Resenha: Corpos secos

Por Fabio Pedreira •
20 abril 2020

Corpos secos
Devido ao uso de novos agrotóxicos, o Brasil acabou sofrendo uma catástrofe que o levou ao apocalipse. As pessoas que consumiram os produtos contendo essa substância primeiro ficaram agressivas, depois começaram a atacar outros e, por fim, cogumelos e fungos começavam a crescer em seus corpos até que eles secavam e explodiam, liberando esporos que contaminavam quem estivesse por perto.

Algumas pessoas ainda tentam viver em bases militares espalhadas pelo país. Rio, Florianópolis e São Luiz são os pontos de referência para esses sobreviventes, que tentam escapar de onde estão, arriscando suas vidas por motivos diferentes para conseguir viver em um local relativamente seguro.

Escrito por quatro pessoas, Corpos secos traz uma trama dividida pelo ponto de vista de 4 personagens: Mateus, Murilo, Regina e Constância. O primeiro é um rapaz que aparentemente é imune ao vírus, o segundo é o meio irmão de Mateus e que tenta fugir com sua mãe para Florianópolis. Regina é a filha de um fazendeiro que testemunha seu marido sendo morto pelos infectados e Constância é uma engenheira de alimentos que, junto com seu irmão, também estão fugindo do perigo.

Apesar dos capítulos intercalarem os pontos de vista, a história de cada um pode muito bem ser lida separadamente, como se fossem 4 contos separados que se passam no mesmo universo. Então você que escolhe no fim das contas a forma que vai querer ler. A única recomendação que faço é que se for ler por pontos de vista, que leiam o da Regina antes da do Mateus e a do Murilo antes do da Constância. Já que existe uma leve interação entre eles no fim (infelizmente, bem pequena mesmo).


As histórias contadas acabaram me pregando uma peça em duas. A do Mateus, que achei que seria a melhor, acabou sendo decepcionante, e a da Regina que começou mais ou menos, acabou sendo a mais interessante na minha opinião. A da Constância, assim como o nome dela, é uma história constante - piadinha ruim intencional - e a do Murilo não me agradou, não pela trama em si, mas pela forma que ela foi contada.

Murilo é uma criança e com isso o autor que escreveu decidiu colocar a escrita como de uma criança que vai observando aquele mundo dos adultos. Para mim, não deu muito certo. A do Matheus foi a mais decepcionante, pois nela existe um sujeito desconhecido que aparentemente consegue controlar os Corpos Secos através de um carro de som, e aparentemente ele conhece o Matheus e o segue pelo país inteiro. Mas infelizmente o mistério que poderia ser interessantíssimo para por aí. Isso porque o livro simplesmente peca no quesito respostas. Ficamos com várias perguntas não respondidas, o que passa a sensação de um livro cheio de potencial, mas que acabou pela metade. Ficamos sem saber se isso aconteceu apenas no Brasil ou no mundo inteiro, quem é esse sujeito do carro, o que ele quer, o que acontece quando os personagens chegaram (ou não) aos seus destinos, etc.

Não sei se isso foi intencional, para passar a sensação de que o leitor em uma situação como essa ficaria sem algumas respostas devido à falta de mídia, ou se é porque pretendem lançar um próximo livro e contar mais. Sei que não funcionou para mim, mas, em contrapartida, as partes sem perguntas em aberto são interessantes na maioria das suas tramas. Outra coisa é o fato de termos personagens LGBTs na história.

No fim, pra mim Corpos secos foi um livro que tinha potencial, mas decepcionou. Não chega a ser ruim, ele na minha opinião ainda vale a leitura, mas uma que seja pra distrair, apenas. Não vá com muita sede ao pote.


Título: Corpos secos (exemplar cedido pela editora via Netgalley)
Autores: Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado
Editora: Alfaguara
Páginas: 192
Ano: 2020
Compre: aqui

Comentários via Facebook

15 Revelaram sentimentos:

  1. Uma pena que o enredo não tenha sido bem desenvolvido. Já tinha lido sobre este livro, mas imaginava uma coisa totalmente diferente.
    Até consegui visualizar os corpos explodindo,mas oh, cá entre nós, Constância e constante(in) foi de doer os olhos..rsrsrs
    Mas..é literatura nacional e com certeza, se puder, quero sim, poder dar uma chance. Até por ser bem pequeno o livro, acho que mal não fará!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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    1. Olá Angela

      kkkkkk não posso perder a chance de fazer uma piada ruim.
      Mas é, o livro não é de todo ruim, porém poderia ter sido muito melhor.
      Vale a conferida, mas recomendo que seja em formato digital. Já que o preço do fisico não compensa.

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  2. Fabio!
    Parece que o livro deve ser lido nesse momento, principalmente porque ainda não se sabe a total amplitude dos problemas que o vírus causa...
    Achei interessante que cada escritor fala sobre um dos personagens importantes para toda trama.
    E o melhor: são autores nacionais.
    Suas ressalvas são importantes.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Olá Rudy

      É, tem um pouco do que estamos passando, mas até que fica meio diferente, porque acaba sendo algo mais extremo digamos assim.
      É legal mesmo serem autores nacionais.
      Espero que se conseguir ler goste =D

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  3. ola
    MAS tinha que escrever uma tragedia dessa logo com agrotoxicos? meu cunhado por causa do coronavirus está evitando comer muitos produtos kkk imagine essa catastrofe relatado no livro
    mas falando serio que pena que o livro deixou algumas questoes em aberto
    mas como voce seu tres estrelas acredito que vale uma leitura

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    1. Olá Eliane

      kkk Posso imaginar. Mas no livro, por incrível que pareça a coisa é pior.
      Sim, infelizmente deixou muita coisa sem resposta.
      Sim, é aquele livro que decepcionou, mas vale a tentativa da leitura, mas sem expectativa alta.

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  4. Olá! Uma pena que os enredos tenham deixados esses furos, pois a história em si parece ser bastante interessante, daquelas que nos fazem questionar o que andamos comendo e como estamos cuidando do nosso corpo né!

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    1. Olá Elizete

      Verdade, tem uma premissa muito boa, mas execução nem tanto. Mas ainda assim vale arriscar.

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  5. Oi, Fábio
    O livro tem uma premissa atraente, uma pena que o desenvolvimento deixa a desejar.
    Claro que se tiver oportunidade lerei, mas está com um preço bem salgado.
    Beijos

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    1. Olá Luana

      Verdade, uma pena. Verdade, o preço do físico pelo menos acho que não justifica.
      Bjs

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  6. Olá!
    Não conhecia o livro, fiquei um tanto curiosa. Um ótima premissa e bem tipo apocaliptístico né. Espero conseguir ler!

    Meu blog:
    Tempos Literários

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    1. Olá Lily

      Sim, tem essa vibe mesmo. Tomara que consiga e goste =D

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  7. Oi,Fabio
    Gosto do gênero e a ideia é boa.
    Parece ser interessante e trazer boas reflexões.
    Mas é uma pena que não foi tão bem desenvolvido assim.
    Acho que lerei sim!
    Bjs

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    1. Olá Ana

      Sim, a ideia é boa, mas infelizmente na minha opinião a execução foi meio apressada. Mas vale arriscar.
      Bjs

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  8. ingriD Figueiredo27/05/2020 02:43

    É o apocalipse zumbi tupiniquim.

    Corpos Secos tem uma premissa legal, a proposta de um apocalipse zumbi em território nacional é algo que me desperta atenção, ainda que não seja uma proposta inédita, pois alguns autores já exploraram esse tema e eu acho interessante para conhecer a visão de cada autor sobre esse tipo de apocalipse que ao longo dos últimos anos e décadas vem sendo explorado em livros ou nos cinemas, mas também me interessa porque querendo ou não é uma oportunidade de conhecer outras regiões e culturas do país.

    Corpos Secos é um livro que oscila entre a linha do razoável para ruim e digo isso por vários motivos. O primeiro deles é que estou habituado a assistir filmes e ler livros de ficção científica ou terror apocalíptico/pós-apocalítico e por isso com o passar do tempo me tornei mais exigente quanto ao tempo. Uma grande falha que reparei no livro é que de uma história se pula para outra no mesmo parágrafo sem qualquer tipo de explicação e isso não ocorre apenas uma vez. Para exemplificar de forma banal, fulano está na beira da estrada comendo abacate e depois do nada fulano está em uma boate ouvindo Bob Marley, a viagem é grande.

    Um detalhe que achei grave e fica mais claro é ao me perguntar quem é o "Pastor dos mortos"? Outro aspecto que me incomodou é a quantidade de personagens, pois atrás de cada um dos personagens principais há diversos personagens secundários e vários são desnecessários para não dizer inúteis.

    Esse é um livro cheio de potencial, mas que infelizmente foi mal trabalhado e fiquei profundamente triste com a falta de respostas em determinados momentos.

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