Resenha: Filhos de Sangue e Osso

Por Je Vasques •
28 julho 2020

Filhos de Sangue e Osso era uma fantasia muito esperada por mim. Afinal, quantas fantasias vocês já leram onde o protagonista é negro? Aqui, todos os personagens são, e isso é a representatividade no mais alto nível que eu, pessoa negra acostumada a não me ver em nenhum lugar, sempre sonhou. 

Nessa história vamos acompanhar a Zélie, que vive em Orïsha, um lugar onde a magia já existiu forte e poderosa e onde os Maji tinham uma ligação forte com os deuses e seu poder imenso. Um dia a magia desapareceu e o rei usou isso a seu favor, fazendo um massacre conhecido como Ofensiva, onde todos os maji foram mortos, incluindo a mãe da Zélie. Anos depois, quando todos acham que a magia jamais voltará e quando o rei trata os divinais que sobraram com desprezo e ódio, Zélie conhece Amari, e tem a oportunidade de trazer a magia de volta.

Essa é uma história sobre raízes e ancestralidade, que pode ser transportada para nossa realidade com facilidade. A magia presente nesse livro não é parecida com nenhuma outra que li. Isso porque aqui ela é tratada como algo sagrado e, para funcionar, precisa existir uma ligação real com o Deus que lhe concede isso. Não é apenas um poder que nasce com você, é um poder dado a você por um Deus, em resposta a fé e ao amor que você deposita nele. Temos muitas passagens de Zélie tentando se conectar com os deuses, mais especificamente com a Oya, a divindade para qual ela pertence. Achei isso maravilhoso e sensível, e que condiz com a mitologia Iorubá, base dessa história. 


A autora teve a ideia para esse livro quando veio a Salvador e viu os Orixas pintados nas ruas. O livro é baseado no candomblé e dá um show de aprendizado sobre religiões de matriz africana, tão demonizadas por aqui. O mundo é grandioso e cheio de detalhes, quando Zélie sai em busca da magia, vemos isso mais claramente. Antes de serem exterminados pelo rei, os Maji eram queridos e poderosos, eram um povo completo. Eles tinham língua própria, costumes, comidas, comemorações, tudo próximos aos deuses e como marca de um povo e seu poder, com inúmeras tradições. Tudo isso foi apagado com a Ofensiva. É impossível não fazer um paralelo com a escravidão, onde todo conhecimento, religião e costumes de um povo foi apagado. Trazer isso de volta é reconhecer sua ancestralidade e o papel que seus antepassados tiveram. Isso é o que os povos marginalizados e escravizados buscam hoje em dia, e o que a Zélie busca no livro também.

Sem magia, eles nunca nos tratarão com respeito. Precisam saber que podemos revidar. Se eles queimam nossa casa, queimaremos a deles também. 

Confesso que esse seria um livro que eu não daria cinco estrelas se fosse qualquer outro, porque por mais que o mundo seja incrível, os personagens me irritaram bastante. O príncipe principalmente. Eu entendo o motivo dele ser assim, afinal, o ódio e o preconceito são aprendidos em casa, mas ele é insuportável. Fraco, indeciso, egoísta e incrivelmente bobo. Foi um personagem que detestei desde o princípio. O romance jamais deveria ter existido. Os personagens masculinos são ruins, na verdade, todo o meu amor vai para as mulheres. Sem a famosa e irritante rivalidade feminina, temos uma amizade que de fato acontece, é real, bem feita. As meninas são corajosas, determinadas, importantes demais para a história. Isso eu amei. 


Mas mesmo tendo essas pequenas irritações, não é o suficiente para tirar estrelas da minha nota, porque essa história é tudo que sempre quis ler. Mexeu profundamente comigo, e me levou além, me deixando feliz e realizada. Eu espero que mais livros assim sejam publicados, porque escritos eles já são. Que mais pessoas negras tenham a oportunidade de contar suas histórias, e que a gente consiga se ver cada vez nessas histórias. Quem acha que representatividade não é algo tão necessário, é porque sempre se viu representado. Nós não queremos a superioridade, apenas a igualdade. Quando livros como esse existirem aos montes como existem com protagonistas brancos, aí sim nós estaremos realizados. E um adendo especial ao Petê e sua tradução, pois como tradutor negro e conhecedor da religião Iorubá, as escolhas de tradução foram exemplares. 

Espero que deem uma chance para Zélie e para uma cultura e religião diferentes. E vejam meu vídeo de cinco motivos, onde falei um pouquinho mais sobre alguns detalhes do livro.
 


Título: Filhos de Sangue e Osso
Série: O Legado de Orïsha #1
Autor: Tomi Adeyemi
Tradutor: Petê Rissati
Editora: Rocco
Páginas: 550
Ano: 2018
Compre: aqui

Comentários via Facebook

16 Revelaram sentimentos:

  1. Nossa, eu não sei dizer quando foi que esse livro deu o que falar. Se minha pouca memória não estiver totalmente errada, ele não foi muito bem aceito na época e lendo sua resenha, talvez tenha sido essa irritação que os personagem trouxeram aos leitores rs
    Eu amo fantasia e até ando me aventurando mais no gênero!
    Por isso, claro que se tiver oportunidade, irei conferir sim, ainda mais que tem pedacinhos de nossa cultura!!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

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    1. Oie Angela,

      Eu leio muita opnião positiva sobre esse livro! Personagens jovens geralmente irritam um pouco alguns leitores, mas é uma ótima fantasia, leia com certeza!
      Bjs

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  2. Olá! Muito bacana saber que o livro foi inspirado aqui no Brasil, a história parece ser riquíssima, muito bom, também, que essa representatividade tenha acontecido, com certeza precisamos de mais publicações de livros como esse, outro ponto positivo é essa camaradagem entre as personagens femininas, que pelo visto, colaboraram bastante para que a história fosse ótima, por fim, fiquei curiosa para conhecer mais sobre a cultura Iorubá.

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    1. Oie Elizete,

      é muita rica! uma cultura que deveria ser mais explorada! e eu amo quando as personagens femininas são amigas. Vale a pena a leitura.
      bjs

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  3. Apesar de fantasia não ser uma constante nas minhas metas de leitura, desde a primeira vez que vi Filhos de Sangue e Osso, me interessei muito.
    Muito importante a questão da representatividade

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    1. Oie Chelle,

      sim, estamos cada vez mais atentos para isso, é preciso abrir espaço para todos!
      Bjs

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  4. Je!
    Acho bem importante livros como esse por vários motivos: primeiro por mostrar uma mitologia que aqui no Brasil ainda não é tão respeitada por outras religiões como deveria, afinal, nosso país é laico. Depois pelos protagonistas serem negros, desmestificando toda cultura branca e preconceito que ainda existe. E por último por mostrar os sentimentos reais das pesonagens, achei sensacional.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Oie Rudy,

      Concordo com tudo! O país é laico mas pouquíssimas pessoas se lembram disso. amei tudo que esse livro representa, fiquei muito feliz com a leitura!

      bjs

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  5. Que livro lindo, com a capa e os detalhes nas páginas. Por incrível que pareça, nunca tinha visto nenhum comentário sobre ele. Acho muito interessante (fora que é importantíssimo) quando livros abordam uma religião e cultura diferentes.
    Beijos

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    1. Oie Amanda,

      Quem bom que a resenha t apresentou um livro totalmente novo!espero que tenha a oportunidade de ler, ele é importante mesmo!

      bjs

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  6. não conhecia o livro e fiquei muito feliz ao ver que tem protagonistas negros
    ainda não entendo porque mesmo tendo tantas lutas pela igualdade ainda é tão dificil vermos negros na literatura ,mas não falo de livro que trata de rascismo e sim de livros de romances ,ficçao cientifica .romances de epoca

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    1. Oie Eliane!

      isso é uma ótima questão! Infelizmente ainda somos associados apenas ao assunto racismo, mas tem muita gente negra falando sobre todo tipo de coisa, e escrevendo livros incríveis como esse.
      bjs

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  7. Nossa, seus motivos sobre as estrelas dadas ao livro são extremamente perfeitos! Foi assim comigo também em minha primeira experiência com um protagonista gay. Minha nota para o livro foi 4,5 e só diminui por conta da mesma reclamação que a sua: os personagens, principalmente o Inan. Entretanto, toda a construção de mundo, representatividade negra e referências à cultura iorubá foram excelentes. Amei!

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    1. oie Ycaro,

      Sim o Inan, como explicar esse personagem? ele é insuportável, fraco e sem sentido. eu odiei ele real, hhahahaha. mas passei pano e dei 5 estrelas por tudo que o livro representou para mim, igual você disse da sua experiencia com personagens Gay, rs.
      bjs

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  8. Oi, Je
    Eu já queria ler esse livro, e depois dessa resenha linda, mais ainda.
    Zélie parece ter uma história incrível.
    Fantasia mais mitologia é comigo mesmo!
    E ter essa representatividade é essencial!
    Vai pra lista!
    Bjs

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  9. Olá, Je
    Adorei o video! Esses motivos me fazem querer ler esse livro urgente.
    Quero assim como você a igualdade para pessoas negras ser representado nos livros.
    Vi uma entrevista que a editora Arqueiro fez com a Julia Quinn e fizeram uma pergunta bem interessante para ela sobre personagens negros, ela respondeu que ela não tem conhecimento no momento para descrever personagens negros. E agora lendo sua resenha eu pensei sobre isso.
    Mas torço para que autores possam escrever enredos, séries com personagens negros.
    Esse livro eu gostei muito porque a autora trouxe muito conhecimento sobre a cultura africana, a religião entre outros temas.
    Beijos

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