24 janeiro 2019

Resenha: O holocausto


Apesar da complexidade e da fragilidade acerca da temática da qual dispensa esse livro, é muito comum encontrarmos obras, literárias ou não, sobre o holocausto. Sendo assim, não é pecado dizer que o mercado encontra-se, de certo modo, saturado de materiais que envolvem o ambiente atroz pelo qual o mundo, principalmente grande parte da Europa, passou. Porém, o trabalho que a Editora Vestígio buscou traduzir e lançar no mercado brasileiro é muito mais do que um apanhado de artigos e/ou histórias reais romantizadas criadas a partir do intuito de fazer seus olhos lacrimejarem. 

Antes de dar continuidade, gostaria de avisar que ao final serão inseridos quotes do livro e... alguns são bem pesados. Ou seja, eu não recomendaria a leitura por quem tem ou está com o emocional abalado. 

Fruto de um trabalho de 25 anos, “O Holocausto: uma nova história” é um livro que narra os acontecimentos, como o primeiro capítulo sugere, desde a origem do ódio até o emocionante dia em que a Alemanha perde a guerra. Com um desenvolvimento que só duas décadas de trabalho podem trazer, Rees relata através de textos originais e entrevistas pessoais como nasceu o ódio pelos judeus (e consequentemente os ciganos entraram na dança), como a perseguição ganhou corpo de forma rápida e imparável e como Hitler foi capaz de influenciar líderes de diversos outros países, transformando quase toda a Europa em um cemitério judeu. 


Conforme os capítulos passam (e junto com eles os anos da guerra), nós vamos nos dando conta de que a história que conhecemos é muito mais que meramente superficial. Aqui, Rees nos apresenta a personagens que viveram, presenciaram e sobreviveram à guerra tanto do lado nazista quanto do lado dos judeus. Assim, através desses relatos o autor nos apresenta um apanhado pleno de emoções reais e nos faz conhecer, como se pegasse em nossas mãos e nos pusesse lá dentro, a Alemanha, Polônia e vários outros países, e nos transporta diretamente para os campos de concentração e extermínio. 

Com isso, ficamos sabendo que Auschwitz faz jus à fama que tem, mas também temos conhecimento de que muitos outros campos de extermínio foram diversas vezes piores que o supracitado, mas que não aparecem nos livros de História. Ainda rondando a temática do que não sabemos, Rees dá à luz um complexo de informações que explicitam as variadas formas que os nazistas buscavam para eliminar os judeus. De situações estarrecedoras a aquelas que seriam cômicas não fosse o contexto, este livro é um verdadeiro passeio pelos métodos e propostas para eliminar os milhares de judeus que chegavam aos campos de concentração. Arrisco-me a dizer que não há um único capítulo onde não haja menção sobre meios que os nazistas inventavam para disseminação do ódio e extermínio dos judeus. 

Com mapas detalhados que nos mostram os números absurdos de seres humanos que foram levados de suas casas e obrigados a viver em situação extremamente degradantes; e fotografias (as quais eu só não cuspi para não estragar o livro) que mostram todos os personagens de uma das eras mais escuras do mundo, este livro é o que se pode dizer que é completo. Muito mais do que mostrar (o) que houve (n)o holocausto, essa “nova história” mostra todo o descaso de um continente para com aqueles que precisavam de ajuda. Passando pela opinião da Igreja Católica e as consequências de ficar contra Hitler nessa guerra. 


Devido aos capítulos longos e muito detalhados, sugere-se que o leitor faça uma leitura pausada, um capítulo por vez, de modo que ele possa digerir e compreender as passagens do capítulo em questão. Ao fim do livro temos uma vasta lista de referências e endereços que podemos visitar para obter muito mais informações que temos aqui; mas que, além de tudo, corroboram com a imagem de “completo” que temos do livro e com a complexidade da busca para completá-lo. 

Sobre a edição: não posso dizer outra coisa senão perfeita. O livro é em capa dura, preta com texto preto brilhante (acho que condizente com o momento), mais uma segunda capa com detalhes em branco. Como já citado, além de um mapa detalhado, o livro passa por três sessões de fotografias que mostram os personagens de tamanha atrocidade. 


Quotes

“[...] O livro não era um projeto para o Holocausto – Hitler não traçou um plano para exterminar os judeus –, mas expõe claramente a natureza de seu antissemitismo. Hitler explicou, com mais detalhe do que em qualquer manifestação anterior, exatamente o porquê de odiar os judeus. Era um ódio que hoje pode ser lido como fruto de uma mente tão atolada no preconceito que beirava a demência”, p.46. 

“Enquanto judeus morriam por falta de comida no gueto de Varsóvia, em outra parte o Estado nazista discutia planos de levar milhões de pessoas à morte após a invasão da União Soviética [...] no dia 23 de maio, o mesmo órgão produziu outro documento intitulado “Orientações Político-Econômicas para a Organização Econômica do Leste”, segundo o qual 30 milhões de pessoas poderiam morrer de fome na União Soviética em decorrência do sequestro de sua comida pelo exército alemão”, p.239. 

“[...] De modo hesitante, quase com medo, a pessoa passa a mão pelo corpo inquieto, depara com ossos, costelas, percorre com a mão as pernas e se descobre, constata de repente que até bem pouco tempo era mais gorda, tinha mais carne – e fica impressionada com a rapidez com o que corpo se deteriora [...] Uma palavra, uma ideia, um símbolo confronta todo mundo: pão! Por um pedaço de pão a pessoa vira um hipócrita, um fanático, um desgraçado. Dê-me pão e você será meu amigo”, (Oskar Rosenfeld) p.282.


“[...] profetizei ao judaísmo que, na eventualidade de a guerra se mostrar inevitável, os judeus iriam desaparecer da Europa. Essa raça de criminosos tinha em sua consciência os dois milhões de mortos da Primeira Guerra Mundial, e agora centenas de milhares mais [...] A propósito, não chega a ser uma má ideia os rumores públicos que nos atribuem um plano de exterminar os judeus”, (Hitler) p.285.

“[...] ele viu valas com ‘milhares de cadáveres’ dentro, e conheceu em primeira mão os problemas práticos de gerenciar um campo de extermínio. Contaram-lhe que ‘uma das valas havia transbordado. Haviam colocado cadáveres demais nela e a putrefação progrediu muito rápido, de modo que o líquido no fundo empurrou os corpos para cima, até saírem, e os cadáveres relaram pela encosta’”, p.319.

“O maior desses sádicos era Otto Moll, o membro da SS que supervisionava a operação dos crematórios. Dario Gabbai lembra como esse homem gostava de matar garotas nuas atirando nelas ‘nos seios’. Em 1944, quando a chegada de um número enorme de judeus húngaros obrigou a incinerar os corpos a céu aberto, em imensas valas – já que os crematórios não conseguiam dar conta do volume –, Moll uma vez atirou crianças diretamente às chamas para incinerá-las vivas”, p.386. 


“Logo depois que chegou, ela foi informada por outros internos que ‘há câmaras de gás aqui’, mas simplesmente não parecia possível que existissem tais lugares. ‘Ninguém acreditava’, diz Ida. ‘Nenhum de nós acreditou. Não dava para acreditar. Dizíamos que estavam brincando ou então que haviam enlouquecido’. Só depois de sentir odores insalubres vindo dos crematórios de Birkenau é que ela ‘finalmente’ aceitou que ‘talvez eles estivessem certos a respeito do cheiro, talvez estivessem de fato queimando gente’”, p.431. 

“Israel foi ficando cada vez mais ansioso. Não só nunca era escolhido como estava ficando cada vez mais fraco. ‘Todo dia havia racionamento de comida – simplesmente não era suficiente, era uma dieta de inanição. E o sentimento mais arrasador além do medo da morte é a sensação da fome. A sensação da fome é uma sensação tão esmagadora que encobre qualquer outra sensação, quaisquer outros sentimento humanos [...] [você fica] como um cão procurando comida’”, p.450. 



Título: O holocausto: uma nova história (exemplar cedido pela editora)
Autor: Laurence Rees
Editora: Vestígio
Páginas: 600
Ano: 2018

13 comentários

  1. Eu acredito que por mais livros que saim com este tema, sempre faltará algo a ser escrito e revelado.
    Foi uma época crua e dura demais, não é possível alguém de fato um dia, conseguir dizer tudo, tudinho mesmo que aconteceu ali, nestes anos todos.
    Cada livro lançado é como se a história se repetisse mais uma vez, trazendo um ou vários personagens novos.
    Primeira resenha que leio deste senhor livro(que capa, que título, que diagramação) e já quero demais poder ter ele em mãos!
    É a parte da minha pequena biblioteca que mais tento aumentar.rs
    Beijo

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  2. Olá,
    Tudo isso foi tão cruel e desumano e que mesmo com raízes tão profundas de ódio, me pergunto o que gerou tudo isso. Torturar, assassinar e quebrar qualquer noção de moralidade e ética, o quão longe alguém pode chegar. Não sei como tanta gente apenas o seguiu e muitos outros apenas assistiu. O meu medo é que isso talvez aconteça de novo. As pessoas tem dificuldade em aprender com a história. E como o comentário acima, por mais que livros sejam escritos e filmes sejam feitos, não é capaz de suprir o quanto de histórias e vidas foram interrompidas de forma abrupta e miserável apenas por existirem. Por respirarem.

    Abraços.

    Ruby W.

    newsfallenbooks.com
    Instagram: @Blogfallenbooks

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  3. Eu concordo quando você diz sobre o quão saturado esse assunto pode estar no meio literário, mas é incrível que quanto mais leio sobre o assunto ainda mais me interesso, seja qual livro for. O Holocausto me chamou bastante a atenção por conter relatos de ambos os lados dessa grande tragédia, além de focar em vários países. As fotos complementam muito bem a obra, algumas chegam a ser perturbadoras.

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  4. Mas que livro perfeito sobre o assunto. Adorei que não fica romantizando as coisas como muito livro do tipo faz. É legal ler coisas assim, gosto muito daqueles romances que fazem alusão ou usam do assunto pra se desenvolver, mas é ótimo quando a gente tem a coisa crua e real pra ler. É um assunto que muito me interessa e não canso de ler sobre. É horrível como a gente descobre mais coisas pavorosas sobre isso a cada leitura. Eu fico desacreditada na raça humana. É muita crueldade. Dá pra ver que tá um trabalho bem completo e gostei que tenha imagens pra ilustrar bem o que foi esse tempo. Os quotes, só por eles já deu pra ver novas coisas que não tinha ideia. Leria.

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  5. Caramba! Que resenha sensacional! Fiquei apaixonada pelos quotes selecionados com tamanhos detalhamentos. O tema é sempre muito delicado e saber que a obra traz fatos bem apurados é algo maravilhoso. Sempre ficarão buracos ou detalhes aprofundados posteriormente para os encaixes, não é? Mas saber que desde já de tantos tópicos sobre absurdos humanos já é um enriquecimento filosófico e social imenso, sem dúvidas.

    semquases.com

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  6. Marcos,
    Acredito que deveria haver mais e mais livros sobre o assunto, parece que mesmo com tanto conteúdo, mesmo massante, os seres humanos ainda não aprenderam nada, infelizmente...
    Sobre a história, conheço um pouco, não tem como negar que chega a embrulhar o estômago de tão forte, são relatos sobre o ápice da maldade, um horror!
    A edição, pelas fotos, está belíssima, nem sei se isso é bom, de tão real que as palavras são!
    Beijos

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  7. Acho que todo mundo deveria refletir sobre o passado da humanidade, principalmente os acontecimentos da 1° e da 2° Guerra Mundial, assim ver que o ódio só serve pra destruir.
    Gostei que esse livro mostra a realidade nua e crua através das palavras e das imagens, assim podemos ver o quanto o ser humano é cruel e desumano.

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  8. Só de ler os quotes já dá uma certa aflição, imagino como o livro deve ser pesado, porém rico em informações. É sempre bom conhecer a verdade por trás de uma tragédia como essas para termos ciencia e não cairmos no mesmo erro.
    O Holocausto é uma parte da história que sempre me chamou a atenção, com certeza quero ler esse livro, mesmo achando repugnante os atos cruéis do Hitler e seus asseclas.

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  9. Eu gosto bastante de livros que são ambientados na Segunda Guerra Mundial e principalmente de livros que relatam os acontecimentos dessa época em si Mas o que eu mais gostei nesse livro foi que ele é tudo isso junto a um estudo com várias fotos anexadas que caracterizam o livro como uma obra de extrema importância para quem quer aprimorar os conhecimentos gerados pelo governo Hitler

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  10. Oi, Marcos
    Gosto de ler livros com esse assunto, mas esse não conhecia.
    Mesmo os livros que abordam o holocausto com romance e esse que você resenhou, sempre terá mais coisas para descobrir o horror que essas pessoas passaram. Um homem cruel, louco, desumano e ainda encontrou outros homens como ele para destruir vidas.
    Os quotes são realmente fortes, porém verdadeiros. Espero poder ler, beijos!

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  11. Marcos!
    Tanto quanto nós lemos sobre o nazismo e a Segunda Guerra Mundial, será difícil para nós entendermos quem realizou o Holocausto Judeu. No entanto, ainda estão sendo publicados livros que tentam explicá-lo, coletando datas-chave, eventos decisivos, figuras dos mortos e testemunhos dos sobreviventes. E eu, de tempos em tempos, noto algumas delas; naqueles que eu penso fornecer uma visão diferente, se isso ainda é possível em um assunto tão recorrente e saturado.
    Esse parece que vale a pena.
    cheirinhos
    Rudy

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  12. É realmente muito triste pensar que essa atrocidade aconteceu e que não faz muito tempo e pior ainda é ter um exemplo dessa magnitude e ainda presenciar cenas de ódio no mundo inteiro. Sem duvidas esse livro precisa ser lido por todo mundo que se interessa pelo assunto, esses 20 anos de pesquisa não podiam dar em outra coisa a não ser em uma grande e detalhada explicação do que o ódio é capaz de fazer. Com certeza irei ler

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  13. Nossa que edição fantástica!! Infelizmente é sobre um tema tão triste para toda a humanidade, o holocausto é um assunto muito forte e desperta sempre muita curiosidade sobre o tema.

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