13 junho 2018

Resenha: 1968


Meu caros amigos, peguem seus exemplares de “1968” com muito cuidado, suspendam-no com dois dedos e esperem o sangue escorrer. 

Não sei se foi uma analogia proposital do autor (se não foi, agora é minha), mas se a Terra tremeu foi por causa de todas as bombas que foram lançadas. E olha que não foram poucas. 

Antes de continuar, como sempre, faço uma confissão e dessa vez confesso que jamais pararia numa livraria e compraria esse livro. Na verdade, este é o primeiro livro do gênero que leio e gostaria de agradecer imensamente ao grupo Autêntica pela cessão dele e também à editora Vestígio pelo trabalho de publicação e o prazer proporcionado. 


1968: Quando a Terra tremeu traz em pequenos discursos grandes acontecimentos. Alguns podem chamar de uma retrospectiva do ano de 1968, mas eu chamo de um prato cheio para quem gosta de História e informações. 

A história desse fatídico ano é contada separadamente mês a mês, com os dias exatos dos acontecimentos. São uma espécie de pequenas reportagens que trazem minuciosamente os piores casos do ano. Como em 68 estava o auge da ditadura militar, quase tudo gira em torno do excesso dos militares perante a população brasileira, mais ainda sobre artistas e estudantes. 

Porém, quisera o Destino que os conflitos se estendessem muito além do Brasil e muitos outros países sofreram nesse ano. Brasil, França, Egito, Japão, Alemanha, todos esses países enfrentaram fortes batalhas de estudantes contra um governo opressor que nunca ouvia a voz de seus jovens. 

Estados Unidos e Rússia (URSS) numa corrida armamentista que poderia desencadear uma guerra nuclear, mas que no final ficou somente naquela de quem iria desbravar o universo primeiro. EUA won! 


Estado de sítio no Uruguai, golpe também no Peru, guerra em Cuba, Tchecoslováquia e a luta contra o Marxismo, a Primavera de Praga, massacres mundo afora, protestos e mais protestos, greve contra o regime militar e a maldita AI-5! Vocês têm noção de quanto sangue foi derramado? 

Porém, quisera, Deus desta vez, que o ano de 1968 não fosse inteiro uma tragédia. Aqui também temos o momento de ascensão do Rei Roberto Carlos, que saía do Brasil para o mundo. Natalie Wood, assim como o insuportável Mick Jagger e também a rainha Elizabeth II, visita o Brasil. Sylvio Fiolo, de apenas 17 anos, bate recorde mundial na natação, que antes pertencia ao russo Vladimir Kosinski. Encontramos nesse ano também os primeiros transplantes de coração que, no Brasil, foi listado como o primeiro da América Latina e o quinto no mundo todo. O primeiro havia ocorrido na África, a luta racista no seu auge e o coração fora doado de um negro para um branco. 

Os assassinatos não ficaram de fora e grandes nomes subiram aos céus (com certeza aos céus) nesse ano. O primeiro caso foi do jovem estudante Edson Luís, assassinado covardemente por militares. Figuras consagradas como Martin Luther King Jr. e Robert F. Kennedy, irmão mais novo de JFK, também foram assassinados a sangue frio. 


Mortes inesperadas aconteceram em outros “setores” do mundo. Uma falha mecânica e nos despedimos do astronauta Yuri Gagarin, primeiro homem a fazer um voo tripulado ao redor da Terra. E assim também foi com o “escocês voador” Jim Clark, que morreu em um acidente de Fórmula 2. Porém, uma morte muito sentida pelos brasileiros foi a de Manoel Bandeira. 

Mas não para por aí, pois podemos tirar algumas coisas boas de algumas tragédias. Em duas praias do Rio de Janeiro, duas baleias encalhadas foram assassinadas brutalmente, ao invés de serem socorridas. E a partir de então, pensou-se muito a respeito de uma lei que impedisse a matança desenfreada de animais. 

Algumas situações inusitadas, como o grande craque Garrincha que foi preso por deixar de pagar a pensão das oito filhas. Inventa-se a pílula anticoncepcional, extremamente julgada e condenada pela igreja católica e as famílias mais tradicionais. Brigitte Bardot quebra tabus do mundo feminino ao se casar pela quarta vez. 

Meus queridos, vocês encontram tudo isso (e garanto que muito, muito, muito mais) nas páginas de 1968. E a forma como Roberto Sanders coloca as coisas no papel é fantástica. Com uma linguagem rica ele te faz acreditar que você está lendo um romance qualquer, mas no fim te faz voltar à realidade com “e isso era só o início de 1968” ou “o ano de 1968 apenas despontava no horizonte”. Rápido, dinâmico e sem enrolação, Sander te coloca a par de acontecimentos incríveis (lê-se: que não dá para acreditar), como Jhon Lennon sendo acusado pelo FBI de ser um extremista perigoso e fazerem de tudo para deportá-lo. Ou quando Gilberto Gil e Caetano Veloso foram detidos em nome da “Segurança Nacional”. 


Enfim... uma única certeza eu tenho: vocês jamais vão saber do que eu estou falando se não lerem o livro. 

Abaixo, eu separei um quote que me chamou mais atenção em cada mês. 

Janeiro 
“Por que me pedem para vestir uma farda, viajar 10.000 quilômetros e matar vietcongues, se eles nada fizeram de mal para mim?” – Muhammad Ali, pugilista norte-americano de 26 anos, ao ser convocado obrigatoriamente para lutar a guerra do Vietnã. 

Fevereiro 
“... Fiolo desbancava Kosinski e era dono da melhor marca do mundo nos 100 metros nado peito. Um feito e tanto para o nadador de um país que não dava qualquer apoio aos seus atletas e no qual tudo dependia do esforço e talento individuais”. 

Março 
“... Não era um cadáver qualquer: por trás de Edson Luís estava toda uma geração de jovens com princípios democráticos aflorados, sonhando com liberdade e com um mundo mais justo. Eram tempos que não combinavam em nada com o regime de força que governava o Brasil. O choque entre as duas partes viria, cedo ou tarde. O peito baleado do jovem estudante do Calabouço apenas acelerou o embate. 


Abril 
“O povo negro sabe que seu caminho não é o de discussões intelectuais, sabe que tem que obter armas. Nossa represália não se fará nos tribunais e sim nas ruas dos Estados Unidos” – Stokely Carmichael, líder do grupo Black Power, após o assassinado de Luther King. 

Maio 
“Pela independência e pela pátria, para cumprir nosso dever na luta contra o imperialismo norte-americano, nosso povo e nosso exército, unidos como um só homem, combaterão decididamente até a vitória final”. 

Junho 
“No entanto, o estrago estava feito. A violência desproporcional e, sobretudo, a forma humilhante com que os jovens foram tratados, depois de saírem pacificamente de uma assembleia universitária, despertara como nunca a rejeição da população aos militares. No ato público marcado para o dia seguinte no pátio do Ministério da Educação e Cultura, policiais e estudantes estariam frente a frente de novo, num dia que seria lembrado como ‘sexta-feira sangrenta’”. 


Julho 
“A fome que ronda nossas casas e o desemprego que nos atormenta têm que ter um fim. Chegou a hora de dizermos não à ditadura dos patrões. Chegou a hora da derrubada das leis do arrocho salarial, do fundo de garantia e das leis antigreve. Nossa luta é de todos. Se você ainda não parou a sua fábrica, engrosse nossas fileiras parando agora”. 

Agosto 
“Que ingenuidade, que pobreza de espírito, dizer que os animais são máquinas privadas de conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que nada aprendem, nada aperfeiçoam. [...] A questão não é: eles pensam? Ou: eles falam? A questão é: eles sofrem?” 

Setembro 
“Já sofrendo de câncer na próstata, assistiu, em 1973, à derrubada do governo democrático do presidente Salvador Allende e à ascensão da ditadura do general Augusto Pinochet. A casa de Neruda chegou a ser saqueada dias depois do golpe. Seus livros foram apreendidos e incendiados pela polícia. Em 2011 [...] Manuel Osorio [...] garantiu que Neruda havia sido assassinado com uma injeção letal na clínica em que estava internado”. 


Outubro 
“Sem qualquer tipo de provocação, a não ser o fato de estarem reunidos em uma praça pública, os manifestantes passaram a ser alvo das forças policiais, sendo atingidas também as mulheres, crianças e pessoas que simplesmente estavam por ali de passagem, saindo do trabalho. Com o fogo aberto contra a multidão, o desespero tomou conta de todos e, rapidamente, viram-se corpos amontoados pelo chão da praça. A repressão foi tão brutal que, sem recuar diante de centenas de vítimas, os policiais invadiam residências das redondezas em busca de manifestantes que fugiam da saraivada de tiros. Mais tarde, caminhões de lixo foram acionados para retirar os corpos tombados”. 

Novembro 
“No Brasil, setenta em cada cem chefes de família não ganham nem o salário mínimo, que, embora estabelecido por lei, não é respeitado pela maioria dos empregadores. Frente a esses fatos, pode a Igreja se manter indiferente?” – Dom Hélder. “Sobre a igreja, ele era implacável: Está atrasada pelo menos um século. Precisa agir, pois aceitou durante trezentos anos a escravidão dos negros africanos e hoje não pode aceitar a escravidão interna das massas enraizadas no latifúndio, como na Idade Média”. 

Dezembro 
“O padre Carelli tinha alguns princípios que norteavam sua conduta: a catequese deveria ser iniciada apenas depois de conhecida a realidade do grupo indígena abordado; não admitia a introdução de expressões da cultura ocidental, muito menos que os índios fossem vestidos com roupas de homens brancos; buscava a colaboração de líderes nesse processo e considerava nefasta a tentativa de conquistar a confiança dos índios através de presentes”.



Título: 1968 - Quando a terra tremeu (exemplar cedido pela editora)
Autor: Roberto Sander
Editora: Vestígio
Páginas: 304
Ano: 2018

18 comentários

  1. Oi, Marcos.

    Realmente, 1968 foi um ano marcante. Tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo... Fatos esses que eu não tinha nem ideia de que tinha acontecido.

    Essa junção de informações, em deixar o leitor à par de tudo aconteceu (e até mesmo relembrar), é primordial.

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    1. É sim, Daiane. E todo mundo deveria ler esse livro.

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  2. Oi Marcos,
    Confesso que alguns anos atrás, se eu visse esse livro, não iria querer ele. Mas com o passar do tempo, eu fui ficando muito interessada em livros que contam fatos da história. Então fiquei bem empolgada com esse.

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    1. Põe sua empolgação.para trabalhar, Theresa. Esse livro é muito bom!!

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  3. Sempre gostei de histórias assim, ainda não tinha visto nada sobre esse livro. Mas já anotei a dica!

    www.kailagarcia.com

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  4. ADOREI essa indicação, vejo que cada vez mais as pessoas estao precisando de aulas de historia e leituras como essa

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

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    1. Exatamente, Lívia. Muita gente precisa ser ler esse livro.

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  5. Eu já tinha lido sobre o livro, mas não com tantos detalhes. A princípio imaginava que falava somente da ditadura no Brasil, mas vai muito além disso. Além de fatos histórico o livro traz também muitas curiosidades como música, saúde. A edição parece maravilhosa repleta de fotos. Eu simplesmente quero também.

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    1. Sim, Evandro. Música, saúde, poesia, moda e, claro, muita violência.

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  6. Gente, estou doidona.
    Não sei porque quando eu vi a capa achei que era do Stephen King!
    HAHAHAHAHAHAHAHA.
    Aí quando comecei a resenha vi que não.
    Muito legal a premissa.
    Eu gosto muito de história e jornalismo, então imagino que você gostar da leitura.

    Beijooos

    www.casosacasoselivros.com

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    1. Deve ser por causa do plano de fundo, Teca rsrs. E se gosta, é um.prato cheio pra vc!!

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  7. Olá Marcos,
    Sabe aqueles livros que passam por você e nem da bola? Então, foi assim com esse, e depois de sua resenha me arrependi completamente!! Que livro incrível, quanto conteúdo, quanto conhecimento nessas páginas, fora que, por mais que eu não tenha "conhecimento" sobre todos esse fatos, foram muito importantes para a história!
    Com certeza pretendo ler, adorei, é essa edição parece incrível.
    Beijos

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    1. Olá, Vitória! Como eu disse no início, pensei da mesma forma que você, mas foi um livro que surpreendeu muito!!

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  8. Marcos!
    Em 1968 tinha 3 anos e não lembro do que aconteceu, apenas do militarismo nacional.
    Acho o livro instrutivo, principalmente para quem gosta de conhecer a história, não apenas do nosso Brasil, mas do mundo.
    E Ah! Não acho Mick Jagger insuportável, gosto dele...kkkkkk
    “Sou uma só. (...) Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo.” (Clarice Lispector)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA JUNHO - 5 GANHADORES
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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    1. Sim, Rudy! É muito instrutivo mesmo!!
      Rsrs se você tiver a oportunidade de ler, verá pq ele é um insuportável kkkk

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  9. Fico feliz que tenha gostado, e para quem gosta de história e livros do genero tenho certeza de que irão apreciar muito a leitura, infelizmente esse não é o meu caso, apesar da maravilhosa resenha o livro não chamou a minha atenção.

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