20 novembro 2019

5 motivos para ler: Kindred


Octavia Butler foi uma autora afro-estadunidense que se consagrou por suas obras de ficção científica, sempre abordando o assunto do racismo de forma primorosa. Racismo esse que ela enfrentou diariamente, ao ser uma mulher negra escrevendo um gênero dominado por homens brancos. Na sua carreira, recebeu prêmios como Hugo, o Nébula e o Locus, e fez seu nome falando sobre afrofuturismo e ficção especulativa. Conhecida como a Dama da Ficção Científica, ela demorou anos para ser publicada no Brasil. A Morro Branco nos trouxe Kindred em 2017, trinta e oito anos depois da sua primeira publicação. 

É sobre esse livro que vou falar hoje e lhe dar cinco motivos do porque você deveria conhecer essa autora e essa história. 
SINOPSE: Em seu vigésimo sexto aniversário, Dana e seu marido estão de mudança para um novo apartamento. Em meio a pilhas de livros e caixas abertas, ela começa a se sentir tonta e cai de joelhos, nauseada. Então, o mundo se despedaça.
Dana repentinamente se encontra à beira de uma floresta, próxima a um rio. Uma criança está se afogando e ela corre para salvá-la. Mas, assim que arrasta o menino para fora da água, vê-se diante do cano de uma antiga espingarda. Em um piscar de olhos, ela está de volta a seu novo apartamento, completamente encharcada. É a experiência mais aterrorizante de sua vida... até acontecer de novo. E de novo.
Quanto mais tempo passa no século XIX, numa Maryland pré-Guerra Civil – um lugar perigoso para uma mulher negra –, mais consciente Dana fica de que sua vida pode acabar antes mesmo de ter começado. 
1 - O racismo cotidiano

Na história, Dana vive no século XX e volta para um período escravagista, que é mil vezes pior do que sua época, de fato. Porém, isso não quer dizer que o racismo que ela passa quando volta no tempo acabou naquela época. A história se intercala na atual vida dela e nas vezes que ela viaja no tempo, e, quando vemos a vida dela no século XX, vimos os resquícios claros do que aconteceu no passado. Nas vezes em que a mãe dela foi parada pela polícia sem nenhum motivo, em como a família a vê, já que ela está casada com um homem branco. 

O racismo está no dia a dia de forma tão naturalizada, que as pessoas tendem a passar despercebidas por ele. Octavia tem o dom de mostrar duas situações extremamente opostas, no mesmo livro, mas falando do mesmo assunto. Em um momento o racismo é velado, mas machuca mesmo assim, no outro ele é escancarado e choca. E quando você lê as passagens dos negros apanhando de chicote com a Dana do passado, e volta com ela sendo julgada pela sua cor no século XX, percebe que não é porque agora não existe o chicote que a dor deixou de ser real. 



2 - O impacto da escrita de Octavia

A autora escreve de forma direta e real. As coisas não são minimizadas, e como vemos do ponto de vista de Dana, sentimos ainda mais esse impacto. Sendo uma mulher negra escrevendo sobre o racismo, o local de fala da autora é inquestionável e traz uma verdade em cada palavra impossível de ser contestada. A dor de Dana, os absurdos da época, os detalhes nas entrelinhas. Nós somos totalmente envolvidos e levados pela história e seus acontecimentos. Cada surra e cada palavra é descrita de forma tão profunda que você sente na pele. Impecável!

3 - O conflito moral da protagonista

Dana precisa salvar seu antepassado, pois, sem ele, ela mesmo não existiria. Mas como fazer isso com um homem escravagista? Rufus cresce em uma época que negros eram mercadoria, e aprende a conquistar tudo na violência e medo. Começamos com ele criança, mas vemos seu crescimento ao longo do livro. Ele bate, xinga, não tem nenhum senso moral, é cruel e desrespeitoso. Dana precisa passar por toda a sua moralidade para continuar viva, sempre aceitando os caprichos e absurdos do seu passado, por ela mesma. Se ela mudar algo, se ela tentar ensiná-lo, como isso afetaria seu futuro? Ela sequer nasceria se o Rufus do passado tivesse moralidade? O quanto ela deve deixar o sofrimento dos negros que conhece de lado? Esse conflito é intenso e permeia todo livro. 


4 - A empatia que a história nos gera

Octavia sabe construir personagens maravilhosos. Nós nos apegamos facilmente a Dana, do mesmo modo que odiamos facilmente o Rufus. E todos os outros personagens coadjuvantes são exemplares. Nos compadecemos com a escravidão logicamente, mas, além disso, a história dos personagens e questões que carregam são maiores do que isso e desenvolvidas de forma natural e forte. É mais do que a empatia por ver pessoas sendo espancadas, pois esse tipo é automático. É o apego que temos pela personalidade de cada um, a forma como tentam viver naquele período onde a esperança nem era uma palavra conhecida.

5 - A importância de escutar novas vozes e vivências na literatura

Chimamanda Ngozi Adichie é uma feminista negra muito conhecida, que tem um TED talk que se chama “O perigo de uma história única.” Você pode assisti-lo completo no Youyube, ou comprar o livro que é a descrição dessa palestra. Resumidamente, ela fala como é perigoso que tenhamos sempre apenas um ponto de vista de um determinado povo ou época. O quanto a informação de apenas uma pessoa pode influenciar milhares que continuaram a perpetuar as mesmas coisas, sem ouvir outras. 

O fato de demorar tantos anos para que uma autora como Octavia viesse para cá só mostra como estamos acostumados com uma historia única. Mesmos autores, mesmos pontos de vista. É essencial que estejamos abertos a novas vozes. Procurar novos autores, abrir espaço para eles e suas histórias, principalmente para grupos marginalizados e minimizados ao longo da história.

Aprendi muito com Octavia, e com muitas outras que me permiti conhecer esse ano. Quando ela escreve sobre viagem no tempo e racismo, ela junta a ficção com uma a realidade, e sua experiência de vida impacta profundamente sua escrita. O livro é tão bom e real por isso, pela autora e pela vida que somente ela viveu no papel de mulher negra. Escutar novas vozes sobre esse assunto e tantos outros é necessário e válido, e será sempre um aprendizado.

Espero que deem uma chance para essa história, se puderem, comprem a versão em capa dura desse livro, pois ele tem extras no final, rascunhos da própria autora e textos complementares. Mas se não for possível, a versão normal também está belíssima e vale a pena.

15 comentários

  1. Fiquei lendo o post e olhando com um amor meu livrinho ali na estante!Deu até vontade reler!rs
    Kindred é uma história maravilhosa. Esse jeito que a autora achou de misturar passado, racismo e realidade foi genial e a capa página lida, um tapa na cara do leitor é dado e sabe o que é mais engraçado nisso tudo?
    A gente pedir por mais!
    Ainda não li mais livros da autora, mas ainda o farei!!
    Super recomendo a leitura!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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    1. Oie Angela,

      Toda vez que vejo ele na minha estante, também sinto vontade de reler. é um livro que me tocou tanto, é difícil explicar. Eu fiquei mal, mas queria ficar mal, pois isso me fazia melhor. estranho, né? hahaha
      bjs

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  2. Jessica, só de a sinopse fiquei a-r-r-e-p-i-a-d-a. Parece ser uma obra bem surrealista. Parece ser um dos livros que vou amar e vou me impactar demais. Chimamanda é uma das autoras que eu super gosto, eu tive que ler os livros delas na disciplina da faculdade de feminismo. Essa questão de ter várias perspectivas, eu super concordo, simplesmente, porque nossa história é contada demais por uma cultura européia. Uma temática muito pertinente.
    Uma ótima resenha!
    Beijinhos

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    1. Oie Livia,

      Sim, amo Chimamanda também! Precisamos urgente ouvir outras histórias sim, tem tantas vozes e coisas a serem contadas, não faz nenhum sentido escutar somente uma versão. Se ficou arrepiada com a sinopse, a leitura será muito impactante e transformadora.
      bjs

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  3. Jessica!
    Já tinha ouvido falar da autora e seus livros tão enfáticos e verdadeiros.
    Os motivos que detalhou são importantes para a leitura e o entendimento e fiquei ansiosa para poder fazer a leitura.
    cheirnhos
    Rudy

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    1. Oie Rudy,

      Espero que consiga ler logo, a autora é excepcional, com certeza você vai gostar de conhece-lá.
      Bjs

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  4. Queria abraçar esse post e grudar nele! AMEI a indicação e, apesar de não conhecer anteriormente, surtei com a importância que as palavras da autora trazem, com temas tão relevantes e fundamentais. AMEI o formato da resenha e o quanto já nos tocou profundamento com ela. <3

    semquases.com

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    1. Oie!

      Ai, fiquei muito feliz que você amou a indicação tanto assim. Eu estou aqui nesse mundo para falar de Octavia e exaltar o seu trabalho, hahaha. Espero que faça a leitura em breve!
      Bjs

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  5. Olá! Muito bom ter a oportunidade de conhecer novos autores, ainda mais quando esse tem tanta representatividade, imagino como foi difícil para a autora se aventurar em um ramo dominado por homens brancos, e com a sua escrita intensa fazer o leitor refletir sobre esse preconceito, que infelizmente ainda é tão atual, espero poder seguir sua dica, e me aventurar, tanto com a escrita de uma autora, até hoje, ainda desconhecida por mim, e com um gênero que não costumo ler muito.

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    1. Oie Elizete,

      É uma ótima oportunidade para sair da zona de conforto.É uma história forte, e conhecer a escrita da Octavia é uma viagem sem volta, você vai querer ler tudo dela.
      beijos

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  6. Olá!
    Já tinha visto muito o livro mais não tinha parado para conhecer mais sobre a trama. Ao ler os motivos fiquei muito curiosa para saber mais a trama e essa mistura de viagem no tempo é comigo mesmo, gosto muito disso.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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  7. Oi, Jéssica
    Não li nada da autora, espero ler algo dela em breve.
    Adorei os motivos para ler/conhecer uma autora de grande importância, que escreveu livros retratando a realidade das pessoas negras. Já li a resenha do livro mas não sabia que Dana viaja no tempo, genial abordar o preconceito no passado e presente na trama.
    Se antes queria ler, agora sei que preciso urgente.
    Beijos

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  8. Não conhecia esse livro e nem a escritora, mas gostei do que foi apresentado e vale a pena e quero conferi.

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  9. Olá! ♡ Já estava querendo ler esse livro faz um tempo, mas agora depois de ler os motivos que você listou, sinto que essa deve ser a minha próxima leitura! ♡
    Morro de vontade de conhecer a escrita da autora, gostei de saber que ela sabe trabalhar com maestria a realidade, sem minimizar nada.
    Parabéns pelo post!
    Beijos! ♡

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  10. Oiii ❤ Quero tanto ler esse livro, ainda mais agora que li esse post maravilhoso sobre Kindred.
    O maior motivo de eu querer fazer essa leitura é o fato de ela falar sobre o racismo tanto o que ainda se faz presente em nossa sociedade tanto quanto o que existiu no passado.
    Gosto que a escrita da autora, o que ela narra crie empatia no leitor, pois acho esse sentimento muito importante, ainda mais numa sociedade tão discriminatória como a nossa.
    Beijos ❤

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