Cazuza. Só as mães são felizes
“Espero que, no futuro, não se esqueçam do poeta que sou. Que as pessoas não se esqueçam de que, mesmo num mundo eletrônico, o amor existe. Existem o romance e a poesia.”
Eu nunca me imaginei lendo uma biografia antes. Na verdade, é a primeira leitura desse gênero que leio em toda a minha vida. Mas, no começo deste ano, quando ganhei um novo hiperfoco, não tive como resistir.

Eu sempre gostei do Cazuza, mas nunca fui tão além. Cresci em uma família tradicionalmente cristã que não me deixava consumir o seu trabalho, devido a toda a polêmica que rodava esse artista. Mas hoje, como uma pessoa adulta, detentora do meu próprio ponto de vista, me vi mergulhada na história de vida de Cazuza para ter minha opinião formada. E que incrível saber mais sobre ele...

A mídia sempre fez questão de focar tanto em seu lado rebelde e inconsequente de ser, mas não vão tanto além. Não vão na alma do artista.

Em "Só as mães são felizes" a mãe de Cazuza, dona Lucinha, conta a trajetória dele antes mesmo de ter nascido. Conhecemos a infância do artista, seu relacionamento com a família, o ingresso na carreira musical, seu sucesso estrondoso e a forma como lutou contra a AIDS com tanta bravura. Te desafio a fazer essa leitura e não se emocionar em algumas páginas.

Agenor de Miranda Araújo Neto, nosso eterno Cazuza, foi filho único de Lucinha e João Araújo. Seu nome foi uma homenagem ao seu avô paterno já falecido em um pedido especial de sua avó. Dona Lucinha, querendo agradar a sogra e planejando ter muito mais filhos, acatou o seu pedido. O que ela não esperava é que o nascimento de seu pequeno prodígio lhe tiraria a possibilidade de ser mãe mais uma vez.

Cazuza recebeu esse apelido antes mesmo de nascer. Era uma forma carinhosa de se chamar “moleque” na terra de onde seu pai vinha, em uma cidadezinha de Pernambuco.

O artista só foi aceitar seu nome (que achava horroroso) quando já estava em idade adulta e descobriu que Cartola, um de seus ídolos, também se chamava assim.

Nosso eterno poeta teve uma infância bem rígida, sua mãe quis lhe dar a melhor educação. Ela queria que ele fosse uma criança exemplar, mal sabendo o que o destino a reservava...

A rebeldia do Cazuza se dava a não aceitar que lhe impusessem vontades alheias. Ele sempre teve opinião formada sobre tudo, sempre tinha sua forma de enxergar o mundo. E isso ele sempre deixava em suas entrevistas e também em suas próprias letras.

Cazuza. Só as mães são felizes

Em 1981, entrou no Barão Vermelho e foi só o primeiro passo dentro de sua carreira lendária. Por indicação de Leo Jaime, ele compareceu a um ensaio da banda e logo os integrantes se identificaram com o canto rouco e esgoelado de Cazuza.

Seu pai, então presidente da Som Livre, não queria acreditar no talento do filho e nem mesmo lhe dar alguma vantagem na gravadora, justamente pelo laço sanguíneo. Mas a banda acabou conquistando o interesse de vários artistas e logo conseguiu seu contrato.

E esse foi só o começo de uma longa jornada. Entre turnês, gravações de discos, participações de programas e premiações, Barão Vermelho se tornou referência do rock nacional. Mas isso tudo ainda era pouco para Cazuza. Depois de uma apresentação no Rock in Rio que entraria para a história, em 1985, o poeta deixou a banda e decidiu seguir carreira solo. E foi então que ele colocou todo o seu estilo e sua essência em suas obras. Ele foi livre para escrever suas letras exatamente como sempre quis.

Mas a vida nem sempre é bela, e no auge de sua carreira, a notícia da AIDS veio para marcar de vez a história de nosso poeta. Em 1987, Cazuza recebeu o diagnóstico e passou por uma fase delicada de sua vida. Entre Boston e Brasil, ele recebeu o melhor tratamento da época, onde pouco se sabia sobre a doença.

E nesse momento, podemos perceber a mudança de suas músicas, como no álbum Ideologia, o primeiro lançado após a descoberta da AIDS. O próprio Cazuza dizia que sua forma de enxergar a vida mudou após o diagnóstico. Em suas músicas, ele parou de olhar para o próprio umbigo e passou a falar da sua geração e do mundo em que vivia.

A doença não parou Cazuza, que continuou trabalhando até o fim de sua vida. O álbum Burguesia, último lançado em vida, foi gravado em situação extremamente delicada, onde ele só ficava deitado e queimando em febre, mas ainda assim resistiu. Ele não queria deixar o seu legado morrer.

Em 07 de julho de 1990, aos 32 anos, o mundo perdeu um grande artista e hoje, quase 34 anos depois, ele continua vivo, presente em suas obras eternizadas e influenciando gerações.

Em uma época que AIDS era visto como uma condenação, o seu legado levou muita informação e abriu os olhos do mundo. Incrível como ele sempre esteve à frente, hoje eu percebo, mais do que nunca, que sua passagem na Terra não foi por acaso. Ele tinha um propósito e cumpriu lindamente.

Isso foi só uma pequena parte da vida de Cazuza e de tudo o que ele construiu. Tentei resumir um pouco, porque se eu pudesse escreveria quase um TCC sobre a história de sua vida e como impactou cada uma de suas músicas. Se quiser conhecer a fundo sobre a trajetória do artista, nos mínimos detalhes, recomendo fortemente a leitura desse livro. Eu certamente saí uma pessoa um pouco melhor após a leitura dessa obra. E com uma admiração incrível não só pelo artista, mas pela pessoa do Cazuza.

Que nunca desistiu. Que sempre lutou pelo que quis até o seu último suspiro.
E ele conseguiu.
Prova disso é que mesmo tantos anos depois de sua morte, seu nome continua sendo lembrado.
Seu propósito se cumpriu, Cazuza.
Sinta-se orgulhoso de onde quer que você esteja.
Na minha vida, no meu coração, sempre terá um lugarzinho especial para você.

Viva, Cazuza!

Título: Cazuza. Só as mães são felizes
Autora: Lucinha Araujo
Editora: Globo Livros
Páginas: 379
Ano: 2016
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3 comentários:

  1. Também terei minha primeira experiência em breve com uma biografia/autobiografia...do Matthew Perry...
    Ouço Cazuza há tempos, tenho músicas preferidas.... suas letras são Poéticas e contestadora.
    Imagino o quão essa leitura deve ter sido emocionante.....
    Lucinha é uma guerreira que transformou o luto em luta pelas crianças.
    Já assistiu ao filme Cazuza- o tempo não para.? É muito bom

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  2. Oi, Fernanda! Não tenho o hábito de ler biografias, mas acho esse gênero interessante e nos deixa mais próximos, de certa forma, de pessoas que admiramos. Cazuza foi um ícone que vai além desse universo musical e continua eternizado em suas letras. Adorei saber dessa obra!

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  3. Que bom que curtiu a biografia do Cazuza,ouvi muito as suas músicas nos anos 80 , não sou aquela fã,mas gostava das músicas dele ,do Barão Vermelho.
    Um cantor que partiu muito cedo , lembro da sua luta e da luta de sua mãe.

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