20 agosto 2019

Resenha: O homem do Castelo Alto


E se?

Acredito que esta foi a pergunta que Philip Dick fez para si quando teve a ideia de escrever O homem do Castelo Alto

E se o Eixo tivesse ganhado a Segunda Guerra Mundial e a Alemanha nazista e o Japão tivessem dominado a maior potência que conhecemos hoje e o mundo todo?

Nesse cenário, Alemanha e Japão ganham a guerra e dividem o mundo. De forma extremamente sutil, Philip Dick nos mostra que os Estados Unidos foram divididos entre eles dois, mantendo a Itália num papel de coadjuvante, explicitando duas grandes potências que mesmo tendo sido aliadas, demonstram recíproco desinteresse e entabulam uma guerra fria entre si. Da mesma forma, aponta que os judeus ainda estão sendo caçados, a África praticamente não existe mais e os negros foram novamente escravizados. 
“[...] As várias formas de tratamento... ele as conhecia. A quem tratar com polidez, a quem tratar com rudeza. Seja brusco com o porteiro, com o ascensorista, recepcionista, guia, qualquer espécie de servente. Curve-se diante de qualquer japonês, claro, mesmo que seja obrigado a fazer centenas de reverências. Curve-se, mas olhe direto através deles, como se não existissem. Isso englobaria todas as situações, então? E quanto a algum visitante estrangeiro? [...]”, p.40.
Muito além de uma distopia efervescente para a cabeça de muita gente, O homem do Castelo Alto é um papo filosófico que nos dá um tapa na cara, mostrando que o ser humano é frágil e se condena a viver aquilo que lhe é imposto, adaptando-se a qualquer estilo que o faça sobreviver.


Assim, a caracterização dos personagens não é feita de forma aleatória. Robert Childan é dono de uma grande loja de relíquias, ao passo que Nabusuke Togomi é um grande representante do comércio japonês. Frank Frink é um judeu cuja ex-mulher, Juliana, decide se aventurar com o misterioso Sr. Baynes. 

O mistério de O homem do Castelo Alto não permeia exatamente entre todos os personagens, assim como suas histórias não se cruzam de forma relevante, mas flui um lampejo em cima daqueles que fazem apenas uma ramificação. Por isso, é importantíssimo prestar atenção nos detalhes que vão se revelando ao longo da história se você quiser entender a essência do livro, uma vez que toda confusão se acerca à obra “O gafanhoto torna-se pesado”, um livro de autoria de Abendsen Hawtorne, o famoso Homem do Castelo Alto; titulação dada a ele por morar em uma fortaleza intransponível cercada por guardas. Tudo isso por conta do conteúdo de seu livro. “O gafanhoto torna-se pesado” é um trabalho de publicação proibida na Alemanha, porque ele conta uma história onde o Eixo não teria ganhado a guerra, e a Alemanha não passaria do que foi no mundo real.
“[...] Se existem muitas construções sendo feitas por lá e um bocado de dinheiro fácil é porque roubaram tudo daqueles judeus, quando botaram eles para correr de Nova York, com aquela maldita Lei Nazista de Nuremberg.”, p.53-4.
Ainda sobre os personagens, o autor demonstra que está bem mais preocupado com a construção de sua história; não que eles não sejam importantes, mas é fácil constatar que nenhum personagem é digno de pena ou qualquer afeto por parte do leitor. Eles agem conforme a orientação do meio e do tempo em que vivem; não são inertes, mas também não demonstram muita vontade de ação. A história, como dito, é digna de aplausos em pé, dada a complexidade e fragilidade do assunto. Porém, não podemos esperar uma aventura recheada de ações à lá Missão Impossível, assim como muitas reviravoltas.


Philip Dick tem uma linguagem bastante acessível nesse trabalho. Mesmo sendo um livro destinado ao público adulto, ele não foge de suas características e produz um conteúdo ao mesmo tempo singular, mas com poucas alegorias. Suas metáforas e analogias são bem-criadas ao mesmo tempo que abre mão de outras figuras de linguagem.

O homem do Castelo Alto é um livro que nos faz pensar em muita coisa. Mas talvez não estejamos fazendo a pergunta certa. Quando iniciamos, muito natural, já perguntamos “e se...?”. Conforme vamos lendo, mudamos a pergunta para “será que seria mesmo assim?” No final... bem, no final, a gente percebe que fez a pergunta errada o tempo inteiro. 
“E, pensou, eu sei por quê. Querem ser os agentes da história, não as vítimas. Identificam-se com o poder de Deus e acreditam ser divinos. É essa sua loucura básica. Foram dominados por algum arquétipo; seus egos expandiram-se psicoticamente ao ponto de não saber onde eles começam e onde para a essência divina. Não é hubris, não é orgulho; é uma hipertrofia do ego, levada às últimas consequências – confusão entre quem venera e aquilo que é venerado”, p.61.
Não se vale a comparação, mas há muitos livros ou séries, só para citar, por exemplo, o livro “Sob a redoma”, do Stephen King, ou a série “The leftovers”, produção da HBO, em que passamos o tempo todo perguntando “Por quê?”, mas, na verdade, não há porque fazer essa pergunta, uma vez que as obras exploram o psicológico das pessoas, como elas passam a agir depois dos seus respectivos acontecimentos, tornando a pergunta irrelevante.

Não é a mesma coisa, também não quero me tornar repetitivo, mas olhamos para O homem do Castelo Alto com a pergunta errada em mente. Também não posso te dizer qual é a pergunta certa a fazer. 

Sobre a edição: 
Há muita controvérsia a respeito da capa, mas eu, particularmente, digo que ela é tão feia que chega ser bonita. O interior, entretanto, é muito bonito. As primeiras páginas são trabalhadas, ilustradas com algumas passagens do conteúdo principal. As páginas em tons suaves contrastam bem com as letras. As orelhas e a quarta capa também são dignas de notas e apreciação. 


Título: O homem do Castelo Alto (exemplar cedido pela editora)
Autor: Philip K. Dick
Editora: Aleph
Páginas: 308
Ano: 2019

19 comentários

  1. Eu costumo pensar(pelo pouco que conheço do trabalho do autor) que Philip é um autor para leitores selecionados. Não que qualquer leitor possa pegar uma de suas obra e se identificar, mas o primeiro passo, é estar com a mente aberta a todos os detalhes que ele joga em cada página.
    Eu não li esta obra ainda dele, mas pelo que pude perceber acima, não é apenas a questão dos personagens sendo apresentados, mas de todo o enredo num conjunto só. Fazendo com que quem esteja lendo, acabe de certo modo, se colocando dentro do enredo e se questionando(talvez erroneamente) o tempo todo, até de fato, descobrir as respostas de todas as perguntas que não foram feitas.
    Por toda a complexidade e simplicidade, quero muito poder ter e ler a obra o quanto antes!
    E mais uma vez, me surpreender com a escrita do autor.
    Beijo

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    1. Eu costumo dizer que não há autor igual. Muitos escrevem sci-fi, mas o sci-fi dele é diferenciado. Então, sim, precisamos muito estar com a mente aberta pra ler um livro dele.

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  2. Primeiramente, deixe-me expressar o quanto eu amo Philip K. Dick.. pq eu amo mto.. "segundamente" o quanto eu amo esse livro (mas pra ser justa eu amo tds os livros dele).
    Philip K. Dick e Isaac Asimov abriram um leque da literatura pra mim q nao consigo descrever.
    Eu não acho q a qualidade seja muito boa, mas eu adoro a série q a Amazon fez baseada nesse livro.
    Vc citou The Leftovers, é uma das minhas séries favoritas de todos os tempos ♥

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    1. Oi, Yara.
      Às vezes eu falo que não existe uma pessoa que goste dele à primeira vista. Alguns livros têm uma história simples, mas com uma mensagem muito forte. Até por isso, muitas pessoas acabam não gostando. Eu fui uma dessas pessoas. Lia, não gostava, então eu ia pesquisar pra ver se era o que eu tinha entendido. Era nada. Aí, observando algumas explicações, passava a gostar do livro. Coisa besta, né? Rsrs
      Eu assisti a alguns episódios da série, mas confesso que não me interessei em continuar.
      The leftovers sim. Tô assistindo e gostando

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  3. Olá! Ainda não tinha visto falar sobre este livro, essa é a primeira vez que leio sobre O Homem do Castelo Alto e confesso que fiquei muito interessada pela obra, pois acho interessante quando a gente reflete sobre como seria se certos eventos históricos tivessem tido um desfecho diferente do que conhecemos, mesmo que no caso deste livro esta não seja a pergunta que de fato deveríamos fazer.
    Estou bem curiosa para ver as metáforas e alegorias criadas por Philip Dick.
    A capa não é das mais bonitas, mas parece servir ao propósito do livro.
    Obrigada pela indicação! Beijos! ♡

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    1. Oi, Rayssa!
      As questões desenvolvidas no livro são bem complexas, mas nos fazem refletir bastante. Vale a leitura, viu?

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  4. hahaha
    A primeira coisa que eu pensei vendo a capa: "Que coisa horrorosa!" E ainda não consegui ver beleza nenhuma nela.
    Adorei o enredo. Essas perguntas de como seria se os fatos reais tivessem tomado outro rumo, como seria todo o mundo. Coisas que a gente sempre pode ficar divagando. Nunca li nada do autor mas sei como é excelente em distopias. Preciso ler algo urgentemente desse autor. Mas esse livro, acho que vou procurar uma edição mais antiga, com uma capa menos feia pelo menos.

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    1. Mil, dá uma chance pra essa capa! O interior do livro vale pela capa hahaha
      Como nunca leu nada dele, sugiro começar por outro livro. "Realidades Adaptadas" é uma boa pedida.

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  5. A capa é um pouco perturbadora, tipo aquelas propagandas de 1900 e bolinha hahahah Eu gosto de distopias e não sei como me explicar que o livro ao mesmo tempo que me interessa - pela trama, por essa exploração mais psicológica-, me desagrada. Acho que tem a ver com não explorar muito profundamente os personagens, dixando-os rasos. É um livro que eu leria, de qualquer modo. Parece interessante.

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    1. Sim!! Parecem aqueles quadros de filmes de terror rsrs
      A respeito dos personagens, quase toda a criação do Philip Dick é assim. Os personagens são simples, mas a história deles é muito boa!

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  6. Olá! Olha confesso que ainda não me arrisquei em conhecer a escrita do autor, mas a cada nova resenha que vejo sobre seus trabalhos, a vontade vai aumentado, o meu único receio é de acabar me perdendo durante a leitura e talvez não curtir tanto assim a experiência, por isso, a relutância em pegar um livro dele (risos). Mas essa resenha em especial me deixou bem curiosa, principalmente em relação a essa pergunta errada, mas gente qual que é a certa, será que eu vou conseguir descobrir, acho que chegou a hora hein.

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    1. Olá, Elizete!
      O autor tem muitos outros livros óleos quais vc pode iniciar a leitura do universo dele. Coloca um na lista e dá uma chance. Suas histórias são muito criativas e reflexivas.

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  7. Oiii ❤ O assunto abordado nesse livro é realmente algo para se pensar no que teria acontecido se os fatos históricos tivessem sido diferentes. Apesar de o autor ter criado uma ficção, acho que seria algo plausível de ter acontecido. Achei essa ideia muito original, nunca li nada do tipo.
    Essa capa não é bonita, não é uma que chamaria a minha atenção numa livraria, mas é uma daquelas que quanto mais se olha, fica menos feia rsrsrs.
    Não li nada do autor ainda, mas depois dessa resenha, vou procurar saber mais de suas obras. Com certeza, vou querer ler esse livro.
    Beijos ❤

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    1. Olá, Rayane!
      Concordo. Só é ficção porque não aconteceu, mas quem sabe num universo paralelo a Alemanha não tenha ganhado?
      Dá uma chance para o autor, se quiser, posso te indicar alguns livros mais fáceis para começar a lê-lo!!

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. É muito interessante a ideia de trabalhar com o que não aconteceu e as consequencias disso. Cara, passei o tempo todo com a interrogação na cabeça tanto em Sob a redoma quanto em The leftovers, mas porque chequei a essa conclusão que você diz, isso tudo pra tentar digerir os finais. The Leftovers foi a grande responsável, afinal sou um apaixonado pelo enredo, até tenho o livro. Quero muito ler esse também, e concordo com você sobre a capa, de tão feia chega ser bonita heheh adorei.

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  10. Oi, Marcos
    Não li nada do autor e tenho muita vontade de conhecer sua escrita.
    Essa capa lembra um pouco os comerciais de margarina com a típica família feliz, kkk.
    Gostei muito da trama que nos leva a refletir sobre tudo, e se tivesse acontecido como no livro o que seria do mundo, das pessoas.
    Beijos

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  11. Olá!
    Não conhecia o autor mas ao ler a resenha fiquei bem interessada pelo livro dele. A história que ele criar, um mundo onde as coisas fosse se Alemanha e Japão ganhasse série, é uma distopia muito boa. Realmente me peguei pensando como seria se isso acontecesse. Espero muito poder ler!

    Meu blog:
    Tempos Literários

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