Resenha: "Mr. Mercedes" e "Achados e perdidos"


Estava precisando de uma leitura que fluísse, que não me desse vontade de parar. E aqui está! Reafirmo que me surpreendeu, mas não por causa do conjunto, até porque a narrativa é bem simples (me fez ler com uma velocidade estranha até) e a história não demonstrou dificuldades e reviravoltas para que os personagens conseguissem o que queriam. Mas, um ponto que me chamou muito a atenção, tem a ver com as descrições do King.

Recentemente eu disse em alguns comentários que ele não tem mais medo de descrever o que acontece quando, por exemplo, um carro explode com cinco pessoas dentro. King destrincha o que consegue. Porém, ele está indo além, e esse livro tem uma característica muito peculiar do Naturalismo Brasileiro, que trata de uma descrição cruel dos personagens, como na passagem: "Eles deixaram os aleijados e os debiloides entrarem primeiro" e muitas outras que eu presenciei.

A diferença, claro, é que no Naturalismo, as pessoas eram retratadas, literalmente, como animais, muito bem observado em "O cortiço". Também percebi que agora King não abre mão de algumas referências. Em Mr. Mercedes podemos encontrar Hitchcock, Agatha Christie e até De Niro, quando fez Taxi Driver (um filme espetacular, diga-se de passagem). E claro, por que não uma referência a ele próprio, citando Pennywise? Tem também!!

Enfim!! Depois da pequena decepção em Revival, foi bom ler um livro que não me desse vontade de parar.


Atentem-se muito para o que dizem por aí a respeito desse livro. É um King... é bom! Mas será que é tudo isso?
Ok... ok... vamos com calma. Vamos começar do início

Em Achados e Perdidos King nos traz a história de um garoto que encontra enterrado nos fundos de sua casa um baú. Ao conseguir abrir, Peter descobre um verdadeiro tesouro. Muitos dólares em dinheiro e milhões deles em escritas não publicadas de um dos mais considerados autores norte-americanos do século. O que Peter não sabia era que aquele tesouro estava enterrado havia mais de trinta anos. Ele tinha sido roubado por Morris Bellamy (ainda com 23 anos), após matar o tão famoso escritor. O que Peter também não sabia era que Bellamy estava preso, condenado por estuprar uma jovem moça, com o agravante de ser pego no flagra. O que Peter também não sabia era que Bellamy, depois de mais de trinta anos preso, enfim conseguia sua liberdade condicional. E agora ele quer o seu tesouro.

O nosso querido personagem principal Bill Hodges entra na história quando o nosso outro personagem principal já está entrando em parafuso devido às encrencas em que se metera.

Quando Peter achou o tesouro, sua família passava por uma das piores crises. Ele até pensou duas vezes, mas, como um bom filho, aos poucos foi dando o dinheiro encontrado para os pais. Um alívio imenso para eles. Quando o dinheiro acabou, Peter decidiu vender os manuscritos, que poderiam valer milhões de dólares. O que ele não esperava era que o possível comprador fosse “amigo” de Bellamy, e sabia da procedência desses manuscritos. Andrew Halliday passa a chantagear Peter, que a partir de então começa a mudar de atitudes e aparência. Preocupada, sua irmã desabafa com uma amiga. A amiga é irmã de Jerome, que é ajudante de Bill Hodges. Conexões feitas, Bill Hodges assume o caso.

A essa altura do campeonato, porém, Bellamy já está mais do que preparado para acabar com Peter e reaver o seu tesouro.
E é aí que o pau começa a quebrar.

Voltando lá para o início.
Ouvi várias vezes pessoas dizendo que não sabiam se tratar de uma trilogia e acabaram lendo o segundo livro antes do primeiro. Verdade verdadeira, pode-se dizer que isso não seria um problema. Algumas coisas ficariam sem explicação, mas é só ler o primeiro que tudo se esclareceria. Quantas histórias não são feitas assim, de trás para frente? O conteúdo principal não seria prejudicado.

De forma implícita (talvez não) King nos dá uma aula de como manter uma singularidade na narrativa de um livro para outro. Caso você leia um livro logo após o outro, você perceberá que a linguagem é a mesma, o ritmo é o mesmo, a forma como ele encaixa as histórias dos personagens é muito semelhante. Não diria que é uma verdadeira continuação, pois são histórias distintas, ligadas por um ponto ínfimo.

A minha bronca fica por conta, como sempre, do falatório a respeito do livro. Repetindo: É um King... é muito bom! Mas será que é tudo isso?

A verdade é que história demora bastante para desenvolver. E as primeiras páginas não são exatamente as melhores do livro. A salvação fica por conta do estilo do King, que consegue fazer com que uma minhoca se rastejando seja interessante. Bill Hodges mesmo só aparece após mais de cem páginas (página 135, para ser mais exato). Não é “encheção” do King, mas a movimentação é bem baixa. Um daqueles momentos em que você para de ler e olha para o teto, pensando “PQP!!”, só acontece na página 303. Seria muito foda se continuasse daquele jeito, mas aí, em minha opinião, King deu uma cagadinha e voltou atrás.

Um furo que eu encontrei (corrijam-me se eu estiver equivocado, por favor) trata-se de a querida Holly ter descoberto que o bandido em questão era Morris Bellamy. Como ela descobriu que era ele, se em sua ficha não havia nada relacionado ao latrocínio de Rothstein (o autor)? Não há uma conexão entre Bellamy e o autor. Portanto, não tem como haver uma conexão entre Bellamy e Peter. Por mais que Peter diga que está com os manuscritos de Rothstein, não há como Holly saber que é Bellamy que está atrás de Peter, porque Bellamy foi condenado por outro crime. A mãe dele pagava os impostos da casa, beleza. Ele foi condenado a prisão perpétua (no mesmo ano em que matou Rothstein), beleza. Mas isso ainda não faz conexão com nada. Sorry, King, vacilation aí!!

Outra coisa, que eu também destaquei em Amityville, é que o narrador, que é onisciente, sabe que Morris Bellamy tem lábios muito vermelhos. Começa então a chamá-lo assim: “Lábios Vermelhos”. Após uma conversa com Peter, e ver a foto do assassino, Holly também começa a chamá-lo dessa forma. E essa característica parece ser papel fundamental dali em diante.

Disseram que Bellamy tinha tudo para ser a nova Annie Wilkes, mas o coitado não chega nem perto. É inconcebível fazer essa comparação. Tampouco, como está escrito na contracapa do livro, é uma história que retoma os temas de Misery. Tá longe, muito longe. Bellamy não é um dos vilões mais arrepiantes do King. O cara é do mal, mas não é um daqueles com o qual criamos laços de amor e ódio.

Fechando os meus contradizeres, não creio se tratar de “uma história sobre o poder da literatura de mudar vidas – para o bem, para o mal, para sempre”. A literatura tem um grande poder, sim, sobre Bellamy e Peter, mas a obsessão só recai sobre Bellamy. Peter tem sua vida mudada por outros motivos.

Enfim!! Calma aí, people. Esses meus contradizeres não querem dizer que o livro seja ruim, ok? Como já disse, o livro é muito bom. Narrativa impecável, enredo bem desenvolvido, história inédita (como sempre). O que me dá nos nervos é esse parlatório todo ao redor do livro. Parece uma propagando mal desenvolvida. Como se o livro não fosse capaz de se vender sozinho e a equipe de marketing precisasse fazer alguma coisa urgente.

Fechando minha opinião: King surpreende com a história, mas, em comparação com Mr. Mercedes, é inferior. 

Livro 1: 
Livro 2: 

Título: Mr. Mercedes e Achados e Perdidos - Primeiro e segundo livro da Trilogia de Bill Hodges
Editora: Suma de Letras
Autor: Stephen King
Páginas: 400/348
Ano: 2016

24 Revelaram sentimentos:

  1. Nunca li nada desse autor, acho que já disse isso anteriormente, porém tenho muita vontade de ler alguns livros dele, dentre ele esse em especial, e inclusive já o adquiri, no entanto por se tratar de um gênero que não costumo ler acabo por ficar com um pé atrás. E bom saber que esse livro tem uma narrativa impecável, apesar de a trama demora a se desenvolver, e possui uma narrativa simples de fácil compreensão. Tenho certeza de que essa e uma história e tanta.

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  2. Oi Marcos, apesar de conhecer e já ter ouvido falar e muito de King ainda não li nenhum de seus livros, pois não sou uma fã assumida de terror, contudo essa trilogia me parece ter uma "pegada" policial e apesar do segundo livro ter tido uma leve queda em relação ao primeiro a história parece ser muito boa e espero ter a oportunidade de ler em algum momento :)

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  3. Olá, Marcos.
    Que coleção a sua hehe. Eu já li mais de 20 livros do King e não sou fã dele. Acho as histórias enroladas demais e metade do livro é chato, só depois da página 100 em diante que as coisas começam a acontecer. pelo menos todos que li dele foram assim. Quanto a referencias, os livros que li dele sempre tem essas referencias, principalmente a outros escritores. E mesmo não me interessando tanto vou ler, já que ganhei o primeiro livro em um sorteio hehe.

    Prefácio

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  4. Esse autor pelo que vejo falando consegue surpreender pelo tom da história e como tudo é feito. Quase parece inédito. Ao menos vejo muita gente falando que ler histórias dele é quase como ler algo que você nunca viu antes. Mas sempre tem aquele que não acaba prendendo muito o leitor, mas aí é coisa de cada um mesmo né. Opinião.
    Achei esses livros dele muito legais de sinopse e pelo jeito prende e faz o leitor ficar louco por mais. Só que vi muita gente falando que o primeiro é melhor que esse segundo. Acho que pela novidade, não? Sei lá, segundos livros podem acabar perdendo um pouco a graça quando o primeiro deixa a gente cheio de expectativa.
    Gostaria de ler pra entender porque tanto falatório com esses livros.

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  5. Bom, eu nem tenho o que falar... O King é meu autor favorito! Amo a escrita dele!
    Eu já quero ler essa trilogia a um tempo, e um dos motivos foi ver você falando sobre... Parabéns pela resenha! Abração!

    www.lendo1bomlivro.com.br
    @lendo1bomlivro

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  6. Marcos!
    Tenho notado que nos livros mais recentes do King, tem se arriscado mais, tanto em variar o estilo, quanto aprimorar a escrita, o que é louvável, mostra o constante crescimento e aprendizado, além da humildade em aprender.
    Semaninha De muita luz e paz!
    “Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância.” (Sócrates)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de JANEIRO dos nacionais, livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

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  7. Oi, Marcos!!
    Comecei a recentemente a ler os livros de Stephen King e o primeiro livro que li foi Misery, gostei muito do livro e da escrita desse autor. E é por esse motivo que estou bem curiosa para ler essa trilogia Bill Hodges e também por está bem curiosa depois que li várias resenhas falando super bem destes livros. Espero ler esses livros em breve!!
    Beijoss

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  8. Oi, Marcos
    Acho que já citei aqui que nunca li nada de King, né? Apesar de não ser meu estilo de livro preferido tenho curiosidade em suas obras, ainda mais por essa característica que você citou que seus livros sempre possuem histórias inéditas. O marketing vai sempre existir, não tem jeito, né?

    Blog Livros, vamos devorá-los
    Gostei de saber que o livro vale mesmo a pena.

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  9. Ótima resenha Marcos!! Sou uma das poucas pessoas que ainda nÃo leu nada do King,mas pelas resenhas e ótimas recomendações aqui do blog ando doida p/ ler! Sua escrita me parece genial,pois ele consegue descrever sobre temas que ás vezes não é tão interessante assim,mas que por suas escritas acabam ficando,então estou doida p/ descobrir por mim mesma o quão talentoso é esse autor.
    Em relação ao livro resenhado,eu gostei do tema que ele aborda,de um menino que fica refém da chantagem de um bandido após encontrar um tesouro roubado por ele,acho legal o desenrolar p/ saber como o assassino será pego. A única coisa que me deixa com um pé atrás é o fato de o livro demorar um pouco a começar mesmo,melhor dizendo,para desenvolver a história,e eu confesso que não sou de muita paciência,então se o livro não me fisga logo no início,fico receosa de continuar,a não ser que seja um autor ao qual eu já conheço. Mas por outro lado,você exalta bastante a narrativa dele,então creio que mesmo essa demora de chegar nos finalmente,não ficará maçante!
    Depois de "O Iluminado" e "Carrie,a Estranha",esse vai p/ a lista!
    Abraços.

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  10. Oi Marcos! Eu já li alguns livros do Stephen King, mas a trilogia Bill Hodges, ainda não tive oportunidade de Ler. Um coisas que tenho notado nas tramas de King é que há sempre um personagem escritor, isso é muito interessante. Gosto muito da escrita de King, mesmo que em alguns livros ache que ao longo da trama ele divaga um pouquinho mesmo que não aja desvios muito grande de consciência. Sobre essa trilogia, tenho visto alguns fã decepcionados sobre a escrita e o fato do autor ter focado muito mais no suspense do que macabro. Mas estou curiosa para ler Achados e Perdidos, porque Stephen King é sempre Stephen King! Abraços!

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  11. Que pena que o segundo volume perde uma estrela, li alguns livros do autor e gostei, quero ler essa trilogia, teve livro dele que achei o começo arrastado devido as descrições, esse pelo visto é assim. Gosto quando os livros tem outras referencias de autores. Um dia quando for ler vou prestar atenção nesse furo.

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  12. Eu já li Mr. Mercedes e também amei o livro! Eu comecei a ler o livro e simplesmente devorei ele (acho que é impossível eu não gostar de algum livro do King). Gostei de todo o enredo do livro, e achei todos os personagens muito bem construídos. Agora estou doida pra ler esse segundo livro *u*

    Beijos!

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  13. Eu só li um livro desse homem dos 1500 livros que ele tem kkk, porque vamos ser sinceros esse homem escreve muito e não sei de onde vem tanta criatividade para criar essas história de terror. Eu vejo que você aproveitou bem esse livro mas eu devo dizer que não me interessei muito pela história então vou dispensar a leitura.

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  14. Realmente vem tendo esse falatório com os livros do King. Acho um tanto verdade pela maioria dos livros dele ser tão bom, mas pode ocorrer de um não ser tão bom quanto o outro, como foi o caso.
    Eu até agora não pude acompanhar um livro dele mas estou ainda assim animada pra isso.

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  15. Nossa, que interessante isso das características se assemelharem ao Naturalismo Brasileiro. Eu gosto muito do autor e tenho tido muito boas experiências com os livros que tenho lido, com certeza esse não vai ser diferente. Gosto do mogo como o King faz de prender o leitor do início ao fim com seus mistérios. Essa história do tesouro deve dar muito o que falar mesmo.

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  16. Admito que nunca li nada do King mas sempre ouvi falar muito bem de todas as obras dele mas alguns títulos me dão um pouco de preguiça e essa trilogia se encaixa nisso, a história não chamou minha atenção e acho que ele deve ter livros melhores.

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  17. Oi Marcos...

    Ainda não tive a oportunidade de ler nada do King... Tenho muita curiosidade de ler algo dele, e essa trilogia parece ser uma ótima pedida para conhecer um pouco da escrita desse autor... Espero poder ler em breve...
    Abraços.

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  18. faz tempo que eu não leio nada do King
    mas espero retornar as minhas leituras em breve
    o problema é que eu já nem sei por onde começar

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  19. Nunca li nada do King ainda. Essa trilogia parece ser muito boa, estes dois primeiros volumes possuem um enredo que cativa, pena que comparado a outros ele não seja tão bom, que ele tenha alguns furos babacas. Gostei da resenha e dica.
    Abraço!
    A Arte de Escrever

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  20. Oi!!

    Em geral King é um escritor surpreendente, o que explica qualquer hype q tenha um livro dele, porém, é meio impossivel um autor que tenha tantos livros publicados se dê em todos, não é?
    Esses em questão eu não li, mas parecem ser relativamente bons, apesar de um ou outro furo que vc tenha encontrado hahahahaha

    Bjbj

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  21. Esse livro eu tenho, ganhei em um sorteio, mas ainda não li pois estou esperando ter em mãos, os outros dois livros da trilogia. Pelo que venho lendo em resenhas e diversos comentários, ele é tão bom ou melhor ainda que o primeiro livro. Espero poder ler este ano ainda.

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  22. Oi Marcos, tudo bem?
    Nunca li nada do King, e nem sei por onde começar. Ouvi dizer que os livros dele tem uma sequência que tem que ser seguida para não pegar spoiler de outras histórias e eu fiquei perdidinha. Achei a premissa de Mr. Mercedes mais legal do que essa, mas ainda assim tenho vontade de ler Achados e Perdidos. Já ouvi falar muito bem da escrita do King, mas até os melhores cometem deslizes as vezes. ótima resenha.
    Beijos

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  23. Olá, é incrível como King prende os leitores, não precisa nem ser uma parte bombástica da obra para que não queiramos desgrudar do livro. Vejo que essa trilogia é muito bem caracterizada e o primeiro livro é mais lendo justamente por apresentar a história no seu todo. Beijos.

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  24. Como eu quero ler esse livro!
    Quero muito ler algum livro do King e quero começar com esse
    !Amo histórias sobre Serial Killer e quando vi esse livro me apaixonei!
    Tenho que comprar para ler!

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