24 junho 2019

Resenha: O destino das Terras Altas



Não devemos engolir qualquer narrativa apenas “porque na época era assim”. Já li dezenas de livros em que o mocinho é possessivo e amei a maioria deles, mas existem limites e Balfour e Maldie extrapolam todos eles. Eu sei que leitura é uma experiência diferente para cada um, mas esse livro tem tanta coisa errada que li apenas pela força do ódio.

Balfour é líder dos Murrays e Maldie é uma curandeira em busca de vingança contra o líder de um clã inimigo, mas ele não sabia disso quando a obrigou a se estabelecer em suas terras para cuidar do irmão que se feriu em batalha. Logo de cara eles sentem uma atração instantânea, e até aí tudo tranquilo, mas, enquanto faz seu trabalho, Maldie vai aos poucos ganhando o afeto do irmão de Balfour também, o que faz sangrar velhas feridas e inseguranças, já que Nigel sempre foi o preferido pelas moças por ser charmoso e tão lindo quanto um modelo de capa de revista. Achei essa parte até interessante, afinal, são sempre as mulheres as inseguras, e aqui temos um homão escocês, senhor de um castelo, que não se sente capaz de conquistar a moça que deseja. O problema foi como a autora desenvolveu a trama evidenciando essa insegurança e essa carência de forma extrema, gerando situações perigosas demais para serem romantizadas.


A curandeira é filha de uma prostituta e deixou claro desde o início que não queria repetir os passos da mãe e que sentia orgulho de que mesmo sendo pobre e desprotegida, conservava ainda sua “pureza”. Balfour insistir em se deitar com ela, sem promessas, me fez vê-lo como um canalha que não consegue pensar em nada além do próprio prazer, mas foi o que aconteceu durante e após o ato que me deixou com o queixo no chão. Juro para vocês que em alguns momentos eu pensei que estava julgando demais situações, que não são tão incomuns em romances de época, quando me deparo com isso:
“O olhar firme no rosto dele e a nuance de suas íris [...] diziam que ele havia escutado o consentimento dela. Por outro lado, também indicavam que, se ela mudasse de ideia, talvez ele não a escutasse.”
Vocês sabem o nome que se dá pra isso, caso ocorresse, né? 

Depois do esfrega e rola, quando a gente pensa que o primeiro quote foi apenas um lapso da autora, eles, ainda na cama, têm esse diálogo que me fez ver que eu não estava pagando de doida:
“Se você dormisse com Nigel, talvez não sobrevivesse [...]- Isso é uma ameaça?- Não. Um aviso - respondeu ele com um suspiro, depois encostou a testa na dela. - Tenho medo de perder a cabeça, e um homem irado que perde a razão pode ser perigoso.”


Uma declaração bastante romântica para se dizer após uma primeira noite de amor, não? Parece ser o que pensa a autora. Eu, se ouvisse isso de um boy que comecei a sair, correria para as colônias e vocês?

O próprio Balfour se reconhece como sendo um macho descontrolado e egoísta. Esses trechos completamente absurdos se estendem principalmente pelas primeiras oitenta páginas, (da foto acima  TODOS são de alguma situação em que Balfour foi machista ou pior). Eu poderia apostar que a autora percebeu que estava exagerando nas declarações de posse e deu uma suavizada nas páginas seguintes, porque reduz bastante, mas aí eu já estava em choque e com o ranço instalado. Simplesmente não dá para defender essa história apenas porque melhora e Balfour magicamente deixa de ser esse cara grosseiro e abusivo. A relação começou errada, o “aviso” dele foi uma ameaça clara que eliminou qualquer chance de eu ficar feliz pelo casal recém formado, e Nigel, que a todo momento insistem em dizer que se apaixonou por Maldie, parece sentir mesmo é tesão e mais para frente demonstra instinto protetor e a lealdade de um amigo ou irmão.

Já falei tudo que tinha para falar sobre o aspecto possessivo da relação que foi o que mais me incomodou, então vamos a uma análise do todo.



A narrativa não chega a ser chata, mas é um pouco mais lenta e diferente do que estamos acostumados, nada de bailes, beijos no jardim e passeios no Hyde Park, a história se passa nas Terras Altas, então temos como cenário muralhas, brigas entre clãs, traição, muito sangue e personagens um pouco mais selvagens. 

Tinha tudo para ser perfeito, a história é incrível e inovadora. Vários personagens são apresentados e a autora dá um jeito de introduzir a história e as mazelas de cada um sem pesar a trama principal e contribuindo para o enriquecimento dela, mas não consigo ignorar o início desagradável que “vende” como normal e bonito algo que eu enxergo como ofensivo. Pretendo ler o segundo livro porque, mesmo sendo um cretino sedutor, Nigel sempre tratou Maldie com muito respeito, mas esse eu não recomendo não. É um completo desserviço à sociedade.

Título: O destino das Terras Altas
Autora: Hannah Howell
Editora: Arqueiro
Páginas: 272
Ano: 2019

16 comentários

  1. Eita lelê!
    Não me recordo de ter lido nada sobre este livro antes, acho que só vi o título,mas realmente a história foge muito ao dito convencional, mas uma pena que a autora tenha partido por um caminho que deixa o leitor meio indignado.
    Tá, eram outros tempos, outros costumes, mas não há nada de normal nisso tudo. E sim, incomoda e muito.
    Ler um livro pela força da raiva é algo sensacional.rs e mesmo com a experiência não tão positiva, quero conferir por mim mesma.
    Beijo

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    1. É como eu disse, incluir um personagem desses desde que ele seja o vilão, anti-herói ou pelo menos uma figura que começa errando e depois se transforma, poderia até ser admitido, o grande problema é que essas atitudes em momento nenhum sao apontadas como erradas, muito pelo contrário. A possessividade dele é vista como uma prova de amor de uma pessoa "chucra". Dá vontade de rir, sério!

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  2. Não li o livro ainda. Mas esse diálogo que você mostrou também me incomodou. Pode ser que para aquela época as mocinhas se derretessem com esse tipo de conversa mas para hoje em dia nem sonhar.
    Mesmo você não tendo gostado tanto eu pretendo ler para conferir. Como você mesmo disse, a experiência de leitura sempre é diferente.

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    1. é sim haha mas só por ter te incomodado também sinto que teremos opiniões parecidas quando findar a leitura.

      Abraços!

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  3. Oi Jéssica, td bem?
    Eu li algumas resenhas sobre esse livro e não me lembro de ver ngm falando sobre isso! Pelos quotes que vc mostrou, claramente temos um problema!
    Eu achei essa capa linda e gosto de romances de época, mas não me acostumei muito com esses que tem highlanders, clãs e que se passam na Escócia... Esses pontos me desanimam agora a lê-lo!
    Bjs
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com -> tem SORTEIO DE LIVROS rolando no blog ;)

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    1. Eles são mais dificeis mesmo, as histórias são menos glamurosas e mais lentas, mas se você quiser insistir no gênero, tente os livros da Maya Banks.

      Eu também não vi outras pessoas apontando esse lado doentio do casal, achei bastante estranho e triste não exporem tudo. Isso não é um mero detalhe. É toda a história.

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  4. Olá! Se tem uma coisa que me incomoda demais são personagens possessivos ao extremo, sério, já desisti de fazer certas leituras por causa disso. Fiquei horrorizada com os trechos que você selecionou, logo de cara já odiei o Balfour. Se eu recebesse um "aviso" desses, com toda certeza sairia correndo, apesar do que a autora possa pensar, isso não é de forma alguma romântico. Talvez eu leia o livro para tirar minhas próprias conclusões da história.
    Beijos!

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    1. É aquela coisa né. se a mocinha aceita isso fica difícil saber qual dos dois é mais doente.

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  5. Oiii ❤ Estou decepcionada e chocada com esses trechos do livro. Balfour, ao contrário do que pensei quando comprei o livro pra fazer a leitura, é um machista abusivo! Odiei a forma com que ele tratou Maldie no trecho que você colocou. Não consigo acreditar que a autora colocou algo assim no livro.
    Concordo com você que não é porque naquela época as coisas eram diferentes que a ameaça de Balfour não tem que ser relevada. Estou com pena de Maldie agora por ter que aguentar um homem assim.
    Nunca teria imaginado que esse livro era assim. Esperava um romance doce e fofinho, não com um personagem tão misógino.
    Lerei o livro, mesmo sem muitas expectativas. Preciso ver com os meus próprios olhos o quão absurdo Balfour parece.

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    1. Pois é, a autora foi muito louca no início, é visível como magicamente trechos assim deixam de ocorrer, mas em nenhum momento isso foi apontado como errado ou ruim, Maldie até mesmo defende e vê nesses episódios uma prova de amor haha tem que rir

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  6. Me desanimei por completo para ler esse livro. Tava até com vontade de ler, mas depois dessa resenha só quero passar longe desse livro

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    1. Não vou negar, concordo com as pessoas prefiram ler por si mesmas mas tendo quotes e tudo pra provar, eu estaria no seu time haha nem perderia meu tempo.

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  7. Olá!
    Eu li resenha desse livro e achava interessante a trama, mas essa parte não tinha em mente, agora fiquei bem decepcionada com o enrendo e nem sei se leria porque esses personagens possessivo não é comigo.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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    1. Eu li ele logo que lançou então quando começaram a sair resenhas eu já tinha lido e fiquei impressionada com a quantidade de pessoas declarando aos quatro ventos como a história é linda, romântica e tals sem nunca citar tudo que tem de medonho na construção do casal.

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