21 fevereiro 2018

Resenha: O espião que saiu do frio



Pouco tempo atrás fiz uma resenha do livro Um legado de espiões, desse mesmo autor. Em alguns pontos critiquei o fato de o livro não ser um romance, na íntegra, e possuir muitas partes complicadas de serem lidas, outras desnecessárias e algumas até mesmo chatas. Lembro-me de dizer que “tinha tudo para ser um livro cinco estrelas”, mas o seu formato não colaborava.

Bom... em O espião que saiu do frio nós temos exatamente aquilo que faltou em Um legado de espiões. Porém, antes de começar, deixe-me fazer um adendo aqui: O espião que saiu do frio é seu terceiro livro, ao passo que Um legado de espiões é o último. O primeiro fora lançado em 1963, no auge dos trinta anos do escritor, enquanto o segundo fora lançado ano passado. Não conhecendo a biografia do autor, pus-me a lê-los em ordem invertida e só descobri isso após terminar um e começar o outro. Contudo, ok!, não tem problema.

Confesso que foi até melhor assim, porque, para mim, foi mais legal rever certos acontecimentos fazendo esse retrocesso no tempo, do que eu ler como a continuação sugere. É tipo aqueles filmes que têm o 1, o 2 e o 3, aí quando você pensa que vai ter o quatro, o próximo se chama “A origem”. Particularmente, eu gosto assim.


Recordam que na outra resenha eu disse que havia alguns familiares de vítimas da guerra fria que queriam entrar com uma ação contra o governo britânico? Pois bem, aqui nós encontramos essas vítimas da guerra. Calma! Isso não é spoiler, pois vocês não sabem da missa um terço.

O espião que saiu do frio nos apresenta Alec Leamas, agente britânico cuja fé no mundo da espionagem está esfacelando. Ao final de uma operação que ia às mil maravilhas, Leamas vê seu último homem ser abatido ao tentar sair do lado oriental da Alemanha. Voltando para Londres, desiludido, Leamas é questionado por seus superiores se o trabalho de espião já não o está sobrecarregando, uma vez que todos os seus agentes foram abatidos, ao que ele responde que nada disso procede. Sendo assim, Leamas é convocado para o trabalho que seria o mais importante de sua vida. E, como espião que é, talvez sua vida inteira seja uma farsa.

Nesse livro, le Carré é mais tranquilo. Acredito que por ser um dos seus primeiros livros, a sua linguagem nos chega mais acessível (ou talvez eu ainda esteja fazendo aquele contraste entre os dois, pelo fato de este ser um romance totalmente linear e não nos dar aquele monte de documentos e informações criptografadas).

Oh, shit! Ok! Tentarei falar somente desse livro.


Mas o fato é que a leitura de O espião que saiu do frio me agradou bastante. Confesso que nunca vi um personagem tão esférico na minha vida. E essa esfera faz você girar junto com ele. Afinal de contas, ele é do time dos bonzinhos? Ele está traindo a nação britânica? Ele voltou para o nosso lado?

Meus queridos, o enredo que segue é fantástico. Le Carré explora todos os possíveis acontecimentos que podem vir a ocorrer numa guerra de informações e ele os usa mesmo. O ponto negativo da obra, fica exatamente por conta disso: o livro é coberto por informações, mas pouca ação. A vida particular dos personagens são, por mais que eles sejam espiões, monótonas. Sem emoção. O personagem Leamas passa por poucas e boas, mas o desenvolvimento da narrativa às vezes não é cativante. Le Carré é um ótimo escritor, mas pude observar essa sua característica nos dois livros que li.

Enfim. O que se pode encontrar nesse livro? Reviravoltas! Muitas. Em um momento você pensa que está do lado dele, em outro você quer que ele se exploda, aí de repente ele é legalzinho de novo. Ação mesmo, porém, você vai encontrar nas últimas páginas do último capítulo. Sério, não é exagero. As últimas páginas, sem metáfora ou força de expressão, me tiraram o fôlego.


Mas dotô, tu gostou do livro ou não?
Gostei. Em comparação ao outro, gostei muito. Sei que às vezes pareço contraditório em minhas explanações, porém, em minha humilde opinião, este é um livro bom que tem seus defeitos.

A edição que tenho em mãos é uma edição comemorativa de 50 anos da obra. A editora Record caprichou no layout. O livro é em capa dura, e o conteúdo foi impresso em papel off-white. A arte da capa, em tons de azul celeste com detalhes em branco, nos remete claramente àqueles países cujo inverno é rigoroso e neva até dizer chega.

 

Título: O espião que saiu do frio (The spy who came in from the cold)
Autor: John le Carré
Editora: Record
Páginas: 237
Ano: 2013
*Exemplar cedido pela editora

24 comentários

  1. Ainda não tinha visto nenhuma resenha sobre esse livro, sua apresentação é linda!

    www.kailagarcia.com

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  2. Oi Marcos!
    Achei uma loucura o segundo livro ter saído 49 anos depois do primeiro. Fiquei curiosa para saber se foi só no Brasil, mas pelo que eu vi a edição original também saiu só ano passado. Assim como você, também gosto muito quando a ordem cronológica dos filmes ou livros é invertida. Gosto de entender o porquê das coisas terem acontecido depois de ter assistido e confirmar minhas teorias (risos).
    Estranhei que você gostou mais do livro antigo do que o novo, geralmente acontece o contrário pelo autor ter evoluído durante o tempo entre os lançamentos. Gostei muito do livro, principalmente por permitir ao leitor tirar diversas conclusões sobre o personagem ao longo dele. Vou procurar ler.
    Beijos!
    Nerd Fox

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    1. Procure ler sim, Annie! Tenho certeza de que gostará!!

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  3. Esta também e a primeira vez na qual me deparo com a resenha dos livros desse autor, no entanto confesso que a premissa em nenhum momento me chamou a atenção, talvez seja por se tratar de muitas informações, mas ação mesmo que e bom só nas ultimas páginas, que como você citou lhe tirou o fôlego. Enfim, a edição e um luxo, a trama possui muitas revira voltas, mas por enquanto não me chamou a atenção.

    Venha participar do Top Comentarista e concorra o livro "O Maravilhoso Bistrô Francês": http://petalasdeliberdade.blogspot.com.br/

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    1. É uma pena, Lana! Está perdendo um ótimo enredo!!

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  4. Não conhecia, acredita? Parece um ótimo livro!

    Beijo!
    Cores do Vício

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Acredito rsrs. É de fato um livro bom, mas como todo livro bom, é deixado de lado para que as melequinhas que são publicadas hoje em dia sejam lidas!!

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  5. Também não conhecia e acho que pode ser interessante! Obrigada pela dica! ;)

    beijos!

    https://ludantasmusica.blogspot.com.br

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  6. Eu não conhecia o livro e achei a premissa bem legal, nunca li um livro assim. Acho que me interessaria sim :)

    Beijos
    Próxima Primavera

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  7. Oi Fabio, eu não li nada do autor, mas não achei vc contraditório, eu entendo que às vezes mesmo gostando é difícil ignoras alguns problemas!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  8. Não conhecia este livro. Uma coisa que me chamou a atenção foi a forma como você caracterizou o personagem: esférico. Gostei do adjetivo, pois é uma forma simples de explicar uma complexidade bem delicada da personalidade dele. Eu não pensaria uma forma melhor. Com essa simples característica consegui alcançar o que você quis passar sobre ele e suas sensações ao lê-lo.

    Me despertou interesse a leitura. Anotei aqui. Ótima resenha!

    Beijooos

    http://www.aquelaepifania.com.br/

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    1. Oi, Eliza! As características dos personagens é um conteúdo que a gente estuda em Teoria da Literatura 😅 pra mim não foi difícil determinar a sua característica rsrs mas que bom que isso surtiu efeito é e te fez interessar pela leitura!

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  9. Olá, Marcos.
    Eu não sei se leria esse livro porque o enredo não me interessou tanto. Mas que bom que gostou mais do que do outro. Eu sempre faço confusões quando vendem os livros sem explicar a ordem hehe. E odeio quando as editoras lançam livros de série fora de ordem. As vezes a história não faz muita diferença, mas para a vida do personagem faz.

    Prefácio

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  10. Oie Marcos =)

    Não conhecia o livro, mas confesso que a premissa não me chamou muito a atenção. A edição está lindíssima, mas sinto que ia ficar um pouco confusa de ler uma história fora da ordem.

    Beijos ;**
    Ane Reis | Blog My Dear Library 

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  11. Marcos!
    Já li o livro, porque sou bem fã do autor e fiquei feliz em ver que esse trouxe uma outra visão dele para você.
    O estilo de John Le Carré é elegante e conciso, pontuado por vívidas reflexões sobre a condição humana. É um olhar talvez cínico e desiludido, mas sempre profundamente humano. Não se trata de um livro sobre espiões, mas antes de tudo sobre homens e as difíceis decisões e escolhas que fazem parte de suas vidas...
    “Acredite que você pode, assim você já está no meio do caminho.” (Theodore Roosevelt)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA FEVEREIRO: 3 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  12. Achei diferente o autor colocar nesse livro tudo que não colocou no outro, geralmente os autores seguem um padrão de escrita mas isso não parece acontecer nesse .
    E que demora para lançar os livros e nós fãs de GOT ainda temos coragem de reclamar hahahah
    A premissa parece interessante mas acho que eu não leria.

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  13. Como quase todos os livros bons... tem lá seus defeitos, mas não são tempo perdido.

    Adorei a resenha! Essa edição está mesmo maravilhosa!

    Bjkssssss

    Lelê

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  14. Muito boa resenha!
    Tenho "O fiel jardineiro", ainda por ler.
    Beijinhos

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  15. Eu não sou muito fã de obras de espionagem, e talvez por isso não conheça o autor. Mas fico feliz por ti que a experiência tenha sido melhor nesse título do que no anterior. Essas cronologias de livro me tiram da órbita as vezes, mas acho que a complexidade delas deixa tudo mais interessante ainda. A monotonia me deixaria um pouco cansada acredito, mas se o enredo for bom mesmo isso pode ser superado.

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  16. Olá, Marcos!

    Tinha lido sua resenha de Um legado de Espioes e fiquei me perguntando "Mas você esqueceu que era uma continuação de O Espião Que Saiu do Frio?", mas nunca acabei comentando naquele post.
    Mas hoje, ao ler a resenha de O Espião Que Saiu do Frio, vejo que ele foi mais claro que sua sequência, mesmo ele sendo, assim como os outros livros do John Le Carré, um livro mais realista em relação as relações entre espiões, sem seduções exageradas, muita ação e destruição a toda hora. Mostrou como a espionagem realmente funcionava e com isso, chocou o leitor.

    Um abraço!

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  17. Pena ter ação só quase no final, por se tratar de espiões esperava adrenalina que gosto e muito, mas pelo menos tem as reviravoltas que adoro ainda mais quando elas surpreendem e nos enganam rs. Mas acho que deve ser uma leitura que nos atrai e deixa ansioso por essas informações que tem muitas.

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