24 maio 2019

Resenha: O corvo


Eu sei, é difícil encontrar pessoas que gostem de poemas. Já entendi isso ao longo de tantos anos que resenho no Blog, há mais de 12 anos, na verdade. Sei que essa resenha não vai ter tanta visibilidade, sei que os comentários serão falando que não estão acostumados com esse tipo de leitura e que vai passar a dica. Mas... estamos falando de quem? De Poe. Então, ainda que você não goste, vale a pena arriscar.

Sobre a obra:
“A morte de uma mulher bela é, sem sombra de dúvida, o tema mais poético do mundo.” Assim Edgar Allan Poe justificaria a gênese de “O corvo”, poema publicado sob pseudônimo originalmente em 1845. Mas o que faz com que esses versos hipnotizantes sobre perda e desejo, escritos de modo tão calculado pelo mestre do terror há quase dois séculos, tenham merecido tantos elogios e tamanha controvérsia?

Nesta edição, o leitor vai conhecer as traduções mais notáveis de O corvo para a nossa língua ― as de Fernando Pessoa e Machado de Assis ―, analisadas pelo poeta, tradutor e professor Paulo Henriques Britto, que também traduz três textos fundamentais de Poe sobre poesia (“A filosofia da composição”, “A razão do verso” e “O princípio poético”) e examina a faceta ensaística do escritor.


Não se engane!
Aqui não teremos apenas a obra dele, ipsis litteris. Teremos, além da sua obra original, duas traduções que serão analisadas, do ponto de vista técnico, qual se encaixa melhor e qual é mais fiel tanto às rimas quanto às métricas.

As duas versões ficam por conta de Machado de Assis e de Fernando Pessoa. Não há invenção quanto ao conteúdo; o eu lírico, triste pela morte de sua amada, passa a conversar com um corvo que aparece na janela. 


No poema de Poe alguns poderiam até considerar que existe um erro em sua construção, pois há um mistério que é quebrado, em que o eu lírico revela o nome da amada, mas logo em seguida afirma que, no mundo dos vivos, ela permanecerá para sempre sem nome. E é nesse ponto que o segredo se quebra e que alguns analisam como se fosse um deslize do autor, já que é possível observar uma contradição: se neste mundo a amada não tem nome, como pode seu nome aparecer no poema?

Esse é o diferencial em que Pessoa ganha de Machado, se se tratasse de uma competição. O primeiro suprime o nome da amada ao longo de todo o texto, para fazer com que ainda exista o mistério. Nesse caso, ele não apenas traduz o poema, como trata de aperfeiçoar o trabalho original. Pessoa não apenas faz isso, ele ainda consegue seguir uma métrica que Machado não cumpre com exatidão. 


Quem entende um pouco da Língua Inglesa consegue perceber que as palavras são menores do que a nossa. Por esse fator, torna-se complicado cumprir a quantidade de sílabas originais, já que é mais fácil escolher um metro um pouco mais largo, ao verter um poema do inglês para o português, para facilitar na tradução, todavia, não obedeceria (ou chegaria bem próximo) as sílabas em cada estrofe do trabalho original. 
“Ao omitir o nome ‘Lenore’, Pessoa resolve a contradição mencionada anteriormente e acentua ainda mais o clima de mistério de “The Raven. Pois - pegando o fio do raciocínio de Poe, e utilizando seus padrões românticos de poeticidade - se a morte de uma bela mulher é o tema mais poético que existe, a morte de uma bela mulher cujo nome não pode mais sequer ser pronunciado neste mundo caído é algo ainda mais poético. Poeta imenso, em ‘O corvo’ Pessoa revela-se igualmente grande como tradutor.” (p. 53)
Ao ler a análise feita, vamos entender qual escritor segue melhor o original e, ainda que Pessoa tenha modificado o elemento que disse, Machado ignora características formais que são importantes para o efeito do poema sobre o leitor. Em muitos casos, ainda, ele não produz a monotonia rítmica que o original contém em cada verso. Parece besteira, para os que não entendem muito do assunto. Entretanto, são deslizes que não melhoram o trabalho de Poe e, convenhamos, não é para isso que existe a tradução. Ainda que Machado seja o meu amorzinho querido, não posso concordar com a sua obra em todo o tempo. Pessoa se mostra bem melhor nesse aspecto.


Sobre a edição:
A capa é linda e possui relevos, além de um prateado bem chamativo. Por dentro, logo no início, é possível ver vários corvos e páginas trabalhadas na elegância. A diagramação segue uma estética fora do padrão. Podemos ver ilustrações tanto na capa, quanto no miolo, assim como no decorrer das páginas também. É uma edição linda para colecionador e amante da obra.

Outras fotos:



Título: O corvo (exemplar cedido pela editora)
Autor: Edgar Allan Poe
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200
Ano: 2019

18 comentários

  1. Oi Natália,

    Achei a edição desse livro maravilhosa.
    Eu nunca li nada do autor e não sabia dessas duas versões inseridas.
    A história é interessante, mas acho que foge um pouco do meu gosto literário.
    Mas que bom que gostou.
    Bjs e um bom fim de semana!
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    1. Essa edição é lindíssima sim, Jess.
      Espero que leia e goste também

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  2. Que interessante ter além da obra dele, as traduções para se comparar. A edição está linda!

    www.vivendosentimentos.com.br

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  3. Oi, Nat

    Deu até vergonha de comentar depois da maneira que você abriu a resenha! Hahahaha
    Mas é realmente isso, não tenho muito mais o que falar a não ser que não curto o gênero. A meu favor posso dizer que inclusive tentei lernPoe em um projeto, mas não rolou. Porém essa edição está um desbunde de linda, dá vontade de comprar só para tê-la!

    Beijos
    - Tami
    https://www.meuepilogo.com

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    1. Hahaha.
      Pois é, eu já esperava que isso aconteceria, Tamires kkkkkkkkkk

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  4. Olá,
    Tive um breve contato com a obra anos atrás, predendo retornar assim que puder.

    até mais,
    Canto Cultzíneo

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  5. Foda que realmente é assim, hoje em dia quase ninguém mais tem acesso a poesia. E isso é um erro tão grande.
    Sei lá, eu sempre amei poesias, poemas, crônicas, textos..apesar de oh, preferir as poesias de gente comum, destes que a gente encontra pela internet. Onde os sentimentos são mais perto daqui de fora.
    Poe não é somente um poeta, um escritor, ele é um ícone da literatura mundial.
    O corvo é um grande clássico do autor e acabei lendo esta versão já há muito tempo. Por isso, esta nova edição encheu meus olhos de alegria.
    Ilustrações, capa, tudo perfeito e a altura do universo gótico tão bem criado por Poe!!!!
    Beijo

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    1. Infelizmente, né?
      Porque eu gosto bastante. Principalmente de mergulhar no universo de poemas e poesias clássicas.

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  6. Oi Natália!
    Que resenha super inteligente! 👏
    Adorei essas comparações das traduções.
    Então, eu cheguei a tentar ler algo do Poe na adolescência (infelizmente não me lembro bem do livro, mas acho q era um conjunto de contos), mas preciso tentar novamente pra ter uma opinião definitiva! As edições dos livros dele são maravilhosas!
    Bjs
    A Colecionadora de Histórias - Blog

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    1. Ah, Carol. Obrigada! rs.
      A gente tenta, né hahaa.
      Eu também adorei as comparações e, embora goste muito de Machado de Assis, ainda fico com Pessoa nessa. Pra mim, a tradução dele arrebentou meu <3

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  7. Olá!
    Conheci Edgar Allan Poe por meio de Gilmore Girls e sempre tive muita curiosidade em ler suas obras, ainda mais depois que fiz um trabalho para a escola ano passado sobre "O Corvo". Confesso que tenho uma relação de amor/ódio com poemas, acho que vou precisar ler mais livros do gênero para poder definir melhor.
    A edição é realmente linda e fiquei com ainda mais vontade de ler!
    Amei o blog e já estou seguindo ♥

    Beijos!
    Estante Bibliográfica > blog novo!

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    1. Muito legal fazer um trabalho desses, Laura.
      Cheguei a fazer sobre Fernando Pessoa e toda a minha pesquisa me fez admirá-lo muito.

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  8. Oi Natalia,

    É exatamente isso o que você escreveu no início da sua resenha. Não tenho costume e, até não gosto muito de ler poemas/poesias. Isso realmente me afasta dessa leitura. Mas, por ser Poe a gente começa a ficar pensando em fazer uma tentativa. Tenho visto tantas resenhas super positivias sobre esse livro ultimamente que estou quase me convencendo a ler. kkkk

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    1. Uma pena, Nil.
      Queria que todas as pessoas gostassem um pouquinho rs.
      Na verdade, acho que até gostam, se for aqueles poemas e textinhos mais populares, estilo os de Caio Fernando Abreu

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  9. Olá!
    Olha, vou ser sincera eu não tinha ouvido fala desse autor, só obtive conhecimento quando meu pai me deu um livro dele para mim ler e ainda estou nessa impasse quando irei ler. Mas sei que ele e muito bem falado entre os leitores e quem ler gosta bastante, espero muito poder ler em breve.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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