Resenha: Trocas macabras

Por Marcos Ferraz •
20 janeiro 2021

“Eu tenho a coisa certa que você precisa”. 

É com essas palavras que Leland Gaunt conquista seus clientes. E, dammit!, ele sempre está certo. Ele sempre tem o que a gente precisa.

Gaunt é um comerciante que estabelece sua loja na pacata (e famosíssima) cidade de Castle Rock. Com um nome bastante interessante – Artigos Indispensáveis – ele atiça a curiosidade da comunidade local, fazendo-os entrarem na loja e por coincidência (?) encontrarem aquilo que mais desejam. Oh, mas isso não é a melhor parte. A melhor parte é o preço. “Eu sou um negociante, vamos conversar. Aposto que o que você tem na carteira pagará o valor certo pelo produto”. Leland Gaunt invade a cabeça das pessoas com produtos místicos, fazendo-as querer aquilo mais do que nunca, explorando comportamentos, temperamentos, estereótipos e necessidades; e quando eles não podem mais dizer “não”... “Mas o preço não é só esse. Para mantermos esse valor, quero que você faça um favor para mim”. E são esses favores que movimentarão o enredo.


A grande movimentação da história fica para as últimas páginas mesmo. A princípio, King nos apresenta aos personagens com uma certa monotonia que é necessária para entendermos o que são os favores que o personagem Gaunt pede. Favores esses que a gente nunca fica sabendo de imediato, óbvio. O que é suficiente para deixar o leitor curioso e não cair no sono da monotonia inicial. Mas King prova, como sempre, porque é mestre e nos dá um gostinho (de sangue.. tipo muito) do que nós veremos se continuarmos lendo.

O número de personagens do livro é bastante amplo e passa por aquela fábrica de estereótipos. Mas, mais uma vez, é uma coisa necessária, uma vez que o vilão usa desses estereótipos para as maldades que ele prega. Em algum momento podemos até confundir um personagem com outro, mas as descrições e o dia a dia deles são tão bem descritos, tão bem fundamentadas, que o excesso de personagens é uma coisa que passa batida.

Na nota da editora, a Suma nos informa que a pretensão do King era de que esse fosse o último livro ambientado em Castle Rock (o que ele não conseguiu cumprir, mas isso não vem ao caso), por isso mesmo toda a história inteira é na cidade. Logo no início ele nos afirma: “Você já esteve aqui. É claro que já esteve aqui”. Sim, my dear master, eu já estive aqui. E quem realmente já esteve aqui consegue acompanhar todas as referências que ele coloca no livro. E não só isso, mas conseguimos fazer links até com a série “Castle Rock”, produzida pela Hulu. 


“Cujo” é a referência que ele faz mais explicitamente. Ele fala do famoso São Bernardo que ficou louco e matou o velho Joe Camber, da sua mulher que ganhou na loteria e sumiu e cita a estradinha no final da Rodovia 117 que leva à oficina de Joe, saindo de Castle Rock, de tal modo que podemos sentir aquela pontada de nostalgia. Além disso, a presença constante do Xerife Alan Pangborn não nos deixa esquecer da série há pouco citada. E outros personagens, como o lojista Pop Merril (que tem papel fundamental na segunda temporada da série) e seu sobrinho Ace Merril (que tem papel fundamental no livro) nos faz manter os olhos vidrados nas páginas.

A linguagem, o estilo narrativo do King são os mesmos desde sempre. É impossível dizer que há alguma alteração (com exceção da Torre Negra) em relação a outros livros. Desde o lançamento de “Carrie” até os mais recentes “O instituto” e “Com sangue”, King mantém a sua cadência, sabendo explorar a língua, os vocábulos, sempre prestando atenção para não exagerar nos advérbios; ele sabe quando fazer uma piada, sabe quando colocar um palavrão.

As temáticas exploradas por ele são infindáveis. Podemos de cara ver uma crítica ao consumismo, aquela vontade de termos uma coisa que não precisamos (tipo todos os livros do King). Fala sobre a violência, a falta de caráter, falta de credibilidade e o fato de acreditarmos em pessoas de fala mansa em detrimento de pessoas que realmente confiamos. Além disso, ele deixa muito papo aberto para falar sobre a violência contra a mulher e o fanatismo religioso.


Enfim, “Trocas macabras” é um livro que para o bom fã de Stephen King basta. Como todo livro do mestre, ele segue a linha “montanha russa”, tem seus momentos bons, seus momentos ruins, tensão, clímax e tudo o mais. Quanto ao final, sempre vai existir aquele mimimi de gente que não entende bulhufas nenhuma.

Mas eu... eu nunca critiquei. 

Título: Trocas Macabras (exemplar cedido pela editora)
Autor: Stephen King
Editora: Suma 
Páginas: 656
Ano: 1992 / 2020
Compre: aqui

Comentários via Facebook

20 Revelaram sentimentos:

  1. Gostei bastante do artigo, muito bom mesmo! Estou amando ler seus artigos e compartilhar com os amigos!


    Meu Blog: Triângulo da Sorte

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    1. Obrigado, Fernanda!! Compartilha bastante mesmo rsrs

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  2. Em um livro do Mestre óbvio que não seria uma simples troca, óbvio que Leland iria querer muito mais que o vil metal em troca do objeto de desejo

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  3. Bem Marcos, como sempre detalhita e crítico, o que é bom, porque mesmo sendo fã do King, consegue apontar as ressalvas que o livro traz.
    Tenho dificuldade quando há muitos personagens, mas nada que um bom caderno e caneta não resolva.
    Ele criou sua própria cidade para ambientar seus livros e acho isso genial.
    Curiosa em poder ler.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Olá, Rudy! Obrigado!!
      Castle Rock é de fato uma cidade inventada pelo King e cada história é uma nova surpresa.
      Espero que leia em breve e não se preocupe com o número de personagens, como eu disse, não atrapalha muito

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  4. Obaaa, terceira resenha que eu tô vendo desse livro só essa semana, acredita? Tá dando o que falar!
    Que bonito ver essa coleção do Stephen, confesso que queria na minha estante hein HAHAHAHA só vejo maravilhas, e parece que com esse livro não é diferente, aliás, 5 estrelas é sensacional! E o título parece que casa direitinho com a história né? Fiquei muito curiosa :D

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    1. Oi, Bruna. Pessoal sempre fala bastante de lançamentos, né? E esse realmente tá dando muito o que falar.
      O título casa perfeitamente. É numa das poucas vezes que eu gostei da tradução rsrs

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  5. ola
    tenho visto varias resenhas desse livro ultimamente . parece que o autor traz para a obra o que o ser humano é capaz de fazer para se obter o que deseja e sempre tem alguem que está disposto a levar o outro a desviar do caminho correto . o ser humano é capaz de tudo heim
    não é um genero que eu leio ,mas que bom que a leitura foi 5 estrelas .

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    1. Olá, Eliane!
      Realmente é isso. Stephen King sempre traz essa questão do que o ser humano é capaz de fazer em momentos de desespero. A gente vê muito isso em "A dança da morte tbm"

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  6. Saudade das suas resenhas aqui!
    Bem, falar de algum livro do Mestre King é sempre muito complicado para os fãs e claro, para quem não gosta de seus livros.
    Esse livro tem dividido opiniões e eu admito que estou doida para ler.
    Ler King é para os fortes, pois ele faz essa ponte de uma história à outra numa facilidade peculiar e por vezes se a gente não leu algo anterior, acaba se perdendo um pouco.
    Como o preço desse calhamaço ainda tá meio salgadinho para minha pobreza, eu fui rever o filme de 1993 e amei, amei muito!!!
    Espero conseguir comprar ele o quanto antes. Aliás, quase todos nessas roupinhas novas!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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    1. Oi, Angela!! Obrigado!
      Pensei em procurar o filme, pq nunca assisti, mas acabei esquecendo. É bom saber que tem dele por aí rsrs
      Espero que leia logo, e podemos conversar melhor sobre ele 😊

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  7. Que lindos todos os livros da coleção juntinhos! Esse livro está sendo muito comentado por aí, mas eu ainda não tinha lido nada sobre, achei que parece ser bem interessante, justamente por conta dos favores. Nem li e já imaginei que ele faria mesmo uma crítica ao consumismo com essa história da loja. Quero ler!
    Beijos

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    1. Oi, Amanda!!
      Está faltando um dessa coleção aí (choro). Falta "O iluminado".
      Sobre a crítica, King sempre aproveita seus livros para fazer isso. Recentemente comecei a releitura de "It" e tinha esquecido como ele faz uma baita crítica contra a homofobia, logo no início.

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  8. Eu faço parte da galera que ainda nao leu nada do king, mas quer muito rs! Essas ediçoes dessa coleção estao lindas! King é famoso pelos seus finais também, ou que n entende ou realmente n tem sentido né. Ate ele mesmo ja vi falar sobre hihi.

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    1. Olá, Ariela! Pois é, os finais das histórias do King sempre causam divergências rsrs
      Se quiser algumas dicas de por onde começar por King, acho que a Naty fez um post sobre isso, é só dar uma pesquisada no blog, porém, pode me procurar no IG que eu também te dou umas dicas

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  9. Oi Marcos!
    Quanto poder de persuasão hem haha eu quero distância de uma loja assim kkk
    Brincadeiras a parte, o King é genial quando escreve e estou muito curiosa para ler o livro.
    Até mais!

    Quanto Mais Livros Melhor

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  10. Eu to doooida para ler esse livro, como super fã do king não vejo a hora de poder começar! Adoro as ligações que ele faz com outros livros.

    Beijinhos
    She is a Bookaholic

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  11. Olá! Ai ai, toda vez que me deparo com uma resenha do King, entro sempre na mesma espiral de dúvidas, por um lado, há aquela empolgação, curiosidade, isso, sem falar dessa edição maravilhosa, mas do outro, tem aquele medo básico e tolerância quase zero para as cenas com sangue, mas como boa brasileira, não perco a esperança de um dia enfim conseguir esse feito (risos).

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  12. Stephen King é um autor que a muito tempo tenho vontade de ler, mas ultimamente como não estou lendo muito, acaba ficando sempre para depois, até mesmo porque não sou familiarizada com o gênero do autor. Mas ainda tenho fé que vou ler os livros dele haha

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  13. Oiiie,
    tenho um amigo que esta lendo esse livro e já surtando com ele. kkkkkkk
    Já fiquei muito curiosa com a historia e sobre o final dele como será. Espero ler em breve!

    Blog: Tempos Literários

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