Existem alguns tipos de livros que não foram feitos para serem entendidos. As explicações de como o mundo funciona não são essenciais. O livro é feito para sentir, para se emocionar. Essa foi minha percepção com Kindred, e agora foi também com É assim que se perde a guerra do tempo.
Essa é a história de duas personagens envolvidas em uma guerra que transcende o tempo e o espaço. Cada uma faz parte de um lado, e luta por coisas diferentes. Inimigas, elas já se encontraram nessa guerra outras vezes, mas são tantas pessoas envolvidas que é difícil guardar o rosto de alguém. Até que uma delas deixa uma carta para traz. Mesmo achando que pode ser uma armadilha, a outra parte responde, e aí começa nossa história.
"Portanto, nesta carta eu sou sua. Não de Jardim, não da sua missão, mas sua, só sua."
O livro terá uma narrativa epistolar, ou seja, será contado em forma de cartas. Nós vamos acompanhar a guerra acontecendo, mas o foco e o mais legal do livro são as cartas. Blue e Red são personagens que, no começo, você pode confundir, mas isso passa rápido, pois elas têm personalidades distintas que vão ficando ainda mais acentuadas pelas cartas. No começo eu tinha uma favorita, mas depois amei as duas igualmente.
O livro na verdade é uma novela, então é bem curtinha e rápida, e fiquei bem impressionada como em poucas páginas os autores criaram algo tão profundo e bem feito. O sentimento que desperta entre as duas é sensível e lento, muitos anos se passam dentro dessa história. E é até difícil saber quantos, pois a guerra é através do tempo literalmente, indo e voltando, e a linha temporal se perde no meio disso. É por isso também que não é um livro fácil, é confuso, cheio de ficção cientifica que não é necessariamente explicada, e termos e viagens ao longo da história.
É lindo acompanhar as cartas e a forma como elas vão crescendo de uma provocação para um amor. Como elas começam a se interessar pela vida da outra, pelas suas motivações, seus gostos, seus sentimentos. Começam a se chamar de formas diferentes, com várias referências que, confesso, não percebi em todas as vezes. Tem música, livros, formas diferentes de dizer as cores que representam o nome de ambas. É um deleite para os corações de manteiga como eu, me peguei sorrindo várias vezes e torcendo demais pelas duas. Sem falar na forma como as cartas são escritas, que são extremamente incríveis.
"O que tenho para dizer: estava muito frio lá no gelo. Sua carta me aqueceu."
O plot twist do final me pegou desprevenida, mas pensando sobre a história, fazia todo sentido e foi genial. Eu queria mais, fiquei triste quando acabou, queria mais cartas e mais romance que quebra a linha do tempo. Mas valeu a pena cada minuto e cada parte que eu possa não ter entendido perfeitamente, porque fiquei totalmente entregue pelas duas e não tenho nada a reclamar.
Se você gosta de tudo explicado, talvez seja uma leitura difícil para você. É lento e com uma escrita poética que não fará sentido de forma literal. Mas eu recomendo que você dê uma chance, com certeza.
Título: É assim que se perde a guerra do tempo (exemplar cedido pela editora)
Autores: Amal El-Mohtar e Max Gladstone
Editora: Suma
Páginas: 192
Ano: 2021
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