08 novembro 2019

Resenha: A biblioteca elementar


Olá, tudo bem com vocês? Eu aqui novamente atacando com resenha de livro brasileiro! E nem posso reclamar, ando com sorte nesse tipo de leitura.

Esse é um livro no mínimo bem estranho, mas com certeza muito bom. É o quinto e último volume da quintologia chamada “Compêndio mítico do Rio de Janeiro”, onde o autor Alberto Mussa aborda temas clássicos da literatura e os ambienta em cinco diferentes séculos da história do Rio de Janeiro.

Certa noite, em uma rua do Rio de Janeiro do ano de 1.700, um homem saca uma pistola e entra em combate com outro homem. Ouve-se um tiro. O que sacou a pistola está morto. Existe uma testemunha, uma mulher. Esta, porém, não pode testemunhar, pois não deveria estar saindo do cemitério àquela hora, carregando um pacote nas mãos.

Assim começa o livro, e então parece que você está sentado em uma mesa de bar conversando com o autor sobre essa história, no mínimo peculiar. Ele nos apresenta os moradores da rua do Egito, batizada assim por ter sido essencialmente fundada por ciganos egípcios. 

O mais engraçado é que você consegue imaginar inicialmente quem é o tal assassino, pois o foco não é descobrir quem matou, mas sim porque matou. Afinal, como o próprio autor destaca no livro: “Não é a geografia, não é a arquitetura, não são os heróis nem as batalhas, muito menos a crônica de costumes ou as imagens criadas pela fantasia dos poetas: o que define uma cidade é a história dos seus crimes”; a história dos envolvidos, o motivo de cada ação e decisão tomada, que culmina no ato final da morte de alguém.


Não vou falar de cada personagem, pois são cerca de vinte casas existentes na Rua do Egito na época do assassinato, e todas elas estavam habitadas, sendo assim, seria muita gente para citar e dar o seu devido valor nesta resenha. Ao invés de citar nomes, vamos falar de personalidades e situações.

Como já falei na resenha de Carta à rainha louca, o Brasil de 1.700 era um tanto quanto bizarro. Fazer sexo anal, por exemplo, era considerado crime, conhecido como Pecado Nefando (lembrando que a igreja comandava a vida das pessoas naquela época). E, neste livro, temos um pessoal que adora esse tipo de pecado!

Existia uma certa família que não gostava muito de seguir algumas regras, e com isso muitas coisas perigosas aconteciam na Rua do Egito. Coisas essas que nem sempre eram resolvidas, no geral, eram acobertadas ou acabavam esquecidas. Pode-se dizer que algumas pessoas faziam sua própria lei, de acordo com sua vontade.

Saber ler era um privilégio para poucos, ter uma biblioteca, então, era coisa só para pessoas muito especiais, e existem bibliotecas que são conquistadas ou adquiridas de formas muito incomuns.


No Brasil de 1.700, mais especificamente na Rua do Egito (hoje conhecido como Largo da Carioca), existiam três cegos que possuíam o dom de criar rimas ou poemas que falavam da vida alheia. Você poderia por exemplo, pagá-los para criar um poema ou uma rima e assim mandar um recado anônimo para alguma pessoa. Os assuntos abordados poderiam ser de conhecimento geral, ou poderia ser algum segredo obscuro. Este poema obviamente era lido em voz alta, assim todos ficavam sabendo de algo que você fez. Para evitar que o poema fosse lido, você poderia pagar uma quantia aos cegos, assim sua vida continuava privada. Isso se ninguém resolvesse entrar na disputa e pagar mais para ter o direito sobre o poema.

Ainda hoje as pessoas possuem crenças e costumes que podem parecer muito estranhos aos olhos de outros. No nosso Brasil de 1.700 não era diferente. As pessoas eram muito supersticiosas e faziam coisas estranhas e muitas vezes até proibidas. E tem gente nessa história que gosta de mexer com algumas coisas estranhas.

Dado o rumo da história, podemos ver que apesar de séculos terem passado, o ser humano continua cometendo erros muito parecidos, batendo nas mesmas teclas, se lamentando pelas mesmas coisas, e resolvendo os mesmos problemas que tornarão a surgir tempos depois. E então preciso citar uma frase do autor na introdução do livro: “Se as mitologias variam, e divergem entre si, condicionadas que são pela cultura e pela história, os problemas míticos, os problemas humanos são essencialmente os mesmos, independentes do tempo e do espaço”. E isso nos leva a uma pergunta: somos assim tão evoluídos como costumamos dizer? “Os tempos mudaram”, “as coisas são diferentes agora do que na minha época”... muitas coisas mudaram sim, de fato, mas no geral são coisas materiais e as pessoas se comportam mais livremente. Mas me desculpem, o cerne do ser humano para mim continua parecendo o mesmo. Somos todos seres com as mesmas questões existenciais sem explicação, habitando esse mundo e ajudando a melhorar ou piorá-lo, dependendo do ponto de vista.

Indico a leitura com certeza!

Abraços. 
Título: A biblioteca elementar
Autora: Alberto Mussa
Editora: Record
Páginas: 192
Ano: 2018

6 comentários

  1. Nunca vou me cansar de elogiar a nossa literatura! Há tanta coisa boa escondida por aí e não acredito que ainda tenham leitores que torcem o nariz para nossos autores.
    Amei, amei tudo que li acima e fiquei pensando em quem é do Rio podendo ver esse local ali, retratado da forma como era no passado e sim, pode ser até hoje. Quem garante??
    Tantos segredos, tantos mistérios, tantos erros e oh, acertos!
    Com certeza, vai para a lista dos mais desejados!!!
    Roteiro de minisérie!!!!rs
    Beijo

    Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  2. Silvana!
    Tenho lido muitos autores nacionais e como você, tenho gostado demais.
    Não conhecia o autor, mas gostei muito dele falar sobre o RJ, mesmo em outro século, porém trazendo o entendimento que a essência do ser humano, não muda, independente de tempo e espaço.
    E claro que um livro que quer mostrar o entendimento do porque um crime é cometido, sem se preocupar com o assassino, é no mínimo diferente.
    cheirinhos
    Rudy

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  3. Olá, Silvana
    Que livro diferente!
    Fiquei curiosa para saber porque a pessoa matou e por se passar em 1.700.
    A capa é muito bonita e descobrir mais sobre o Brasil nesse época é muito legal!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Silvana,
    Nossa, mas que história diferente, hein! Adorei. Parece ser um livro muito bem trabalhado e muito intrigante. Adorei a frase que diz que o importante, na verdade, não é quem matou, mas porque isso aconteceu... Acho que me faz refletir um pouco sobre o que leva algumas pessoas cometerem crimes, e não simplesmente, colocá-las em nichos as esteriotipando como tais: simplesmente assassinas. Gosto de entender como há motivação por trás de tudo o que fazemos. Então, os velhos poetas faziam códigos específicos para os moradores da rua do egito? UAU! Que interessante! Percebo como a comunicação sigilosa era disseminada nesse universo que o autor criou. Mas, que reflexão esse autor nos causa, viu. Amei a temática do livro e fiquei muito curiosa pra entender mais sobre essas filosofias abordadas na narrativo.
    Amei a resenha,
    Beijinhos.

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  6. Olá!
    Um livro mais que interessante, conta uma historia. Ainda mais sendo do Brasil, fiquei curiosa pela trama e principalmente por saber o motivo do assassinato e de todos ao redor. Espero consegui ler, já que é raro ler algo de autor clássicos.

    Meu blog:
    Tempos Literários


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