anos. Acontece que a fuga de um presidiário extremamente perigoso pode mandar tudo o que ela construiu por lama abaixo. Helena é filha de um ato horrendo. Quando sua mãe tinha ainda cerca de dezesseis anos, fora sequestrada e mantida em cativeiro. Abusada frequentemente, acabou gerando no ventre uma criança que também fora mantida em cativeiro. Após conseguir fugir, ajudou a colocar o pai e sequestrador na cadeia. Com a fuga dele, porém, ela teme pela vida do marido e das crianças, pois sabe que o pai jamais perdoaria o que ela fizera. Agora, ela deve seguir os passos do pai conforme fora ensinada desde pequena e torcer para encontrá-lo... e não ser encontrada.

“A filha do rei do pântano” tem (teria) uma estrutura bastante interessante. Narrada em primeira pessoa pela própria Helena, conta a história de como ela e a mãe sobreviveram por tanto tempo numa cabana em meio a uma floresta e cercada por pântanos. A história no tempo presente se passa em apenas um dia. Do momento em que ela ouviu no rádio do carro que o pai havia fugido ao fatídico (e previsível) encontro dos dois. No entanto, a maior parte da história é ela contando tudo o que aprendera através do pai no tempo de cativeiro. Isso porque ela precisa justificar durante a história coisas como saber atirar, saber rastrear passos de alguém no escuro ou mesmo cortar um pescoço de veado com uma faca. Assim, os capítulos que são lembranças do tempo de cativeiro são separados com o subtítulo “A cabana”.


Estes capítulos, por sua vez, trazem no início excertos do conto “A filha do Rei do Pântano”, de Hans Andersen, o que, em minha opinião, é mais um ponto negativo, visto que eles nada ilustram na narrativa; só prestam para mostrar que já existe uma história com esse nome. Além do mais, o conto de Andersen carrega um ar totalmente diferente do livro em questão.

Ainda, a autora não consegue manter a personagem principal no momento presente, aparentando ter certa dificuldade. Dessa forma, mesmo que não seja em um capítulo “A cabana”, a história acaba voltando para o tempo de criança, criando uma atmosfera repetitiva que não evolui.

A personagem de Helena, por sua vez, é criada sob uma dualidade psicológica muito grande, muitas vezes colocando a própria mãe como inimiga e amando milhões o pai (mesmo depois de saber o que é um sequestro). A sua criação também é bastante dúbia se comparada ao nível de inteligência que ela apresenta. Ademais, mesmo que ela tenha sido ensinada a certas coisas desde pequena, é inconcebível imaginar uma menina de seis anos carregando uma espingarda quase do tamanho dela em uma neve de mais de trinta centímetros e matando um alce com um (primeiro) tiro (na vida) perfeito.


Infelizmente, o estilo narrativo da autora também não ajuda muito. Além de evidenciar certos pontos repetitivos, a descrição em demasia acaba deixando a leitura extremamente cansativa, ao passo em que ainda cria situações que de nada acrescentam na narrativa. Perde-se muito em qualidade assim, uma vez que a história tinha tudo para seguir duas linhas temporais. Ela tem muito para contar do tempo em que era criança, mas pouquíssimo para a caçada ao pai. Penso que uma caçada que durasse pelo menos uma semana seria mais proveitosa e criaria uma atmosfera de perseguição muito mais atrativa. Mas, infelizmente, não é isso que acontece. A história é monótona, poucos são os momentos de clímax e há muitas coisas que nos deixam cheios de questionamentos.

 

Título: A filha do rei do pântano (exemplar cedido pela editora)
Autora: Karen Dione
Editora: Verus
Páginas: 264
Ano: 2019 
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