Este livro contém gatilhos sobre: Crueldade/morte contra animais (gráfico), Canibalismo, Homofobia, Tráfico de pessoas (discutido), Assassinato, Pedofilia (discutido), Gravidez, Estupro, Tortura, Violência.
Um vírus misterioso erradicou animais à beira da extinção em massa. Deixada sem fonte de carne para cultivar, a humanidade se voltou para o canibalismo para aguçar seu apetite, saciar sua fome incessante por carne e sangue. Os seres humanos agora são domesticados, produzidos em massa, abatidos e vendidos como "carne especial". Dedos em conserva e costelas grelhadas, saboreie a humanidade vestida com ervas e especiarias.
Depois da nova série polêmica do serial killer canibal Jeffrey Dahmer na Netflix, parece que o canibalismo está trending e dominando a internet, definitivamente entrou em hype (nunca pensei que estaria usando hype e canibalismo em uma mesma frase... macabro). Pois é. Mas vamos falar então, sobre o grande foco de Saboroso Cadáver - uma leitura que definitivamente não é para os fracos de estômago.
Bom, o conceito de canibalismo não é novidade para a humanidade em si, já que as civilizações do passado, tais como várias tribos ao redor do mundo, os astecas e até mesmo os grandes faraós do Egito exibiram comportamentos envolvendo o uso de carne humana como fonte de alimento. Atualmente, até existe uma tribo chamada Korowai que acredita que os forasteiros carregam espíritos malignos e praticam o canibalismo - assustador. E o conceito de seres humanos sendo vendidos e tratados como mercadorias comerciais também vimos e erradicamos na forma de escravidão. Mas a combinação de canibalismo, produção em massa de seres humanos e comercialização de carne humana – toda uma indústria dedicada a tornar o canibalismo eficiente e lucrativo – é uma ideia difícil de entender, deve ser mais fácil de aceitar quando circulada pela DeepWeb, talvez?
Pois bem. É essa ideia que a autora Agustina Bazterrica trouxe nesse livro. Ela nos oferece um mundo onde o canibalismo reina, conhecido como "Transição", encoberto por eufemismos linguísticos para torná-lo, digamos... mais fácil de digerir. O problema assustador é que se pararmos para pensar sobre algumas coisas mencionadas no livro, talvez a leitura não fosse inteiramente uma distopia como descrita, seria? Para mim, reflete todos os tipos de realidades, embora levadas ao extremo. A matança em massa é semelhante ao processo pelo qual os animais passam, atordoados, abatidos, transformados em couro, adubo, além de cortes nobres de carne. Os transportes que trazem 'cabeças' para os centros de extermínio nos lembram dos trens da morte nazistas. O laboratório que realiza experimentos médicos em espécimes vivos reflete nossos próprios protocolos farmacêuticos e médicos. E a 'caça' e o tráfico de pessoas estão a apenas um passo do que lemos todos os dias. A visão da autora pode ser excessiva e chocante, mas é justa, e o livro faz perguntas provocativas e incômodas sobre o que exatamente separa o humano do animal.
"Muitos naturalizaram aquilo que a mídia insiste em chamar de 'Transição'. Mas ele não, porque sabe que transição é uma palavra que não evidencia como o processo foi curto e cruel. Uma palavra que resume e cataloga um fato incomensurável. Uma palavra vazia."
Chocante, nojento, reflexivo e único. Com um final inesperado, de silenciar qualquer leitor. Saboroso Cadáver não é um livro fácil de recomendar, e você precisa ser forte de estômago para passar por essa leitura. Embora seja dificil de ler, não é difícil de amar. Eu diria que está entre as coisas mais perturbadoras que já li, mas isso não é de forma alguma uma crítica. Leia!
(Depois de ler, recomendo assistir um filme na mesma vibe chamado Fresh, disponível no Star+).
Título: Saboroso Cadáver (exemplar cedido pela editora)
Autora: Agustina Bazterrica
Editora: Darkside Books
Páginas:192
Ano: 2022
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