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Resenha: A noite da espera

Por Marcos Ferraz •
10 janeiro 2020

Martim é um jovem brasileiro que vive tranquilamente com os pais em Paris. Porém, eventos traumáticos resultam na separação do casal e Martim se vê obrigado a voltar para o Brasil junto com o pai, mais especificamente para Brasília, cidade recém-inaugurada e que promete grande desenvolvimento. Nessa nova cidade, Martim faz amizade com um seleto (e bastante eclético) grupo. Assim, ele passa a acompanhar um grupo de artes cênicas cujos integrantes ainda desenvolvem uma revista cultural. Entretanto, a década é de 60/70 e o país sofre as consequências de um regime ditador. Agora, ele será obrigado a enfrentar um período de extrema tensão onde o pai pouco tem interesse em sua vida, a mãe manda cartas esporadicamente, sempre dando desculpas por não ir visitá-lo, e os livros que ele pega na biblioteca são fortemente vigiados.

Hatoun dá vida a um período atroz da nossa sociedade. De forma bastante sutil, como se não quisesse ter seu livro censurado, ele cria uma narrativa capaz de registrar diversos pontos que marcaram a era da ditadura brasileira. Ele cria personagens que ilustram fielmente (pelo menos penso assim) jovens e adolescentes que fizeram valer a força da expressão em tempos de negrume. Retratando a vida boêmia de seus personagens, pude sentir uma forte referência aos poetas brasileiros, que se juntavam para falar sobre poesia, conversar sobre rimas, beber e fumar ópio. 


A história, entretanto, não é chamativa. Dissertada em forma de um diário, demarcando datas e lugares, Martim narra em primeira pessoa os fatos que marcaram a saída de Paris e o retorno ao Brasil. Apesar de termos o ponto de vista do narrador, muitas passagens são monótonas; não sei se é proposital e reflete o momento psicológico que Martim tem passado, mas fato é que algumas passagens poderiam ter mais desenvolvimento. Ainda, refletindo a cultura que Martim carrega, visto que ele não é um rapaz pouco inteligente, a linguagem poderia ser mais bem-trabalhada. Milton Hatoum é bastante simples na hora de desenvolver sua narrativa, não é muito fã de alegorias e pouco faz uso de figuras de linguagem. Porém, acredito que essa falta se dá pelo gênero apresentado, uma vez que ele escreve um diário para si mesmo, logo, a linguagem informal é predominante.

Não obstante a pouca movimentação da história, as últimas páginas valem o tempo da espera. Nessas páginas vemos um Martim realmente preocupado com o período corrente. Ele se vê cercado por dilemas que podem mudar (mais) para sempre a sua vida. Seus amigos estão sendo caçados; um está desaparecido. Está preso ou fugindo? Ele foge para São Paulo ou fica com a namorada? Poderá reencontrar a mãe? Aliás, ele quer reencontrar a mãe? 

Grosso modo, são essas últimas páginas que instigam nossa curiosidade e nos fazem querer ler o próximo volume e descobrir a que levou os últimos passos de Martim.



Título: A noite da espera (exemplar cedido pela editora)
Autor: Milton Hatoun
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 237
Ano: 2019

Comentários via Facebook

11 Revelaram sentimentos:

  1. Oi, Marcos
    Ainda não tive oportunidade de conhecer a escrita do autor, mas quero poder ler algo em breve.
    Para começar já gostei muito do cenário histórico que se passa o enredo, deve ser uma leitura fascinante poder acompanhar Martim e seus dilemas com a família.
    Como é uma trilogia ainda tem muitas coisas para acontecer e descobrir sobre Martim, estou curiosa para ler.
    Beijos

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    1. Oi, Luana!
      Eu tbm não conhecia nada dele. Queria muito ler "Dois irmãos", mas ainda não tive a oportunidade. Com esse livro, não superei as expectativas de conhecê-lo, apesar do cenário em que se passa a história.

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  2. Puxa, confesso que ainda não tinha visto ou lido nada a respeito deste livro e nem das letras do autor, mas pelo que li acima, ele construiu um cenário difícil de ser falado e mostrado né? A ditadura ainda é quase que um tabu.
    E não deveria ser. Mas infelizmente Martim resume o que muitas pessoas viveram.
    Por isso,mesmo sendo uma leitura um pouco mais difícil, quero sim, ter a oportunidade de conferir!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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    1. Oi, Angela!!
      Como eu disse, ele trabalha de forma tão sutil que às vezes até esquecemos que estamos envolvidos no período da ditadura. Realmente não consegui captar qual era a intenção do autor, se era contar uma história conturbada de um jovem ou mostrar elementos da época. Talvez uma mistura dos dois?
      Acho que com a conclusão da história podemos chegar a um veredito...

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  3. Olá! Eita que eu já gostei (e muito) do enredo da história, afinal ter um pouquinho mais do que foi essa época vai ser bem interessante e essas últimas páginas sem dúvida devem valer a pena! Confesso que não conhecia o autor, mas já quero mudar isso o mais rápido possível (risos)!

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    1. Oi, Elizete!
      Eu também não conhecia o autor. Tenho vontade de conhecer um outro livro dele, mas ainda não tive oportunidade. Porém, esse livro já vale a experiência.

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  4. Olá! Gosto de livros que mostram a realidade enfrentada em determinados momentos da História, acho importante conhecermos mais sobre o passado de nosso país para que o mesmo não se repita no presente ou futuro.
    Foi uma época horrorosa, mas que precisa ser falada.
    Espero fazer essa leitura em breve! Muito obrigada pela indicação!
    Beijos!

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    1. Oi, Rayssa!! Eu também sou apaixonado por livros assim. Ficção ou não ficção, adoro um livro de História. Esse, entretanto, não nos conta muita coisa, mas serve para dar uns lampejos do que foi a época.

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  5. Oiii ❤ Achei tão interessante que a história do livro se passa em meio à Ditadura, acho que ainda não li nada que tivesse como pano de fundo esse período.
    Deve ser bem difícil para Martim conviver com o desinteresse de ambos os pais.
    A forma como a obra é narrada parece mesmo bem cansativa, mas ainda sim parece valer a pena ser conhecida.
    Beijos ❤

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    1. Oi, Rayane!
      Realmente; não bastasse viver em uma época tão tumultuada, não ter a importância devida dos pais deve ser a parte mais triste.

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  6. Marcos!
    Obras que falam sobre a história do BRasil, de maneira didática ou não, sempre chamam minha atenção, pois gosto de digamos assim ‘filosofar’ sobre a visão do autor.
    Leio muitos autores nacionais e procuro sempre fazer uma análise mais técnica da obra, justamente para poder incentivar à melhoria, caso seja necessária. Infelizmente não apenas os fãs clubes ou aficionados pelos autores não aceitam as críticas, bem como muitos dos autores não entendem e se enfezam, mas não me furto às leituras por isso, sempre lendo nacional porque também tem coisa muito boa.
    cheirinhos
    Rudy

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