Sinopse: Numa trilha de terra, cruzando montanhas que conduzirão ao mar, a narradora vê a figura de um homem, a quem batiza de Lázaro. Doente e ferido, ele avança a passos lentos e é perseguido por uma multidão.
A partir daí, o livro revela o drama de um homem que procurou se fechar ao mundo, mas que se viu forçado a confrontar vozes íntimas e dramas humanos. A história é contada pelos olhos de uma narradora cuja identidade é envolta em sombras que se dissipam em breves pistas ao longo da história.
Fábula sobre dor, sofrimento e redenção, O mal de Lázaro guarda ressonâncias com parábolas bíblicas e reconta, na prosa elegante de Krishna Monteiro, o mito universal do homem que, mesmo a contragosto, acaba por fazer o bem e por causa disso é condenado.
O mal de Lázaro é um verdadeiro exemplo de que a literatura brasileira não está morta.
Eu me senti meio que feliz quando comecei a lê-lo, pois percebi que não seria uma leitura fácil. E eu acertei. Krishna Monteiro nos traz a história de um homem praticamente invisível dentro de uma sociedade. Lázaro, nome fictício elaborado pela narradora, é trabalhador de um matadouro, que quando sai do trabalho carrega consigo os terrores do ofício. E para expurgar esses sentimentos peçonhentos, ele se tranca em casa, alienado do mundo, e desenha. Desenha as últimas expressões dos animais que viu morrer.
A história criada por Krishna Monteiro não é nada mais do que pura poesia. Ela segue um único tom, elaborado, mas lento, que parece inserir no leitor os sentimentos descritos pela narradora. Esta, por sua vez, não se nomeia nem se descreve, deixando a cargo da imaginação do leitor uma criação própria.
Aliás, esta é basicamente a estrutura da narrativa explorada por Monteiro, o que revela sua preocupação maior em lidar com o comportamento humano. Isto é, deixando de lado a estruturação do tempo e do espaço e a ambientação, a narrativa foca muito mais em como segue a vida da narradora após conhecer a vida daquele homem exótico, triste e doente. É como se os dois vivessem em um mundo totalmente branco que se mostra aos poucos, enquanto eles se aproximam.
Krishna tem uma linguagem que agrada a poucos. Enquanto fazia a leitura, me via na primeira vez em que li “Iracema”, de José de Alencar. Devido ao conjunto pouco descrito, a obra perde um pouco de atrativos, sim, mas só a linguagem trabalhada pelo autor vale a pena. A história lenta e a linguagem difícil são atrativos que nos remetem a leituras maravilhosas da Literatura Brasileira.
O ponto fraco de tudo isso é que a leitura acaba se tornando um pouco cansativa e arrastada, o que exige do leitor uma pausa para clarear as ideias, pois ele é facilmente levado a se perder na história, sendo obrigado a voltar alguns parágrafos, ou páginas, tendo em vista que o livro exige bastante atenção daquele que o lê. Esse livro jamais deve ser usado como fonte de passatempo. Ele é raro, único, e exige total concentração do leitor.
O mal de Lázaro é um trabalho consistente, que pode bater de frente com pensamentos e atitudes de pessoas que vivem esse mundo moderno. Breve e denso, Krishna Monteiro trabalha sua obra para muito mais além da leitura de fruição.

Título: O mal de Lázaro (exemplar cedido pela Oasys)
Autor: Krishna Monteiro
Editora: Tordesilhas
Páginas: 175
Ano: 2018
