24 julho 2018

Resenha: Hippie


Hippie tem sido considerado desde o seu lançamento o livro mais autobiográfico do autor. Sem querer esconder esse fato, nas páginas pré-textuais o autor informa ao leitor que os fatos descritos nas páginas seguintes são verdadeiros, tendo sido necessário apenas a mudança de alguns nomes e tempos de determinados acontecimentos. 

Nesse romance autobiográfico, portanto, temos um jovem Paulo Coelho, com apenas 23 anos, cabelos e cavanhaque volumosos, em busca da tão sonhada liberdade e da resposta que até hoje move o mundo: o significado de nossa existência. 

Hippie narra mais precisa e amplamente uma viagem que começou em Amsterdã e terminaria em Katmandu, no Nepal. Porém, com grande amargor, Paulo Coelho relembra e relata, com poucos detalhes, pois “foi preciso condensar algumas passagens”, a vez em que ele e sua namorada foram presos e torturados pela polícia após terem sido confundidos com terroristas. Segundo os policiais, eles estavam sendo vigiados e foram vistos em três países diferentes. Além disso, tinham em posse um mapa que guiava exatamente os mesmos caminhos de alguns assaltos que estavam acontecendo. Após muito sangue derramado e discussão, Paulo e a namorada foram liberados. Do Brasil partiram para Londres onde se separaram, e Paulo seguiu para Amsterdã. 


Na Holanda, Paulo Coelho não tinha a mínima vontade de viajar até o Nepal, uma viagem de 14 mil quilômetros. Sua intenção era gastar todas as economias em uma viagem que terminaria em Roma, cidade em que embarcaria de volta para o Brasil, uma vez que já tinha a passagem de volta comprada. Porém, o destino é uma caixinha de surpresa e Paulo conhece Karla, uma jovem holandesa, linda, super independente e inteligente, com os planos de pegar o ônibus e fazer a viagem mais louca de sua vida. Após terem momentos especiais juntos, onde, discretamente, se apaixonam, Paulo decide segui-la nessa viagem. O ônibus, contudo, é um antigo ônibus escolar, pintado à moda hippie, pouquíssimo confortável. 

Durante a viagem eles conhecem outras pessoas as quais se apegam, que largaram tudo o que tinham para viver a vida em liberdade. Tranquila, todavia, não foi a viagem inteira. Vítimas do preconceito de pessoas distorciam toda a convivência da comunidade hippie, eles eram frequentemente alvos de policiais e donos de restaurantes que faziam de tudo para destratá-los e humilhá-los. 

A viagem teve uma parada obrigatória e não calculada em Istambul, na Turquia, o que se deveu ao fato de estar havendo uma guerra entre as forças nacionais de países muito próximos. Assim, foram obrigados a se instalar na capital por alguns dias. Para Paulo Coelho foi a melhor coisa que pudesse ter acontecido, uma vez que ali ele teve uma de suas maiores viagens sensoriais, um grande passo em direção às respostas que buscava. 


Eu, como apreciador do trabalho de Paulo Coelho, confesso que fiquei um pouco decepcionado. Hippie não me foi um daqueles que me fez seguir lendo, chegar à metade em alguns minutos, como foi com “O diário de um mago” ou “O alquimista”, também não foi um livro que me deixou perturbado como “O demônio e a Srta. Prym”. Porém, o que ainda existe em consonância com outras obras do autor é a pegada filosófica. Todos os livros de Paulo Coelho mexem com o intelecto das pessoas de alguma forma. Eles nos dão lições que muitas vezes podemos encontrar nesses livrinhos de autoajuda, contudo, assim como em Sidney Sheldon, Paulo Coelho tem sempre uma puta história por trás. 

Há muito tempo não leio um livro dele, e até por isso fiquei morrendo de vontade de ter essa edição em mãos quando fiquei sabendo que estava disponível, mas é bem notável a diferença do estilo narrativo entre as obras mais antigas e a atual. Em Hippie, parece que temos um Paulo Coelho sem emoções, narrando os acontecimentos só por narrar, como se estivesse na obrigação de fazê-lo. 

Para minha pessoa, o melhor ficou para o final. Para quem não sabe e diz que o autor vai para o inferno só porque é sócio em grande parte das letras das músicas de Raul Seixas, Paulo Coelho é um homem muito religioso. Assim como suas obras são cheias de lições para a vida, é muito difícil uma obra dele em que não apareça a imagem de Deus. Muitas vezes seus livros são ligados à espiritualidade, falam sobre Deus e homem, aonde levam nossas ações ou o bem que faz termos um Deus em que acreditar; e foi isso que o final do livro me mostrou. Coincidência ou não, me peguei lendo algumas linhas que pareciam estar sendo dirigidas unicamente a mim. Passando por uma fase bastante complicada atualmente em minha vida, me deparo com os seguintes dizeres: “’Não consegui nada esta noite, mas, se Deus quiser, amanhã tentarei de novo’. Isso me deu força para seguir adiante”. Confesso que o queixo treme toda vez que releio essa passagem. 


Mas enfim... 

Paulo Coelho visita um templo dos dervixes, seres iluminados, muito semelhantes aos monges, que vivem na pobreza extrema e buscam o caminho da luz. Após várias experiências sensoriais magníficas, Paulo decide tornar-se um pupilo de um dervixe e aprender tudo o que o sufismo prega. Para ele, a viagem que seguiria o rumo no outro dia, termina ali. 

Meus queridos, o que foi retratado é a trama central de Hippie. Porém, há muito mais do que isso ali. O romance é bastante colorido, principalmente quando os personagens estão nas ruas de Istambul. Nós temos duas pessoas que passam por profundas transformações, principalmente no amor. Pessoas que abraçam novos valores a suas vidas. Temos uma viagem em que as pessoas falaram de sexo e usarão drogas ilícitas, enfim, apesar da pouca emoção nas mãos de Paulo Coelho, muita coisa que envolve a comunidade Hippie é descrita no livro. 

Sobre a edição: O trabalho da editora Paralela não poderia ser diferente: colorido como é o mundo hippie. Com ilustrações e mensagens que parecem ter sido desenhadas, escritas e pintadas à mão, as orelhas e a contracapa trazem dizeres que transmitem mensagens pertinentes à comunidade hippie.


 
Título: Hippie (exemplar cedido pela editora)
Autor: Paulo Coelho 
Editora: Paralela 
Páginas: 285
Ano: 2018

7 comentários

  1. Eu nunca li nenhum dos livros do Paulo Coelho, mas esse enredo é realmente muito interessante, eu fiquei curiosa pra ler sim. Amei sua resenha!
    Mil Beijos!
    http://pensamentosdeumageminiana.blogspot.com/2018/07/dica-de-serie-samantha.html

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    1. Oi, Gabriela! Os livros que eu citei na resenha são muito bons. Se tiver interesse em um dia ler algum dele, pode começar por algum daqueles que tenho certeza que vai gostar!

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  2. Ah, que pena o livro ter te decepcionado um pouco... Achei a premissa tão interessante e fiquei espantada com essa coisa dele "narrar só por narrar". Uma pena realmente. Essa edição está super bonita, bem hippie mesmo!

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    1. A ideia do livro é bem interessante sim, a história que ele traz tbm é. O que de certo ponto me decepcionou foi a forma como a história foi narrada em comparação com o que já li dele.

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  3. Marcos!
    Sempre fui fão do Paulo Coelho e de suas histórias que trazem um cunho filosófico e religioso.
    Já li uma outra biografia dele, mas completa, abordando várias passagens da vida dele, com fotos e documentos anexos e gostei demais.
    Me parece que esse aborda apenas um trecho mais 'promíscuo', digamos assim, do passado dele. Mesmo não sendo o que se espera, acredito que valha a pena a leitura, sempre temos algo a aprender com ele.
    “O homem está sempre disposto a negar tudo aquilo que não compreende.” (Blaise Pascal)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA JULHO - 5 GANHADORES - BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  4. Oi Marcos,
    Escuto falar tanto sobre o Paulo Coelho, sobre como seus livros inspiram, mas não conhecia esse lado do autor, por mais que eu não goste de biografias, adoro essa cultura hippie, e gostei do que o livro propõe, essa viagem para descobrir a si mesmo ..
    De todos os livro do Paulo Coelho esse é o primeiro que de fato me surpreende.
    Acredito que por não conhecer a escrita dele, tive uma impressão diferente, por isso quero ler, uma pena que para você não rendeu a leitura.
    Beijos

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  5. Oi! Conheço a escrita do Paulo há alguns anos, quando ganhei dois livros dele e fiquei encantada com as histórias, As Valkírias e Verônica decide morrer. Gostei demais desses livros, tanto, que já depois de crescida e mais entendida, voltei a ler, e vendo de um modo bem diferente, confirmei o encanto. Este livro me parece ter boas doses de tudo que sempre tem um pouco em cada livro dele, misticismo, religião e dúvidas da vida.. Sou muito curiosa com a vida dele, e das tantas coisas loucas que aconteceram e que servem sempre pra ele compor as histórias. Adoraria ler!

    Bjoxx

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