Resenha: O sol desvelado

Por Marcos Ferraz •
03 fevereiro 2020

Depois de desvendar o assassinato do Embaixador dos Mundos Siderais em “As cavernas de aço” (se você ainda não leu a resenha, clique aqui), Elijah é convidado por livre e espontânea pressão para investigar um novo assassinato. Sem informação nenhuma, nem poder se despedir da esposa e do filho, Elijah é enviado para Solaria, um mundo muito distante onde a população é predominantemente de robôs: cerca de 20 mil para cada humano. Os habitantes humanos de Solaria, por sua vez, carregam uma peculiaridade bastante estranha: eles têm paúra de contato humano. A aproximação entre humanos é vista como uma coisa nojenta, repugnante, e muitos deles entram em pânico só de saber da possibilidade de outro humano se aproximar. Toda comunicação é feita por vídeo ou hologramas. Os casamentos são arranjados e os filhos são entregues já prontos, concebidos em provetas.

Elijah se vê em um cenário bastante complicado: Se o contato interpessoal foi completamente anulado e os robôs não podem machucar um ser humano, quem matou Rikame Delmarre, ilustre figura em Solaria? Todas as evidências que não existem apontam para sua esposa, que, por conta da fobia deles, vive isolada no quarto mais distante possível em sua mansão, sendo requisitada apenas quando necessário. Agora, enfrentando sua própria fobia e combatendo a fobia dos solarianos, Elijah conta com a ajuda de um parceiro antigo e corre contra o tempo para desvendar o assassinato, enquanto luta pela própria sobrevivência. 

Isaac Asimov cria em “O sol desvelado” um ambiente cujo desfecho parece impossível até para ele próprio. Os caminhos por onde ele leva seu personagem parecem sempre dar de cara com um obstáculo e fazê-lo voltar ao zero. Mas sua genialidade é tanta que ele cria uma história onde a resolução está nos mínimos detalhes.


O enredo criado nesse segundo volume é menos movimentado do que vimos no primeiro. Por conta da situação envolvendo o crime, o protagonista precisa conversar com muitas pessoas, o que acaba gerando certa monotonia. Apesar disso, a criação dos personagens é minuciosa e é aí que devemos nos atentar, uma vez que cada um deles teria um motivo para eliminar Delmarre, mas é só na soma dos fatos que Asimov consegue atar em nós as pontas soltas e revelar o assassino. E, além disso tudo, Asimov consegue colocar em xeque a Primeira Lei da Robótica e provar que, mesmo inconscientemente, um robô consegue matar um ser humano.

Já o estilo narrativo e a estrutura do livro continuam iguais. Apesar da monotonia em certas partes, Asimov narra de um jeito que cativa o leitor; com poucas figuras de linguagem e um enredo totalmente linear, somando-se aos capítulos que por sua vez têm o tamanho exato para não cansar o leitor, a leitura flui sem interrupções, fazendo o tempo passar rapidamente.

O título do livro logo se revela. Como vimos no primeiro volume, Elijah vive na Terra, mas no subsolo, onde não é possível ver a luz do sol. Em Solaria, não há cavernas, e os humanos e robôs vivem sob a luz de seu próprio sol. Essa visão do universo, esse céu aberto, ou seja, esse sol desvelado é a fobia de Elijah. Ele precisa viver como um vampiro, do contrário, tem um ataque de pânico.


Um trabalho que eu acho bem legal é que a capa do livro também é descrita nas páginas:
“Daneel desabotoou a camisa. A pele macia e bronzeada do seu peito coberta por esparsos pelos claros. Os dedos de Daneel pressionaram um ponto bem abaixo do mamilo direito, e a pele e a carne do peito se abriram de cima a baixo sem nenhum sangramento, mostrando sob a pele o brilho do metal”, p.141.
Isaac Asimov é muito dado a reviravoltas. Por conta do cunho policial da obra, a questão das leis da robótica e toda peculiaridade que envolve Solaria e seus habitantes, o autor consegue nos levar a vários caminhos e a cada hora imaginar quem seria o assassino. Ele nos faz acreditar que é alguém só para depois nos mostrar que estamos errados. Dessa forma, ele conduz uma narrativa fechada em uma rede de intrigas que coloca à flor da pele o espírito detetive do leitor. 


Título: O sol desvelado (exemplar cedido pela editora)
Autor: Isaac Asimov
Editora: Aleph
Páginas: 288
Ano: 2019
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Comentários via Facebook

12 Revelaram sentimentos:

  1. Mesmo não sendo um gênero de leitura que eu entenda e até goste(sou lesada demais) me recordo muito da resenha do primeiro livro, por isso, deu um certo prazer em ler que o segundo livro trilhou pelo mesmo caminho e com isso, a narrativa até se manteve quase igual!
    Pelo que pude entender, houve uma aventura maior, tipo mais ação e isso é maravilhoso e claro, segredos foram revelados!
    Se tiver oportunidade, quero sim conferir ambos os livros!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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    1. Oi, Angela!! É isso mesmo, os livros seguem a mesma pegada. Asimov mantém seu estilo e cria duas histórias extraordinárias. Essa segunda é, de fato, bem mais complicada que a primeira

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  2. Olá! O primeiro livro já tinha me interessado bastante, e nesse temos outro crime para lá de complicado de ser resolvido hein, mesmo com esse clima mais lento, gosto muito do fato de ter que quebrar a cabeça para conseguir descobrir quem é o assassino, as capas estão bem atrativas.

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    1. Olá, Elizete! Essas capas me chamaram a atenção também. Mas o conteúdo do livro é bem melhor rsrs se eu fosse vc, daria uma chance para eles!!

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  3. Marcos!
    Meu contato com a ficção genuína foi com Asimov também, ainda no início da adolescência e passei uma fase tão fissurada que até fiz assinatura de uma revista científica que publicava vários contos dele. Era a verdadeira ficção na minha época, não os novos romances ficcionais de fantasia e outras vertentes que foram criadas. Não que não goste das novas, não é isso, é que ficção para mim é essa aí do Asimov, entende?
    Um escritor que na primeira metade do século XX já imaginava, era inimaginável, como Julio Verne no ter escrito Vinte mil léguas submarinas no século XIX...
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Olá, Rudy!! Asimov é diferenciado, né? Apesar de ter lido outros escritores, ele sempre se destacará dos demais.

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  4. Oiii ❤ Ainda não conheço a escrita do Isaac Asimov, mas já ouvi muito sobre a genialidade do autor, não sou de ler ficção científica, mas confesso que tenho curiosidade de ler, só preciso encontrar o livro ideal.
    Achei muito interessante que esse livro é uma ficção científica com suspense e investigação, eu adoro livros sobre investigação.
    Bom saber que mesmo esse livro sendo um pouco mais monótono, o autor consegue prender muito bem o leitor.
    Beijos ❤

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    1. Rayane, eu sugiro que vc comece com "Eu, robô", que tbm é do Asimov. São nove contos de extrema inteligência e não são difíceis. Acho ideal para quem tem interesse em entrar nesse universo.

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  5. Oi, Marcos
    Não conheço a escrita do autor, mas só de ler suas resenhas pude perceber o quanto estou perdendo de não ler as obras de Asimov.
    Nessa trama o autor não só fala de robótica como trás conflitos psicológico, social.
    Estou muito curiosa para ler. Por qual livro você indica começar?
    Beijos

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  6. Olá!
    Já tinha lido resenha de outros livros do autor e são bastante interessante. Gostei muito da premissa, uma historia bem envolvente e principalmente quando envolve uma distopia com investigação. Fiquei muito interessada e espero conseguir ler!

    Meu blog:
    Tempos Literários

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  7. Oi, Marcos
    Bem diferente esse livro, me deu vontade de ler, mas tenho medo de não entender bem a trama kkkkk
    Robótica é esse interessante e esse parece ter mistério, reviravoltas e reflexões também.
    Acho que terei ler sim.
    Bjs

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  8. ola
    esse não é um genero que me atrai
    mas para qquem gosta é um deleite
    que vom que tem livros e leitores para todo de enredo

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