
Martim é um jovem brasileiro que vive tranquilamente com os pais em Paris. Porém, eventos traumáticos resultam na separação do casal e Martim se vê obrigado a voltar para o Brasil junto com o pai, mais especificamente para Brasília, cidade recém-inaugurada e que promete grande desenvolvimento. Nessa nova cidade, Martim faz amizade com um seleto (e bastante eclético) grupo. Assim, ele passa a acompanhar um grupo de artes cênicas cujos integrantes ainda desenvolvem uma revista cultural. Entretanto, a década é de 60/70 e o país sofre as consequências de um regime ditador. Agora, ele será obrigado a enfrentar um período de extrema tensão onde o pai pouco tem interesse em sua vida, a mãe manda cartas esporadicamente, sempre dando desculpas por não ir visitá-lo, e os livros que ele pega na biblioteca são fortemente vigiados.
Hatoun dá vida a um período atroz da nossa sociedade. De forma bastante sutil, como se não quisesse ter seu livro censurado, ele cria uma narrativa capaz de registrar diversos pontos que marcaram a era da ditadura brasileira. Ele cria personagens que ilustram fielmente (pelo menos penso assim) jovens e adolescentes que fizeram valer a força da expressão em tempos de negrume. Retratando a vida boêmia de seus personagens, pude sentir uma forte referência aos poetas brasileiros, que se juntavam para falar sobre poesia, conversar sobre rimas, beber e fumar ópio.
A história, entretanto, não é chamativa. Dissertada em forma de um diário, demarcando datas e lugares, Martim narra em primeira pessoa os fatos que marcaram a saída de Paris e o retorno ao Brasil. Apesar de termos o ponto de vista do narrador, muitas passagens são monótonas; não sei se é proposital e reflete o momento psicológico que Martim tem passado, mas fato é que algumas passagens poderiam ter mais desenvolvimento. Ainda, refletindo a cultura que Martim carrega, visto que ele não é um rapaz pouco inteligente, a linguagem poderia ser mais bem-trabalhada. Milton Hatoum é bastante simples na hora de desenvolver sua narrativa, não é muito fã de alegorias e pouco faz uso de figuras de linguagem. Porém, acredito que essa falta se dá pelo gênero apresentado, uma vez que ele escreve um diário para si mesmo, logo, a linguagem informal é predominante.
Não obstante a pouca movimentação da história, as últimas páginas valem o tempo da espera. Nessas páginas vemos um Martim realmente preocupado com o período corrente. Ele se vê cercado por dilemas que podem mudar (mais) para sempre a sua vida. Seus amigos estão sendo caçados; um está desaparecido. Está preso ou fugindo? Ele foge para São Paulo ou fica com a namorada? Poderá reencontrar a mãe? Aliás, ele quer reencontrar a mãe?
Grosso modo, são essas últimas páginas que instigam nossa curiosidade e nos fazem querer ler o próximo volume e descobrir a que levou os últimos passos de Martim.
Título: A noite da espera (exemplar cedido pela editora)
Autor: Milton Hatoun
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 237
Ano: 2019
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