03 setembro 2019

Resenha: Ofélia


Olá meus amores, a resenha de hoje é sobre um livro que traz uma proposta bem diferente, Ofélia reconstrói a peça mais longa de Shakespeare, sem provocar grandes alterações na história original e utilizando de uma linguagem e recursos textuais mais adequados para este século, além de contar a tragédia pelo ponto de vista da jovem cujo maior erro foi atrair a atenção da realeza.

Órfã de mãe e praticamente esquecida pelo pai, Ofélia, ainda muito, nova caiu nas graças da rainha Gertrudes e se tornou uma de suas damas de honra mais querida. A inocência, sagacidade e a beleza de Ofélia fizeram com que ela chamasse a atenção não apenas da rainha como também do príncipe Hamlet, e eles se relacionaram em segredo enquanto usavam de artifícios e simulações para não chamar a atenção para o que compartilhavam. Quando o rei Hamlet é assassinado e logo em seguida seu tio Cláudio casa-se com a sua mãe viúva, o príncipe, que já era dado a afetações, se mostra paranoico e é consumido pelo desejo de vingar o pai que ele tem certeza de que foi assassinado.

Nesse ponto do livro, Hamlet se vê em um dilema moral grandioso, vingar a morte do pai matando seu assassino seria um pecado imperdoável que custaria a sua alma ou se trataria de justiça divina? A obsessão do príncipe em ser ele próprio o emissário da justiça, em muitos momentos, me lembrou o personagem Dantés de O conde de Monte Cristo, que de tão determinado em se vingar, tão crente em seu desejo por uma punição a seus agressores, chega a se colocar na posição de um agente de Deus tal qual um anjo vingador, cujo pecado serviria a um bem maior. O problema é que Hamlet mergulha tão profundamente nessa vingança que os limites entre a sanidade e a loucura ficam meio embaraçados.


Acostumada a guardar segredos e crescendo a sombra de um hábil manipulador, Ofélia toma como missão proteger Hamlet da loucura nem que para isso ela precise manipular a vontade do príncipe e de outros poderosos da Corte sem que estes percebam. Antes apenas uma peça nas grandes intrigas da Corte, neste livro vemos Ofélia utilizar de todos os artifícios que aprendeu para tentar salvar a própria vida enquanto luta para manter sã a mente do jovem que ama. Eu admirei muito isso, de a personagem não se conformar com os acontecimentos ruins que o destino foi jogando na vida dela. Mostra que ser inocente e virtuosa não eliminou sua expertise e capacidade de enfrentar dificuldades por conta própria.

A melancolia e a tendência a dramatizar shakesperianas se fazem presentes em muitos momentos tensos para os personagens e a autora soube usar bem desses recursos ao expor sentimentos que carregam o peito de Ofélia, acrescentando mais emoção e sensibilizando o leitor com relação aos dramas vividos pelos personagens. Em alguns trechos a narração é quase poética de tão intensa e dramática mas sem perder a naturalidade esperada nesta releitura proposta pela Lisa Klein.
“Duvide que as estrelas são fogoDuvide que o sol se move;Duvide que a verdade seja mentirosa;Mas nunca duvide que eu ame.”

Ofélia, assim como Gertrudes, e outras protagonistas femininas da história, se mostram fortes, inteligentes e resilientes, mas em relação aos jogos de poder jogados pelos homens, elas atuaram conforme se espera que uma mulher da época se comportasse, não importando sua posição. Achei que isso trouxe maior realismo às figuras que elas representavam. Sou feminista e adoro ver mulheres em posição de poder e não abaixando a cabeça para o patriarcado, mas gosto mais ainda de ver o contexto histórico sendo respeitado.

Ao final, a dama de honra vê sua vida dar um giro de 360 graus e eu nem comentaria sobre isso não fosse o fato de que, apesar de a história de Ofélia ter sido encerrada da forma mais perfeita possível, intencionalmente ou não, a autora deixou aberta a possibilidade de haver, quem sabe no futuro, novos capítulos para a história de Ofélia.

Eu não vou fazer muito segredo, eu comecei a leitura já gostando bastante do livro, não por menos li as primeiras cem páginas durante uma viagem de ônibus, algo que normalmente me deixa tontinha, mas a vontade de ler era tanta que meu organismo ignorou o ambiente onde eu estava lendo. Terminei a leitura completamente apaixonada tanto pela história quanto pela escrita da autora, e antes mesmo de fechar a última página já estava recomendando essa leitura para todo mundo. 

Por isso eu digo: leiam, conheçam essa história e depois voltem aqui pra gente conversar. 

Sobre a edição: apesar de ser uma edição comum, de folhas amarelas e fonte confortável à leitura, este livro apresenta uma diagramação muito bonita, com tipografia diferenciada na introdução dos capítulos e também nas cartas trocadas entre os personagens. Além disso, o livro ainda foi dividido em partes facilmente identificadas por uma “capa” e o trabalho de revisão foi impecável, não encontrei nenhum erro de digitação, manchas ou falhas de impressão. A capa é inspirada no filme Ophelia (2019). Assista ao trailer.

Beijos, boa leitura e até a próxima!


Título: Ofélia (exemplar cedido pela editora)
Autora: Lisa Klein
Editora: Record
Páginas: 265
Ano: 2019

17 comentários

  1. Jéssica!
    Já conhecia o livro, mas fiquei bem interessada em conhecer essa nova versão atualizada, espero que não tenha perdido o sentido da original.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Oi linda, o que foi atualizado foi a escrita. A história permanece como a original, creio eu, até o ponto em que Ofélia se encontra sozinha, a partir dali entra a visão da autora do que poderia ter acontecido à ela. Vais gostar, cheiros!

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  2. Oiii ❤ Gostei que, apesar de a obra ser uma releitura de Hamlet, a autora colocou Ofélia como personagem principal. Achei esse realmente um ponto positivo pra fazer eu querer ler esse livro.
    Gostei do fato de Ofélia e Gertrudes serem personagens fortes. Também adoro ver mulheres no poder, mas concordo que é sempre bom que o contexto histórico seja mantido.
    Se tiver a oportunidade, vou querer fazer essa leitura.
    Beijos ❤

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    1. Sim Rayane, são pontos que realmente chamam a atenção e atraem pra leitura. Espero que goste!

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  3. É preciso antes de tudo dizer que a Editora caprichou demais nesta edição né? Desde a capa até esta diferenciação na diagramação. Caprichos assim sempre são tão bem-vindos!
    Já dei uma olhada nesta obra há muito tempo, na época escolar, claro que em outra edição, daquelas bem antigas e que ficavam escondidas na parte da Biblioteca onde ninguém ia..rs
    Mas ver uma roupagem novinha assim, é de encher os olhos.
    Não é um gênero que costuma agradar a gregos e troianos, mas agrada e muito aos leitores de mente aberta a se aventurarem a todo tipo de escritas!
    Com certeza, quero demais ter a oportunidade de conferir uma obra tão bonita e desvendar toda a malícia escondida na beleza de Ofélia!
    Beijo

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    1. Pois é mulher, o que atrai nesta nova edição é justamente a linguagem contemporânea e de fácil compreensão para o jovem, tenho certeza de que ler a versão original não é pra todo leitor mas essa está bem acessível. Abraços!

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  4. Oi, Jéssica
    Não li o livro ainda e fiquei feliz em saber que este está com uma leitura acessível de fácil entendimento. Com uma capa linda e edição maravilhosa, nós leitores agradecemos esse carinho que a editora teve.
    Que enredo fascinante, Ofélia sem sombra de dúvidas é uma moça forte que mesmo estando apaixonada lutou com sabedoria para salvar não só a si mesmo como seu amado.
    Este livro já esta na lista de desejos, o trailer é magnífico quero ver o filme em breve.
    Beijos

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    1. Ai que retorno maravilhoso! Adoro clássicos com uma nova roupagem apesar de ler os originais també. Hamlet já está na minha lista e espero ler em breve e voce, eu espero que possa ler Ofélia também. Abraços.

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  5. Eu até gosto de releituras, principalmente quando são tão bem feitas assim. Ver as coisas do ponto de vista da Ofélia, em Hamlet, deve ser genial. Ela é muito diferente das mulheres da época.
    Vou querer ler esse livro, ainda mais agora que sei que é uma leitura dessa tão importante obra de Shakespeare.

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    1. Oi Nil, tudo bem? Tenho medo dessa palavra "releitura", pode significar tanto né? quero muito ler Hamlet pra poder comparar, mas acredito que a historia aqui se manteve, o que mudou foi a linguagem com que ela foi transmitida. Abraços e boa leitura!

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  6. Olá! ♡ Eu adoro releituras e tenho praticamente certeza de que vou gostar dessa. Gostei demais do fato de vermos a história pelo ponto de vista da Ofélia, achei um ponto forte do livro.
    Quero muito conhecer a Ofélia, ela é maravilhosa! De fato, a gente não pode se conformar com o que de ruim acontece em nossas vidas, devemos arregaçar as mangas e lutar, enfrentar as dificuldades em nosso caminho! Acho incrível quando vejo, na literatura, no cinema, mulheres fortes, que lutam por aquilo que acreditam e não abaixam a cabeça! ♡
    Estou empolgada para ver a escrita, por vezes, poética e dramática da autora, o que de certa é esperado tendo como base Hamlet.
    Muito obrigada pela indicação, preciso ler esse livro urgente. Beijos! ♡

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    1. Oi Raissa, muito bom ver que esse tipo de leitura atrai pelos motivos certos. Continue lendo e apoiando a cultura das mulheres guerreiras, precisamos muito disso. Abraços!

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  7. Olá!
    Eu já tinha conhecimento do livro mas sabia muito pouco sobre a trama. Fiquei um tanto curiosa e interessada pela trama dele. Tem uma ótima premissa e espero muito que eu possa ler.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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    1. Oi Lily, fico que feliz que possamos ter te apresentado mais a obra. Espero que possa ler em breve, um grande abraço!

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  8. Gostei muito dessa edição, a capa ficou linda, pois a moça transparece muita inocência e simplicidade. É um livro que quero muito ler sem arrependimentos.

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  9. Oie!

    Eu tenho muita vontade de ler os clássicos, porém sempre há aquele medo de acabar não entendendo a história por conta do vocabulário. Fico muito feliz de ver que estão surgindo alternativas para não deixar de conhecer essas literaturas tão importantes da história.

    Quero ler!

    Beijos, Jé!

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  10. Oi Jéssica!
    Primeira resenha que leio sobre esse livro.
    Acredita que nunca li nada Shakespeare?!
    Será que isso poderia fazer alguma diferença?
    Achei interessante isso de reconstruir a história com uma outra linguagem, acho que isso aud a atrair jovens leitores, atrair para as obras clássicas.

    Beijos!

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