(Des)cobrindo o amor



O olhar percorria o papel, enquanto era lido cada detalhe, o mundo de Fred desmoronava com aquela descoberta crucial. O grito preso, engasgado, queria mesmo era ser solto, liberto e voar pelos ares daquele quarto que agora lhe parecia um labirinto sem saída.

Dalton o contemplava como se já soubesse o tom de como seria a voz de Fred ao sair dali. Olhava-o esperançoso porque queria acreditar que seria diferente, queria ter a esperança que tudo aquilo não lhe decepcionaria. Esfregou os olhos com o dorso das mãos, quem sabe poderia ser mais um daqueles seus pesadelos no meio de uma noite frustrada, depois de mais uma tentativa de amor, daquela forte, voraz que o devorava por dentro, por fora, consumia suas forças, seu desejo, mas nada acontecia de verdade. No final a decepção era sua maior companhia, embora o corpo ainda estivesse ali, ao seu lado, mas, seu pique, não mais.

Antes que pudesse concluir seus pensamentos sobre o passado e sem deixar Fred terminar sua leitura promíscua, Dalton invadiu o quarto e em tamanho pesar começou a declamar seu perdão.
- No fundo eu sabia que não era a minha voz que você queria ouvir – Dalton falava baixinho, o tom de sua voz era quase imperceptível.
Fred não sabia se desejava sua própria morte ou se queria naquele momento tornar-se um assassino para, de forma profissional, acabar com a vida de Dalton. Queria destruir todo passado que lhe era compelido ao presente. Fred desejava tudo e ao mesmo tempo não desejava nada. Desejava que todo aquele momento não estivesse existindo, mas desejava mais ainda que nada do que viveu tivesse sido real.
- Como foi isso? Quando foi? Realmente, não sei se peço para ouvir sua voz ou se mando matarem você. Eu poderia esperar qualquer coisa, menos isso.
- É tão difícil para você quanto pra mim. Não sei como vai ser agora. Se isso te corta, imagine o rasgo que tem dentro do meu coração. Imagine as chagas que vou levar para o resto da vida por carregar a culpa de causar um mal a quem sempre amei e sempre zelei.
- Quando foi isso? – indagou Fred como se não demonstrasse preocupação com cada palavra de Dalton.
- Eu não sei, estou tão chocado quanto você. Recebi hoje. O médico disse que está em fase terminal. Eu posso morrer a qualquer momento, Fred. Não quero que sinta pena de mim. Vou arrumar minhas malas, ir embora daqui. Quero que seja feliz.
Dalton virou as costas e abriu o guarda-roupa para tirar suas roupas de lá.
Fred o examinava com cuidado. Realmente, o corpo dele estava mais magro nos últimos dias; tinha dificuldade de ter relação sexual já fazia um tempo. Dalton sentia fraqueza, ora pedia para deitar e falava que seu corpo doía. Agora tudo fazia sentido a ele. Dalton havia feito o exame de HIV e tinha dado positivo, estava com Aids e agora nada mais podia fazer.
As lágrimas começaram a rolar de seus olhos, queria perdoá-lo, sabia da integridade de Dalton, mas o orgulho lhe era fatal sempre. Por certo Dalton tinha sido contaminado ao nascer. Seu pai usuário de drogas, sua mãe garota de programa, só tinha esse destino. Mas nem sequer ambos tinham unido as peças do quebra-cabeça para chegar a essa conclusão antes. Agora era tarde. Fred implorava para que Dalton não olhasse para trás e visse aqueles olhos sendo encharcados por lágrimas de tristeza e cobertos de orgulho.

Dalton deu um passo para trás, agachou-se para pegar a mala que estava na parte debaixo do guarda-roupa. Sentiu uma tontura repentina, olhou ao redor e tudo girava.
Caiu duro, sem ação.

Fred desesperadamente foi até ele, tentava reagi-lo, não sabia os procedimentos de primeiros socorros. Tirou o celular do bolso e pediu socorro. Abraçou Dalton e suplicava por sua vida, pedia para que não fosse embora. Ele o perdoaria, perdoaria e pelo restante dos seus dias queria ouvi-lo falar, queria sentir sua presença por maior que fosse a situação.
Fred tateou o corpo de Dalton, ainda pulsava, ele estava vivo. Saiu correndo, pegou um pouco de perfume e o fez inalar com um pano.
Dalton tossia compulsivamente. Foi posto na cama com cuidado e enquanto acordava, Fred dizia:
- Eu não te perdoo, Dalton. Não perdoo porque não existe o que ser perdoado. Você não sabia, não sabíamos. Nos amamos, nos perdemos, nos encontramos e é assim que seremos sempre. Estarei aqui sempre com você até os últimos minutos de sua vida e sejam eles agora ou daqui a dez anos. Estarei com você.
Dalton sorria, seus olhos brilhavam e devido sua fraqueza só conseguiu dizer:
- Então, me beija.
Fred não hesitou e realizou.
- Eu amo você – disse Dalton.
- Não mais do que eu o amo – respondeu Fred.

7 Revelaram sentimentos:

  1. Vengo del blog de Brandys (esconderijodabandys2) y me ha encantado tu Rincón; por lo cual, si no te importa, me gustaría ser Seguidor de tan bello Espacio, lleno de Magia, Sentimientos, Sensaciones y Fantasía.
    Un abrazo.

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  2. O amor pode ser descoberto em várias situações.
    Neste texto o amor foi mostrado de forma muito linda.

    Beijos.

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  3. Bem, essa pode ser considerada uma realidade trágica já cotidiana em nossas vidas, não é? embora o drama, para quem o vive, não tenha qualquer possibilidade de vir a ser uma banalidade, ou mesmo uma alternativa, como se possa pensar. Percebe-se no conto uma dor tão definitiva...principalmente pela perda do amor sob facetas diferentes.
    Muito bom, querida.

    gpoetica

    Beijo.

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  4. Triste... real o texto...amores em suas diversas formas com situaçoes que podem acontecer com qualquer pessoa...
    Obrigada pela visita e gentileza...

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  5. Valorizar o que é nosso sempre...bela iniciativa minha amiga...obrigado pelo seu carinho, também já sou seguidor do seu blog...beijos e uma noite de paz pra ti e ótima quinta feira..

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  6. Uma das formas lindas de mostrar a existência do amor.
    Rafa
    Blog Melody
    http://rafaacarvalho.blogspot.com.br/

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  7. Moça, ô moça! kkkkkk Belo conto que nos prende do inicio ao fim, desfecho da zorra!

    Um conto de entregas, de amor, de solidariedade, de bondade e de amizade!

    É Mil!

    O Sibarita

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