Filhos de Sangue e Osso era uma fantasia muito esperada por mim. Afinal, quantas fantasias vocês já leram onde o protagonista é negro? Aqui, todos os personagens são, e isso é a representatividade no mais alto nível que eu, pessoa negra acostumada a não me ver em nenhum lugar, sempre sonhou.
Nessa história vamos acompanhar a Zélie, que vive em Orïsha, um lugar onde a magia já existiu forte e poderosa e onde os Maji tinham uma ligação forte com os deuses e seu poder imenso. Um dia a magia desapareceu e o rei usou isso a seu favor, fazendo um massacre conhecido como Ofensiva, onde todos os maji foram mortos, incluindo a mãe da Zélie. Anos depois, quando todos acham que a magia jamais voltará e quando o rei trata os divinais que sobraram com desprezo e ódio, Zélie conhece Amari, e tem a oportunidade de trazer a magia de volta.
Essa é uma história sobre raízes e ancestralidade, que pode ser transportada para nossa realidade com facilidade. A magia presente nesse livro não é parecida com nenhuma outra que li. Isso porque aqui ela é tratada como algo sagrado e, para funcionar, precisa existir uma ligação real com o Deus que lhe concede isso. Não é apenas um poder que nasce com você, é um poder dado a você por um Deus, em resposta a fé e ao amor que você deposita nele. Temos muitas passagens de Zélie tentando se conectar com os deuses, mais especificamente com a Oya, a divindade para qual ela pertence. Achei isso maravilhoso e sensível, e que condiz com a mitologia Iorubá, base dessa história.
A autora teve a ideia para esse livro quando veio a Salvador e viu os Orixas pintados nas ruas. O livro é baseado no candomblé e dá um show de aprendizado sobre religiões de matriz africana, tão demonizadas por aqui. O mundo é grandioso e cheio de detalhes, quando Zélie sai em busca da magia, vemos isso mais claramente. Antes de serem exterminados pelo rei, os Maji eram queridos e poderosos, eram um povo completo. Eles tinham língua própria, costumes, comidas, comemorações, tudo próximos aos deuses e como marca de um povo e seu poder, com inúmeras tradições. Tudo isso foi apagado com a Ofensiva. É impossível não fazer um paralelo com a escravidão, onde todo conhecimento, religião e costumes de um povo foi apagado. Trazer isso de volta é reconhecer sua ancestralidade e o papel que seus antepassados tiveram. Isso é o que os povos marginalizados e escravizados buscam hoje em dia, e o que a Zélie busca no livro também.
Sem magia, eles nunca nos tratarão com respeito. Precisam saber que podemos revidar. Se eles queimam nossa casa, queimaremos a deles também.
Confesso que esse seria um livro que eu não daria cinco estrelas se fosse qualquer outro, porque por mais que o mundo seja incrível, os personagens me irritaram bastante. O príncipe principalmente. Eu entendo o motivo dele ser assim, afinal, o ódio e o preconceito são aprendidos em casa, mas ele é insuportável. Fraco, indeciso, egoísta e incrivelmente bobo. Foi um personagem que detestei desde o princípio. O romance jamais deveria ter existido. Os personagens masculinos são ruins, na verdade, todo o meu amor vai para as mulheres. Sem a famosa e irritante rivalidade feminina, temos uma amizade que de fato acontece, é real, bem feita. As meninas são corajosas, determinadas, importantes demais para a história. Isso eu amei.
Mas mesmo tendo essas pequenas irritações, não é o suficiente para tirar estrelas da minha nota, porque essa história é tudo que sempre quis ler. Mexeu profundamente comigo, e me levou além, me deixando feliz e realizada. Eu espero que mais livros assim sejam publicados, porque escritos eles já são. Que mais pessoas negras tenham a oportunidade de contar suas histórias, e que a gente consiga se ver cada vez nessas histórias. Quem acha que representatividade não é algo tão necessário, é porque sempre se viu representado. Nós não queremos a superioridade, apenas a igualdade. Quando livros como esse existirem aos montes como existem com protagonistas brancos, aí sim nós estaremos realizados. E um adendo especial ao Petê e sua tradução, pois como tradutor negro e conhecedor da religião Iorubá, as escolhas de tradução foram exemplares.
Espero que deem uma chance para Zélie e para uma cultura e religião diferentes. E vejam meu vídeo de cinco motivos, onde falei um pouquinho mais sobre alguns detalhes do livro.
Título: Filhos de Sangue e Osso
Série: O Legado de Orïsha #1
Autor: Tomi Adeyemi
Tradutor: Petê Rissati
Editora: Rocco
Páginas: 550
Ano: 2018
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