Em Notas sobre o luto, Chimamanda fala de forma crua e sincera como a morte de uma pessoa querida nos modifica, os sentimentos vão se transformando com as emoções que acompanham esse processo.
“Até agora, o luto pertencia aos outros. Será que o amor traz, nem que seja de forma inconsciente, a arrogância ilusória de achar que nunca vamos ser tocados pela dor?”
Além de narrar sua trajetória perante a perda de seu pai, acompanhamos as dificuldades que a pandemia mundial pela Covid-19 traz, além de todo o caráter cultural que envolve o sepultamento. Cultura é um dos maiores elos entre a autora e seu pai, e mesmo diante de toda a dor e vontade de seguir os preceitos do funeral, ela ainda encontra forças para questionar condutas machistas e criticar o governo de seu país de origem, principalmente em relação aos cuidados com a pandemia.
"Ele me presenteou com minha ancestralidade por meio de histórias muito bem construídas. Eu não apenas o adorava daquele jeito clássico que as filhas têm de adorar o pai, mas também gostava muito dele. Eu gosto dele..."
Um ponto forte desse relato é sobre as mudanças que ela percebe em suas próprias atitudes e percepções de mundo. Enquanto tenta entender os próprios sentimentos, ela ainda está inserida em uma sociedade e as interações com outras pessoas a incomodam e revelam traços de seu "eu" anterior ao luto que a deixam desconfortável.
"O luto é uma forma cruel de aprendizado. Você aprende como ele pode ser suave, raivoso. Aprende como os pêsames podem soar rasos. Aprende quanto do luto tem a ver com palavras, com a derrota das palavras e com a busca de palavras"
Notas sobre o luto tem um gosto amargo e nos faz sentir empatia pela autora. Chimamanda nos traz um livro sensível mesmo vivendo um de seus piores momentos, encontrando formas de se expressar quando não existem palavras para traduzir seus sentimentos.
Título: Notas sobre o luto (exemplar cedido pela editora)
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 144
Ano: 2021
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