22 novembro 2019

Resenha: A filha do pântano


Pode conter o que os chatinhos chamam de spoilers!

Helena leva uma vida tranquila ao lado do marido e das duas filhas. Enquanto o marido trabalha fora, ela produz e vende geleias de vários sabores, para ajudar nas despesas de casa. Ela carrega consigo um enorme segredo, que precisou esconder desde os seus treze anos. Acontece que a fuga de um presidiário extremamente perigoso pode mandar tudo o que ela construiu por lama abaixo. Helena é filha de um ato horrendo. Quando sua mãe tinha ainda cerca de dezesseis anos, fora sequestrada e mantida em cativeiro. Abusada frequentemente, acabou gerando no ventre uma criança que também fora mantida em cativeiro. Após conseguir fugir, ajudou a colocar o pai e sequestrador na cadeia. Com a fuga dele, porém, ela teme pela vida do marido e das crianças, pois sabe que o pai jamais perdoaria o que ela fizera. Agora, ela deve seguir os passos do pai conforme fora ensinada desde pequena e torcer para encontrá-lo... e não ser encontrada.

“A filha do rei do pântano” tem (teria) uma estrutura bastante interessante. Narrada em primeira pessoa pela própria Helena, conta a história de como ela e a mãe sobreviveram por tanto tempo numa cabana em meio a uma floresta e cercada por pântanos. A história no tempo presente se passa em apenas um dia. Do momento em que ela ouviu no rádio do carro que o pai havia fugido ao fatídico (e previsível) encontro dos dois. No entanto, a maior parte da história é ela contando tudo o que aprendera através do pai no tempo de cativeiro. Isso porque ela precisa justificar durante a história coisas como saber atirar, saber rastrear passos de alguém no escuro ou mesmo cortar um pescoço de veado com uma faca. Assim, os capítulos que são lembranças do tempo de cativeiro são separados com o subtítulo “A cabana”.


Estes capítulos, por sua vez, trazem no início excertos do conto “A filha do Rei do Pântano”, de Hans Andersen, o que, em minha opinião, é mais um ponto negativo, visto que eles nada ilustram na narrativa; só prestam para mostrar que já existe uma história com esse nome. Além do mais, o conto de Andersen carrega um ar totalmente diferente do livro em questão.

Ainda, a autora não consegue manter a personagem principal no momento presente, aparentando ter certa dificuldade. Dessa forma, mesmo que não seja em um capítulo “A cabana”, a história acaba voltando para o tempo de criança, criando uma atmosfera repetitiva que não evolui.

A personagem de Helena, por sua vez, é criada sob uma dualidade psicológica muito grande, muitas vezes colocando a própria mãe como inimiga e amando milhões o pai (mesmo depois de saber o que é um sequestro). A sua criação também é bastante dúbia se comparada ao nível de inteligência que ela apresenta. Ademais, mesmo que ela tenha sido ensinada a certas coisas desde pequena, é inconcebível imaginar uma menina de seis anos carregando uma espingarda quase do tamanho dela em uma neve de mais de trinta centímetros e matando um alce com um (primeiro) tiro (na vida) perfeito.


Infelizmente, o estilo narrativo da autora também não ajuda muito. Além de evidenciar certos pontos repetitivos, a descrição em demasia acaba deixando a leitura extremamente cansativa, ao passo em que ainda cria situações que de nada acrescentam na narrativa. Perde-se muito em qualidade assim, uma vez que a história tinha tudo para seguir duas linhas temporais. Ela tem muito para contar do tempo em que era criança, mas pouquíssimo para a caçada ao pai. Penso que uma caçada que durasse pelo menos uma semana seria mais proveitosa e criaria uma atmosfera de perseguição muito mais atrativa. Mas, infelizmente, não é isso que acontece. A história é monótona, poucos são os momentos de clímax e há muitas coisas que nos deixam cheios de questionamentos.

 

Título: A filha do rei do pântano (exemplar cedido pela editora)
Autora: Karen Dione
Editora: Verus
Páginas: 264
Ano: 2019 

13 comentários

  1. Então..desde que este livro foi lançado, as críticas a ele foram bem negativas. O enredo tinha realmente tudo para ter funcionado,mas não funcionou.
    Isso de ficar voltando ao passado nem sempre dá certo, ainda mais se o enredo não consegue fluir.
    A filha do Rei do Pântano é a filha do Rei do Pântano, pronto. Teria que ter tido uma história depois disso.
    Mas...mesmo assim como ainda não li a obra, se puder, quero sim, ler!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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    1. Olá, Angela!
      Realmente o livro deixa muito a desejar. O problema não foi ficar voltando ao passado, mas a construção do enredo em si. A história é bem fraquinha mesmo...

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  2. Marcos!
    Doloroso ver um enredo que poderia ser muito bom, caso fosse bem desenvolvido, se perdido em divagações desnecessárias e relatos que não contribuem para desenvolver o enredo de maneira a conquistar o leitor.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Olá, Rudy!
      Acho que essa é mesmo a pior parte. Você ler uma história ruim, mas que não tem salvação é uma coisa. Mas histórias ruins que poderiam ser boas são de cortar o coração.

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  3. Olá Marcos, sou suspeita para falar, adoro suas resenhas, são bem estruturadas e claras. Bom, só pela sinopse já não seria um livro que me encantaria, agora, com a sua resenha, acho que não há nem esta possibilidade. Livros de suspense que tem um linear repetitivo e mal construído, deixando lacunas na história, ou até mesmo a monotomia, já mostra uma fraqueza na narrativa. Sobre livros que possuem essa temática delicada, o estupro, por exemplo, para funcionar comigo que prender mesmo, porque eu acho pesado demais.
    Ótima resenha (como sempre, nunca decepciona)
    Beijinhos.

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    1. Olá, Livia! Mais uma vez muito obrigado. Comentários como o seu sempre fortalecem nossos ânimos!
      Sobre o livro, a temática do estupro quase não é abordada. O enredo gira em torno da Helena mesmo e de como ela sobreviveu e aprendeu as coisas com o pai. Porém, mesmo assim, infelizmente, a gosto é bem pouco atrativa!

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  4. Olá!
    Não tinha conhecimento do livro e me pareceu uma historia interessante. Parece ter uma ótima premissa, pena que para você não ajudou muito na leitura. Espero ter a oportunidade de ler e ter uma conclusão da trama.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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  5. Olá! Uma pena que o livro não tenha sido desenvolvido da melhor maneira, eu sempre me interesso por esse gênero, mas acredita que eu não o leio muito, sei lá, acho que ficaria muito ansiosa, pois esse é aquele tipo de livro que deve ser lido de uma só vez, Helena me parece uma personagem bem complexa, realmente é triste que a autora tenha se perdido na construção da história.

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  6. Oi, Marcos
    O livro tem uma premissa interessante é uma pena que a trama deixa a desejar em alguns momentos.
    Gosto muito das suas resenhas pela sinceridade, mas assim que tiver oportunidade quero ler.
    Beijos

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  7. A princípio estava achando a história incrível, mas quando falou que tudo se passa em um dia, ja fiquei com um pé atrás e a cada avanço na resenha, mas sem sentido o livro se tornava. A história é perfeita, mas a escritora se apressou muito na história deixando dúvidas.

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  8. Olá! ♡ A premissa da história era de fato até interessante, uma pena que a autora cometeu algumas falhas que comprometeram a história.
    Parece um livro bem cansativo, com um desenvolvimento que peca ao deixar o leitor cheio de dúvidas mesmo após o término da leitura.
    Provavelmente não farei essa leitura, acredito que a mesma não me agradaria.
    Beijos! ♡

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Oiii ❤ Meu Deus, que horror tudo o que a mãe de Helena viveu, ter sido abusada, mantida em cativeiro por tanto tempo, ainda mais pelo próprio pai!
    Nossa, é realmente intrigante que a personagem pareça gosta mais do pai do que da mãe, mesmo depois de saber o que aconteceu.
    É uma pena que seja uma história monótona, já que a premissa era muito boa e poderia ter sido mais bem aproveitada.
    Beijos ❤

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