Hello, caros leitores! E um feliz Dia do Orgulho Nerd!!
Como vocês já devem ter verificado por aí (até porque as pessoas não se contêm, querem sair na frente em tudo, não conseguem esperar o dia exato para falar sobre alguma coisa, aí usam a desculpa de uma “semana nerd” [AFF]. Meus queridos, semana nerd é só para editoras Aleph que querem vender mais sci-fi!! É igual ao dia das mães! Não basta ser só dia das mães, mas tem que ser o mês inteiro. Dia das mulheres é a mesma coisa! Não basta ser só o dia 8 de março, têm que ficar me infernizando o mês inteiro com frases motivacionais e blá-blá-blá e dizendo que eu deveria mandar flores para todas as mulheres que eu conheço a @#$% do mês inteiro! Não! Não é assim!!) hoje, dia 25 de maio, é comemorado o Dia do Orgulho Nerd.
Ao contrário do que muita gente pensa (e que vocês viram por aí), o Dia do Orgulho Nerd não é uma comemoração unicamente voltada para o Universo de Douglas Adams. Além da famosa “Trilogia de cinco volumes”, a data foi escolhida por causa do lançamento de “Star Wars – Episódio VI: Uma nova esperança”. Além disso, existe uma série chamada “Discword”, do escritor Terry Pretchett, cuja celebração é feita dia 25 de maio. Enfim! Lembrem-se disso.
Como eu estava dizendo, vocês já devem ter visto muita coisa por aí. O guia do mochileiro das galáxias é uma espécie de compêndio indispensável para quem pretende viajar pela galáxia. Esse compêndio define o item mais importante para um mochileiro carregar: A toalha. Segundo ele, “a toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido a seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você - estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.”
É por isso, meus queridos, que vez ou outra vocês veem uns seminudes com legendas “Feliz dia da Toalha”. Dia da Toalha = Dia do Orgulho Nerd.
Como disse meu amigo Nícolas Cruz, Douglas Adams é um gênio incompreendido. Nunca antes na história dessa galáxia alguém insistiu tanto para eu ler um livro. Cedendo às argumentações dele, peguei emprestado e comecei ler. E me obrigo a dizer: ele estava certo.
O primeiro livro, cujo título nomeia a série toda, é, em minha opinião, o melhor deles. Somos apresentado a Arthur Dent, um ser humano com uma vida normal que está prestes a perder a residência. Também conhecemos Ford Perfect. Um alienígena que está preso na Terra há quinze anos, que escolheu o próprio nome, pensando que não chamaria atenção. Ele também sabe que a Terra será demolida em dez minutos.
Douglas Adams não é só um ótimo contador de histórias. Toda sua fama faz jus ao trabalho. Sua linguagem é simples e tranquila, mas desenvolve com maestria a continuidade dos acontecimentos.
Os livros são um prato cheio para quem gosta de uma sátira. A acidez de suas comparações é fenomenal e nos leva a pensar a respeito do papel de cada um dentro de uma sociedade. A respeito de um Presidente, ele deixa claro que é uma pessoa que não presta para nada: “O principal problema – um dos principais, pois são muitos –, um dos principais problemas em governar pessoas, está em quem você escolhe para fazê-lo. Ou melhor, em quem consegue fazer com que as pessoas deixem que ele faça isso com elas. Resumindo: é um fato bem conhecido que todos os que querem governar as outras pessoas são, por isso mesmo, os menos indicados para isso. Resumindo o resumo: qualquer pessoa capaz de se tornar presidente não deveria, em hipótese alguma, ter permissão para exercer o cargo. Resumindo o resumo do resumo: as pessoas são um problema”.
Repleto de referências, relacionadas a todo tipo de assunto, que vão desde “um homem que foi pregado em uma cruz de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras, para variar [...]” até a famosa T. Eccentrica Galumbits, a prostituta de três seios de Eroticon 6, Adams cria personagens capazes de ironizar todos os aspectos da vida que deveriam ser tratados com mais seriedade por quem tem o poder, mas não estão nem aí. Não é um humor simples. É refinado, clássico, divertido e inteligente, que te faz ficar preso nas páginas para ver até onde ele é capaz de ir.
Com ele, eu aprendi que existe o “POP”: Problema de Outra Pessoa. São problemas que estão na nossa frente, mas não somos capazes de enxergar, pois se trata de um Problema de Outra Pessoa. “O campo Problema de Outra Pessoa é muito mais simples e eficaz [...] pode funcionar durante mais de 100 anos [..]. Isso porque ele conta com a tendência natural das pessoas de não verem nada que não querem, que não estão esperando ou que não podem explicar”.
O humor de sua obra não está somente na acidez de sua ironia. As tiradas de coisas nada a ver também fazem gargalhar. “[...] um pouco ralado e um pouco atordoado, mas quem não estaria? Não podia entender o que um prédio estava fazendo voando no meio das nuvens. Por outro lado, também teria sérias dificuldades em explicar, de forma coerente, o que estava fazendo ali, então decidiu que ele e o prédio teriam que se aceitar mutuamente”.
“- O problema de uma viagem tão longa [...] é que você acaba conversando consigo mesmo, o que se torna muito aborrecido, porque na metade das vezes você sabe o que vai dizer em seguida.
- Só metade das vezes?
- É, mais ou menos a metade, eu diria [...]”.
Referências musicais também passam pelas linhas do Guia, e eu tive prazer em ver escrito por aqui uma referência à música “Raindrops keep falling on my head”, quando Adams insere no livro um personagem atrai a chuva por onde estiver.
Como se não bastasse, Adams traz para seus livros uma verdadeira fábrica de neologismos e dá vida a criaturas, que deixaria qualquer guarda-roupa e cobra falante no chinelo. Colchões, Portas e Elevadores que ficam muito felizes em apenas fazer o seu trabalho.
A história é um caos territorial e temporal. Apesar de sua praticidade e simplicidade, é bom prestar atenção, do contrário você pode se perder mais do que os nossos personagens. E olha que eles se perdem! Você vai ficar confuso, vai se perguntar por algum personagem, como eles escaparam do perigo, há quanto tempo ele está morando em uma caverna... mas, pensando bem, não tem tanto problema assim, pois sabe o que Douglas Adams responde para cada uma dessas perguntas? “Vá cuidar da sua vida!” Ainda diz que há pessoas que vão preferir pular a leitura e ir para o último capítulo. Que lá ainda é mais legal e tem o Marvin.
O guia do mochileiro das galáxias percorre mudanças políticas, culturais e principalmente tecnológicas. Fala de assuntos reais disfarçados em ironias estonteantes. São situações hilárias, personagens imprevisíveis, descrições poéticas e paisagens surrealistas que se mesclam com perfeição, resultando numa trama cheia de suspense, comédia e filosofia.
Já disse isso uma vez, mas permito me repetir: quem me acompanha sabe que eu não busco uma mensagem que um livro pode me trazer. Prefiro me ater ao entretenimento que ele pode me proporcionar. Porém, o Guia é uma daquelas exceções à regra.
Série: O guia do mochileiro das galáxias
Autor: Douglas Adams
Editora: Arqueiro






