21 novembro 2018

Resenha: Sob o céu de Cabul


Quando me sugeriram o livro Sob o céu de Cabul, imaginei que leria mais um livro triste sobre a história desse tão sofrido povo. Estava parcialmente certa: sim, temos o relato de coisas terríveis sendo praticadas na cidade, mas contados através da inocência e do bom humor de uma criança de cerca de 11 anos, as coisas acabam ficando leves e sem apelação.

Nosso menino é Fawad, afegão que mora atualmente com sua mãe na casa da tia, com tio e primos. Depois de perder a família inteira durante a ocupação da cidade pelo Talibã, a mãe, Mariya, e Fawad se viram obrigados a pedir ajuda à tia, com a qual sua mãe não mantém boas relações. A mulher é uma pessoa extremamente amargurada e reclamona, tornando a vida dos dois um inferno, com brigas constantes e muitas ofensas. Sem ter para onde ir, os dois acabam abaixando a cabeça em certos momentos, porém, nem sempre.

Fawad sonha com o dia em que poderão sair daquela casa e seguir suas vidas, e a oportunidade logo surge: sua mãe é contratada como empregada na casa de três gringos. Georgie, May e James são de nacionalidades diferentes, todavia, para Fawad são todos iguais: estrangeiros pecaminosos e de hábitos duvidosos que precisam ter sua alma salva para que não passem o resto dos seus dias no inferno. Afegão tradicional e rígido, o menino de início teme pela reputação de sua mãe, visto que James gosta de andar sem camisa pela casa e é muito simpático com Mariya, sem falar das constantes festas e bebedeiras protagonizadas pelos moradores da casa. Como sendo o único homem da casa (ele e a mãe moram em uma construção separada, mas no mesmo terreno que os gringos), se vê obrigado a ficar de olho na mãe. Porém, ele mesmo decide que pode dar umas fugidas, e espiar May (a peituda) trocar de roupa.


Conforme vai crescendo, Mariya decide que Fawad não pode simplesmente ficar espiando os estrangeiros e ficar ouvindo as fofocas pelos cantos, põe então o menino para trabalhar no mercadinho local de um senhor já ruim das ideias. Fawad tem alguns amigos muito queridos e carismáticos, cada um com sua cruz e tragédia pessoal. Como o próprio menino disse no livro: estamos falando do Afeganistão! Aqui todo mundo já perdeu alguém ou vive em sofrimento. Esses amigos vão constantemente ao seu trabalho, e de lá as aventuras acontecem e histórias surgem.

Conforme o tempo passa, os estrangeiros desenvolvem um afeto verdadeiro por Fawad, e o mesmo acontece com ele. Passa então a ser confidente de Georgie, pela qual se apaixona. Descobre, porém que ela é a namorada de Haji Khan, um homem que lutou muito pelo país e por isso tem a grande admiração das pessoas da região. Apesar dessa paixonite, Fawad tem um coração bom e quer que Georgie seja feliz.

Mas, não se engane, o sofrimento permeia esse livro, as perdas estão intercaladas entre as festas e os chás. E assim a vida segue, com fofocas, bombardeios, festas, doenças, trabalho, fome, encontros para tomar chá, explosões. Com alegria ou tristeza, a vida somente segue, pois é isso o que esse povo sabe fazer: superar e seguir; se erguer e sorrir.

Fui conquistada pela escrita fluída e realista da autora Andrea Busfield, que esteve no Afeganistão em 2001 durante a queda do Talibã. Ela mostrou muito tato e sensibilidade ao retratar um menino com o coração totalmente afegão: rígido, que luta pela dignidade, que tem fé em Alá, trabalhador e sofredor de carteirinha. É muito interessante o jeito de pensar dessa cultura tão diferente da minha, porém, apesar de compreender algumas características, não consigo deixar de achar injustas algumas situações.

Uma coisa que me assustou um pouco foi que a autora descreveu certas situações trágicas de uma forma tão natural, que me vi pensando: que droga, mas todo mundo morre um dia mesmo! E foi então que fiquei alerta, pois o conformismo nunca foi algo da minha personalidade.

Feitas essas devidas considerações, posso afirmar que esse livro com certeza merece uma chance! Conquistou um lugar especial no meu coração.

Abraços.



Título: Sob o céu de Cabul
Autora: Andrea Busfield 
Editora: Agir
Páginas: 320
Ano: 2014

8 comentários

  1. Boa tarde,
    Tudo bem?
    Não me lembro de ouvir sobre este livro, mas parece ser uma coisa tão real e triste ler o relato e vida de quem vive esta guerra diariamente :(
    Gostei da dica :)

    Beijos e se cuida
    www.rimasdopreto.com

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  2. Oi Sil, muito bacana a sua resenha. Não lembro de já ter ouvido falar nesse livro antes, mas até que fiquei interessada, pois gosto de histórias que tem foco culturas mais diferentes. Os Delírios Literários de Lex

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  3. Olá! Adorei a resenha e sinto que vou gostar da leitura. Só pela resenha já senti vontade de chorar. Esses livros que passam no Afeganistão são muito tristes, impressionantes e comoventes. É sempre uma boa leitura. Gosto das diferenças e do choque de cultura que a gente leva.

    Bjoxx

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  4. Não consigo me lembrar de já ter visto este livro antes!E olha que sou apaixonada por histórias que tragam um pouquinho desta região e seu povo!
    Mas pelo que li acima, mesmo com um ou outro ponto negativo, conhecer Cabul e Fawad deve muito valer a pena sim, ainda mais da forma como foi tudo relatado!
    Vai para a lista de desejados com certeza.
    Beijo

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  5. Amei sua resenha, ainda não tinha visto nada sobre esse livro. Fico assustada quando vejo as pessoas agindo de forma natural em algumas situações também.

    www.kailagarcia.com

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  6. Oi Silvana,
    Menina que livro legal! Ele me fez lembrar muito do livro "É isto um homem", que narra como era dentro do campo de concentração no tempo de Hitler. Mas esse livro é diferente, acredito que a escrita seja mais leve e a narração mais suave por ser o ponto de vista do personagem tão novo. Fiquei um tanto espantada na situação deles meio que se acomodarem em sempre alguém morrer, e mesmo assim seguirem a vida como se fizesse parte dela, e fosse para ser sempre assim. É doloroso na verdade. Imagina passar tanto tempo assistindo a isso que chega a esse ponto :/ Acho que nós Brasileiros fazemos um pouco disso (não todo mundo), mas sentar na frente da TV no horário de almoço e ver o jornal de notícias, onde só passa tragédias e ficar olhando corpos de pessoas mortas e tudo mais, faz nós nos acomodarmos com isso também.
    Sua resenha ficou maravilhosa, e acredito que o livro merece um cantinho especial no coração de todos nós.

    Beijos ❤

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  7. Oi Sil,
    Dá um aperto no coração ler esse tipo de história, e ver que, apesar do sofrimento, as pessoas já estão tão acostumadas, que nem se comovem mais... Triste né? Pior é pensar que é realidade!
    Imagino que seja uma história muito linda, e real ao mesmo tempo, principalmente sendo narrado por uma criança. Achei legal também mostrar a parte dos estrangeiros, por mais que tenha num lado bonito, mostra que eles dominam um pouco o loca, por conta do dinheiro.
    Beijos

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  8. Eu já li algumas coisas que tem o Afeganistão como cenário principal, e todas foram leitura bastante emocionantes e sofridas. Acho que a grande característica desse livro é a narração do menino, que torna tudo um pouco mais leve e suportável. Gosto da forma como as tragédias são contadas, mas intercaladas com momentos de alegria, diversão e delicadeza. Não é um livro que eu conhecia, mas com certeza vou colocar ele na lista aqui.

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