Corpos secos
Devido ao uso de novos agrotóxicos, o Brasil acabou sofrendo uma catástrofe que o levou ao apocalipse. As pessoas que consumiram os produtos contendo essa substância primeiro ficaram agressivas, depois começaram a atacar outros e, por fim, cogumelos e fungos começavam a crescer em seus corpos até que eles secavam e explodiam, liberando esporos que contaminavam quem estivesse por perto.
Algumas pessoas ainda tentam viver em bases militares espalhadas pelo país. Rio, Florianópolis e São Luiz são os pontos de referência para esses sobreviventes, que tentam escapar de onde estão, arriscando suas vidas por motivos diferentes para conseguir viver em um local relativamente seguro.
Escrito por quatro pessoas, Corpos secos traz uma trama dividida pelo ponto de vista de 4 personagens: Mateus, Murilo, Regina e Constância. O primeiro é um rapaz que aparentemente é imune ao vírus, o segundo é o meio irmão de Mateus e que tenta fugir com sua mãe para Florianópolis. Regina é a filha de um fazendeiro que testemunha seu marido sendo morto pelos infectados e Constância é uma engenheira de alimentos que, junto com seu irmão, também estão fugindo do perigo.
Apesar dos capítulos intercalarem os pontos de vista, a história de cada um pode muito bem ser lida separadamente, como se fossem 4 contos separados que se passam no mesmo universo. Então você que escolhe no fim das contas a forma que vai querer ler. A única recomendação que faço é que se for ler por pontos de vista, que leiam o da Regina antes da do Mateus e a do Murilo antes do da Constância. Já que existe uma leve interação entre eles no fim (infelizmente, bem pequena mesmo).
As histórias contadas acabaram me pregando uma peça em duas. A do Mateus, que achei que seria a melhor, acabou sendo decepcionante, e a da Regina que começou mais ou menos, acabou sendo a mais interessante na minha opinião. A da Constância, assim como o nome dela, é uma história constante - piadinha ruim intencional - e a do Murilo não me agradou, não pela trama em si, mas pela forma que ela foi contada.
Murilo é uma criança e com isso o autor que escreveu decidiu colocar a escrita como de uma criança que vai observando aquele mundo dos adultos. Para mim, não deu muito certo. A do Matheus foi a mais decepcionante, pois nela existe um sujeito desconhecido que aparentemente consegue controlar os Corpos Secos através de um carro de som, e aparentemente ele conhece o Matheus e o segue pelo país inteiro. Mas infelizmente o mistério que poderia ser interessantíssimo para por aí. Isso porque o livro simplesmente peca no quesito respostas. Ficamos com várias perguntas não respondidas, o que passa a sensação de um livro cheio de potencial, mas que acabou pela metade. Ficamos sem saber se isso aconteceu apenas no Brasil ou no mundo inteiro, quem é esse sujeito do carro, o que ele quer, o que acontece quando os personagens chegaram (ou não) aos seus destinos, etc.
Não sei se isso foi intencional, para passar a sensação de que o leitor em uma situação como essa ficaria sem algumas respostas devido à falta de mídia, ou se é porque pretendem lançar um próximo livro e contar mais. Sei que não funcionou para mim, mas, em contrapartida, as partes sem perguntas em aberto são interessantes na maioria das suas tramas. Outra coisa é o fato de termos personagens LGBTs na história.
No fim, pra mim Corpos secos foi um livro que tinha potencial, mas decepcionou. Não chega a ser ruim, ele na minha opinião ainda vale a leitura, mas uma que seja pra distrair, apenas. Não vá com muita sede ao pote.
Título: Corpos secos (exemplar cedido pela editora via Netgalley)
Autores: Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado
Editora: Alfaguara
Páginas: 192
Ano: 2020
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