Resenha: O cortiço

Por Marcos Ferraz •
09 março 2021

João Romão é um comerciante de origem portuguesa bastante ganancioso, que consegue subir na vida à custa da exploração das pessoas. Dono de uma pedreira e de uma taverna, ele constrói em seu terreno umas casinhas de baixa qualidade, aluguel barato, para onde vão morar os funcionários da pedreira e suas respectivas famílias. Junto com ele, mora a negra Bertoleza, trabalhadora incansável, supostamente alforriada, em estado marital.

Ao lado do cortiço, há um sobrado onde mora a família do comendador Miranda. O sobrado simboliza, na visão de Romão, a ascensão social tão almejada. Miranda, por sua vez, abomina a vizinhança.

“O cortiço” é um romance cuja primeira publicação aconteceu em 1890. Nessa época, a sociedade mundial buscava caminhos que fugissem das marcas deixadas pelos românticos anteriores. Para isso, fundamentavam a construção de seus romances e as características de seus personagens diretamente na realidade. Tendo por base a teoria da evolução de Darwin, a filosofia positivista de Comte e, principalmente, o a filosofia determinista de Hippolyte Taine, as obras buscavam mostrar o que ia além do “sim” ao final do casamento. Em “O cortiço”, Aluísio Azevedo mostrará que o ser humano está devidamente condicionado aos três fatores do determinismo: O ser humano é produto de sua raça; o meio; e o momento em que ele vive. E para ilustrar esse caminho, o autor lançará mão de duas características bastante críticas e pesadas.

A primeira dela é questão da “animalização do ser humano”. Além de descrever a intimidade das personagens, Aluísio Azevedo busca mostrar como as pessoas acabam perdendo a própria humanidade, quando são submetidas a condições sub-humanas e dessa forma são dominadas pelos seus instintos animais.
“Daí a pouco, em volta das bicas era um zumzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão”.
No excerto em questão, todo campo semântico para falar dos moradores do cortiço é voltada para o reino animal, a começar pelos substantivos “machos e fêmeas” em lugar de homem e mulher. Estas, por sua vez, prendiam os cabelos no alto dos “cascos”. E aqueles não se preocupavam em molhar os “pelos” e até “fossavam” e “fungavam”, ações tipicamente relacionadas a porcos.

Outra característica que impregna o romance estar relacionado à “linguagem” que se torna bastante impiedosa, o que pode até ser exemplificado pelo trecho lido acima, mas ela vai além e explora o lado sexual dos personagens.
“Henriquinho ficava entretido a ver a Leocádia lavar, seguindo-lhe os movimentos uniformes do grosso quadril e o tremular das redondas tetas à larga dentro do cabeção de chita” (p.79).
“E metia-lhe a língua tesa pela boca e pelas orelhas, e esmagava-lhe os olhos debaixo dos seus beijos lubrificados de espuma, e mordia-lhe o lóbulo dos ombros, e agarrava-lhe convulsivamente os cabelos, como se quisesse arrancá-los aos punhados. Até que, com um assomo mais forte, devorou-a num abraço de todo o corpo, ganindo ligeiros gritos, secos, curtos, muito agudos, e afinal desabou para o lado, exânime, inerte, os membros atirados num abandono de bêbado, soltando instante a instante um soluço estrangulado” (p. 127).
Para exemplificar a ideia de que “o ser humano nasce bom, mas a sociedade o corrompe”, Azevedo insere dois personagens que vão demonstrar isso muito bem. O primeiro deles é Jerônimo, um português muito íntegro, honesto, que acima de tudo amava sua mulher, mas está devidamente condenado à degradação moral quando muda-se para o cortiço. Lá, ele deixa-se seduzir por Rita Baiana, uma das protagonistas da história (o que, na verdade, é uma ideia bastante relativa para mim), e cava um buraco do qual não poderá sair.
“E viu Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar [...] (p.71).
A segunda personagem que Azevedo usa para montar a ideia citada acima é Pombinha, que em contato com Léonie, passa a ter algumas experiências que extrapolam os seus sentidos.
“Pombinha arfava, relutando; mas o atrito daquelas duas grossas pomas irrequietas sobre o seu mesquinho peito de donzela impúbere e o roçar vertiginoso daqueles cabelos ásperos e crespos nas estações mais sensitivas de sua feminilidade, acabaram por afoguear-lhe a pólvora do sangue, desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos” (p.127)
Após algum tempo desse acontecimento em que Léonie, prostituta sabida, meio que força a experiência homossexual sobre Pombinha, a menina briga com a mãe e foge de casa, no que vai pedir abrigo para Léonie. Em contato, então, com a profissão da mulher, pombinha não vê outro jeito de conseguir dinheiro para pagar suas constas, senão seguir os passos da anfitriã.
“A cadeia continuava e continuaria interminavelmente; o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria” (p. 225).
Enfim... cercado de grandes verdades e grandes polêmicas, “O cortiço” é digno de leitura e passível de forte apreço. E, por se tratar de literatura brasileira, está frequentemente inserido entre as provas dos melhores vestibulares do Brasil.

Título: O cortiço
Autor: Aluísio Azevedo
Editora: Edições Câmara
Páginas: 233
Ano: 2019
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Comentários via Facebook

15 Revelaram sentimentos:

  1. Ultimamente tenho tido bastante vontade de ler classicos ate uns que pensei que nunca leria como guerra e paz. Essa vontade também vem com os classicos brasileiros e esse incluso. Outros do autor também estao na minha lista e espero conseguir ler alguns esse ano!

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    1. Ah, eu sou suspeito para falar rsrs
      Mas se eu fosse vc, adiantaria o lugar na lista kkkkk

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  2. Li O Cortiço lá na época da escola. E confesso que com 15, 16 anos não dei o devido valor a esse clássico nacional. Estava mais preocupada com a prova...
    Por isso, tenho vontade de reler

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    1. Eu acredito que uma segunda leitura, sem a pressão de um teste, fará muito mais sentido e será bem mais prazerosa!!

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  3. Marcos!
    Antes da psicologia comportal constatar que o homem é produto do meio, o autor, como bom observador do comportamento humano, já deliberou em seu livro o quanto as pessoas podem mudar suas índoles e comportamentos podeem ser mudados de acordo com o momento em que vivem e influenciados por quem está ao seu redor.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Perfeitamente, Rudy <3 De modo algum devemos generalizar a situação, mas Azevedo foi mestre em provar que a máxima é verdadeira.

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  4. Já li O Cortiço quando tava na época da escola e posso dizer que foi uma leitura agradável, pois já tenho o hábito de leitura desde muito novinha, então consegui aproveitar sabe? Gostava muito quando a leitura era algo "obrigatório"
    Tem tanto tempo que eu li, mas essa parte da "animalização" como você falou é extremamente marcante. Lembro até hoje dessa característica. Indico muito a leitura!

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    1. Que bom, Bruna! Geralmente, quem está no ensino médio tem forte dificuldade em compreender a literatura brasileira, até por isso eu sempre indico uma releitura.
      E, de fato, há muita coisa para nos marcar, mas a descrição animalesca dos seres humanos é o que mais rica guardado.

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  5. Acho que esse grande clássico povoou a vida de muitos de nós na fase escolar.Mas aquela fase forçada, na base do aprende ou não. E a gente? Não aprendia não.
    Mal me lembro do enredo, dessas falas carregadas de preconceitos e também, do jeito típico do povo da região.
    Lendo a princípio a resenha não senti vontade "reler", afinal, seria melhor dizer: Ler! Mas ao terminar de ler, entendi que é quase um obra necessária, principalmente a quem diz amar literatura brasileira!!!
    Obrigada, Marcos!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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    1. Eu não vejo como preconceituosas as passagens do livro, tendo em vista a época em que o livro foi escrito e o que a literatura da época buscava mostrava buscar e representar sobre sociedade brasileira. Mas acredito que cada um tem direito a fazer sua própria interpretação e atribuir seu juízo de valor =D

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  6. Também já li esse livro há muito tempo no período escolar .que bom ver ele desenhado aqui com todas essas explicações sobre a maneira como o autor conduz a trama .
    Uma linguagem bem crua sem floreios mostrando a realidade de uma época.

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  7. Li muitos livros do autor na adolescência, hoje não me lembro direito das histórias, mas sei que o autor tem uma linguagem muito própria e sem comparação, mas sei que não tive dificuldade em entender. Me deu muitas saudades lendo a resenha, quero muito ler esse livro de novo.

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  8. Olá! Confesso que ainda não tive contato com a escrita do autor, mas como esse ano me propus a ler mais clássicos, acho que esse livro é uma ótima pedida, adorei a resenha e fiquei bem curiosa em saber mais dos personagens e suas histórias.

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  9. Eu tenho um clube do livro que intercalamos leituras novas com clássicas, e esse foi um dos q lemos nos clássicos. É incrível como nosso olhar muda tanto quando lemos depois de adultos (como entendemos a história de uma maneira muito mais aprofundada)...
    É extremamente triste q eu (e aposto q mtas outras pessoas) começam a ter raiva dos clássicos por sermos forçados a ler na escola, e apesar de alguns livros serem fáceis ou rápidos de ler não é uma leitura q pode interessar aos adolescentes e acaba afastando mto eles da literatura (o q aconteceu comigo, só comecei a ler de verdade depois de adulta)....
    Mas com isso dito, quando reli no clube do livro eu passei a amar O Cortiço, é simplesmente uma obra de arte.. eu teria odiado esse livro para sempre se eu não tivesse esse clube do livro kkkkkkk

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  10. Oiie,
    Quero começa a ler livros nacionais clássicos brasileiros.. Já faz um bom tempo que tenho ficado curiosa por esse pequeno livro, parece ser bem interessante a historio e vejo que é bem curtinha.

    Beijinhos: Tempos Literários

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