22 outubro 2018

Resenha: A vida invisível de Eurídice Gusmão


Olá,
Por que algumas pessoas perdem o gosto pela vida? Por que tornam-se pessoas amargas, satisfeitas e conformadas com sua sina? É porque a vida dos outros é mais interessante? Tão mais interessante a ponto de tornarem-se fofoqueiras ou invejosas? Por que as coisas foram desse jeito?

A vida invisível de Eurídice Gusmão é um relato de várias mulheres que poderiam ter sido. Elas poderiam ter sido atrizes famosas, poderiam ter sido empreendedoras, poderiam ter sido grandes chefes de cozinha, mas se tornaram aquilo que foram criadas e educadas para ser: mães de família, esposas obedientes, boas cozinheiras, mulheres que passam o dia espanando a casa ou fofocando sobre a vida alheia.


Eurídice é nossa protagonista que nasceu em uma tradicional família portuguesa no Rio de Janeiro na década de 20. Desde pequena, ela carrega dentro dela uma ânsia de ser e de fazer, que sempre é atrapalhada por alguém ou alguma coisa que não quer que Eurídice seja Eurídice: desde a professora da escola, que não gosta do jeito de Eurídice, da sua inteligência, da sua curiosidade, da sua facilidade com números, do seu amor pela vida e pelo conhecimento, até a própria Eurídice, que infeliz, só queria estar satisfeita com a vida que tem.

Guida, sua irmã, também é uma promessa de sucesso: faz suas próprias unhas, arruma seu cabelo de forma diferente deixando as vizinhas olhando com inveja, sabe combinar e harmonizar suas roupas de forma elegante, Eurídice a admira muito. Um dia Guida some e se casa com um rapaz rico. A partir desse dia, Eurídice decide que será uma boa filha, que não trará desgosto para seus pais, e que fará o que eles quiserem. E com tais atitudes ela se casa com Antenor, um homem bom que trabalha no Banco do Brasil.

A noite de núpcias foi um fiasco: Eurídice não sangrou. Antenor a acusa de traição, e o amor que poderia ter crescido e florescido entre ambos, acaba sufocado por acusações e tristezas. Antenor quer saber quem foi, Eurídice quer saber o que tem de errado com ela. Depois vem o primeiro filho, que é cara do pai. Eurídice aprende a cozinhar coisas saborosas, cheiros exóticos saem de sua cozinha e aguçam a curiosidade das vizinhas que prevêm a bancarrota da família, visto que tanto se esbanja com comida naquela casa.


Com o tempo, Eurídice não quer mais seguir receitas, ela mesma quer criar! Faz então seu próprio livro de receitas, que acaba sendo ridicularizado pelo marido tradicional, machista e rancoroso. O que poderia ter sido um livro de receitas de sucesso, acaba sendo um caderno manchado dentro da lata de lixo, e Eurídice murcha por dentro, a tristeza a consome e ela passa os dias sentada no sofá.

Certo dia vê um vestido muito bonito em uma revista e resolve que irá costurá-lo, compra uma máquina de costura, e põe as mãos à obra! O vestido ficou maravilhoso, e a vizinhança toda decide encomendar um com ela. Com o tempo, Eurídice tem várias encomendas, de vários locais do Rio, Eurídice tem uma ocupação! Seu marido descobre e sente-se humilhado, afinal, ele agora é gerente do Banco do Brasil, por que sua mulher teria que costurar? O ato de ela ter que trabalhar, só confirmava o que a vizinhança já desconfiava: a família está passando por dificuldades. Após novamente ter suas vontades reprimidas, Eurídice volta para o sofá. Resolve então estudar as enciclopédias da sala para ensinar seus filhos sobre as coisas do mundo, mas aquela vontade, aquela ânsia parece ter desaparecido para sempre.


Essa história não para por aqui, eu que resolvi parar pra não tirar o gostinho dela. Eu simplesmente devorei cada página, sempre querendo mais. Antenor não batia em Eurídice, ela não tinha uma vida de reclusão, ela só tinha que ser uma mulher: fazer o café da manhã, vestir os filhos, manter a casa limpa, fazer almoço, fazer jantar, cuidar dos afazeres, só isso, o resto do dia tinha livre pra ela, e ao invés de fofocar com suas vizinhas, Eurídice queria se ocupar, produzir, ser alguém além de esposa e mãe. Mas não podia.

No livro temos os relatos sobre a vida dos demais personagens, descrevendo como cada um foi murchando ou desistindo e simplesmente aceitando. Não é um livro muito triste, mas a melancolia te acompanha em cada linha, apesar de diversas vezes te arrancar uma gargalhada. A autora tem uma sensibilidade e um conhecimento vasto sobre família e convivência matrimonial. Livro favoritado pra vida com certeza.

Abraços.


 

Título: A vida invisível de Eurídice Gusmão
Autora: Martha Batalha
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 192 
Ano: 2016

10 comentários

  1. Oi Sil!
    Parece ser uma historia intensa, sem duvidas. Nao e muito meu genero, entao, provavelmente nao lerei, mas nao deixa de ser interessante.

    Abraços
    David
    https://territoriogeeknerd.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  2. Silvana, que vida triste dela!
    Fiquei magoada pela protagonista. Acho que a palavra certa é a que você usou: melancólica.
    Pelo titulo não me chamaria a atenção, mas sua resenha fez que eu me interessasse.

    Beijoooos

    www.casosacasoselivros.com

    ResponderExcluir
  3. Olá!
    Não conhecia o livro nem a autora mas amei sua resenha e o jeito que você nos apresentou a história. Me interessei bastante
    Beijos
    https://focadasnoslivros.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  5. O Silvana, então acho que esse livro retrata muito a nossa realidade. Eu já odiei o marido Eurídice. O livre me parece interessante, mas não chamou a minha atenção. Suas fotos estão lindas parabéns!

    Lídia
    https://www.depoisdaleitura.com.br/

    ResponderExcluir
  6. Olá Silvana, tudo bem??

    Não conhecia a obra, mas pela profundidade com que resenhou, parece que tem um enredo bem intenso e carregado de emoções. As mulheres foram criadas para serem do lar e não revelarem o que sentem, isso é tão frustrante. Enfim, pelo menos em nosso tempo de agora, mesmo com tanta violência contra mulher, nós aprendemos a nos defender e não sermos tão submissas. Pelo menos boa parte. Xero!!!

    ResponderExcluir
  7. Eu não conhecia a obra, mas acho que ela é grandiosa por retratar tão bem o machismo ignorante que, por muito tempo, limitou a vida das mulheres (e ainda limita, de algumas forma). Todas essas situações podem parecer corriqueiras e sem importância, mas a tristeza que acompanha cada uma delas não vem do nada: ela apenas enfatiza o quanto é decepcionante ter que se sujeitar a uma vida indesejada, simplesmente para seguir um padrão imposto pela sociedade. Acredito que é uma leitura de várias reflexões.

    ResponderExcluir
  8. Olá Silvana,
    Me diz, mesmo no século atual, quantas Eurídices não conhecemos, não é?
    Em cada linha de sua resenha, eu consegui entender, e mais, sentir tudo o que a protagonista passou, ver sua vontade de viver reprimida por todos a sua volta, e convenhamos, nem a vizinhança ajudava.
    Pelo que percebi, o livro traz bem a tona a questão do machismo, e, vendo como mulher, é um livro que todos deveriam ler, e tentar se colocar no lugar dela.
    Beijos

    ResponderExcluir
  9. Fico ainda tão triste quando leio algo sobre: queria ser e não foi. Queria tanto voar e suas asas foram cortadas.
    E isso não se resume a apenas mulheres como Euridice não. Se resume a maioria de nós, que vai adiando sonhos, guardando-os na gaveta por imposições de pais, marido, filhos..e quando nos damos conta, estamos velhos e cansados.
    Me vi na pele da protagonista em muitos momentos...e fiquei triste.
    Mas o livro vai para a lista de desejados!!!
    Beijo

    ResponderExcluir

Gostou da postagem? Deixe um comentário. Se não gostou, comente também e deixe a sua opinião.
Se tiver um blog deixe o endereço e retribuiremos a visita.
Aproveite e se inscreva nas promoções e concorra a diversos prêmios.