15 outubro 2018

Resenha: O mal de Lázaro


Sinopse: Numa trilha de terra, cruzando montanhas que conduzirão ao mar, a narradora vê a figura de um homem, a quem batiza de Lázaro. Doente e ferido, ele avança a passos lentos e é perseguido por uma multidão.

A partir daí, o livro revela o drama de um homem que procurou se fechar ao mundo, mas que se viu forçado a confrontar vozes íntimas e dramas humanos. A história é contada pelos olhos de uma narradora cuja identidade é envolta em sombras que se dissipam em breves pistas ao longo da história. 

Fábula sobre dor, sofrimento e redenção, O mal de Lázaro guarda ressonâncias com parábolas bíblicas e reconta, na prosa elegante de Krishna Monteiro, o mito universal do homem que, mesmo a contragosto, acaba por fazer o bem e por causa disso é condenado. 

O mal de Lázaro é um verdadeiro exemplo de que a literatura brasileira não está morta. 

Eu me senti meio que feliz quando comecei a lê-lo, pois percebi que não seria uma leitura fácil. E eu acertei. Krishna Monteiro nos traz a história de um homem praticamente invisível dentro de uma sociedade. Lázaro, nome fictício elaborado pela narradora, é trabalhador de um matadouro, que quando sai do trabalho carrega consigo os terrores do ofício. E para expurgar esses sentimentos peçonhentos, ele se tranca em casa, alienado do mundo, e desenha. Desenha as últimas expressões dos animais que viu morrer.

A história criada por Krishna Monteiro não é nada mais do que pura poesia. Ela segue um único tom, elaborado, mas lento, que parece inserir no leitor os sentimentos descritos pela narradora. Esta, por sua vez, não se nomeia nem se descreve, deixando a cargo da imaginação do leitor uma criação própria. 

Aliás, esta é basicamente a estrutura da narrativa explorada por Monteiro, o que revela sua preocupação maior em lidar com o comportamento humano. Isto é, deixando de lado a estruturação do tempo e do espaço e a ambientação, a narrativa foca muito mais em como segue a vida da narradora após conhecer a vida daquele homem exótico, triste e doente. É como se os dois vivessem em um mundo totalmente branco que se mostra aos poucos, enquanto eles se aproximam. 

Krishna tem uma linguagem que agrada a poucos. Enquanto fazia a leitura, me via na primeira vez em que li “Iracema”, de José de Alencar. Devido ao conjunto pouco descrito, a obra perde um pouco de atrativos, sim, mas só a linguagem trabalhada pelo autor vale a pena. A história lenta e a linguagem difícil são atrativos que nos remetem a leituras maravilhosas da Literatura Brasileira.

O ponto fraco de tudo isso é que a leitura acaba se tornando um pouco cansativa e arrastada, o que exige do leitor uma pausa para clarear as ideias, pois ele é facilmente levado a se perder na história, sendo obrigado a voltar alguns parágrafos, ou páginas, tendo em vista que o livro exige bastante atenção daquele que o lê. Esse livro jamais deve ser usado como fonte de passatempo. Ele é raro, único, e exige total concentração do leitor. 

O mal de Lázaro é um trabalho consistente, que pode bater de frente com pensamentos e atitudes de pessoas que vivem esse mundo moderno. Breve e denso, Krishna Monteiro trabalha sua obra para muito mais além da leitura de fruição. 

 

Título: O mal de Lázaro (exemplar cedido pela Oasys)
Autor: Krishna Monteiro
Editora: Tordesilhas
Páginas: 175
Ano: 2018

7 comentários

  1. Excelente Artigo !! Eu estou adorando visitar blog, sempre tem conteúdo de muita qualidade .... São muitos legais, e interessante ....

    Parabéns !!!!

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    Meu Blog Apostando na Loteria

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    1. Obrigado pela visita, Davi.
      Infelizmente não posso atender seu pedido. O livro é uma cortesia da editora para o blog. Mesmo pedindo para dar os créditos específicos, não sei até que ponto seria visto com bons olhos pela editora.

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  2. Oi, Marcos!
    Pelos seus comentários, creio que esse livro não seria uma boa leitura para mim :( Mas quem sabe um dia leio, querendo sair da zona de conforto.
    Beijos
    Balaio de Babados

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    1. Oi, Luiza.
      A literatura brasileira costuma ser um fantasma mesmo rsrs mas, de fato, esse livro é um que sai da zona de conforto de qqr um.

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  3. Oie Marcos =)

    Não conhecia o livro, mas lendo a sua resenha a obra me pareceu interessante até o ponto que você cita que depois de um tempo a narrativa se torna cansativa e arrastada.

    Eu mal estou tendo tempo de ler, então prefiro investir o pouco tempo que tenho em leituras mais fluidas.

    Beijos;***
    Ane Reis | Blog My Dear Library.

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    1. Oi, Ariane!
      Prioridades, né? Rsrs
      Mas, apesar de ser um pouco difícil e arrastada, a livro é pequeno e, revezando com outros livros, passa que nem vê ;)

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  4. Como eu adoro livros que saem da minha zona de conforto e que me obrigam a perceber o mundo com outros olhos, acredito que essa seria uma leitura bastante proveitosa pra mim. Toda a aura de mistério e tristeza que envolve o livro parece se projetar das páginas, transformando a leitura em algo que realmente é sentido muito mais do que apenas lido. Acho que esse é realmente o ponto forte da história e da escrita da autora.

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