1 - Olá, Sr. Eames, tudo bem? Poderia falar um pouco mais sobre você para os seus leitores?
R - Olá! Eu sou um autor de fantasia nascido e criado no Canadá e no momento vivendo na linda Columbia Britânica*. Quando não estou escrevendo, estou lendo, cozinhando, jogando videogames ou me animando para dar uma corrida.
* Província Canadense
2 - Desde quando a fantasia passou a fazer parte da sua vida? Quem foram os responsáveis por te apresentar esse mundo e quais as principais obras que te influenciaram?
R - Assim como muitas pessoas, Tolkien foi meu primeiro contato com a fantasia, mas um autor canadense chamado Guy Gavriel Kay é o autor que me inspirou a escrever. Seus livros são de uma beleza de partir o coração, e qualquer passagem comovente que eu escrevo provavelmente se deve a ele. Além disso, Joe Abercrombie e Scott Lynch, que escrevem fantasia com humor em quase todas as páginas, me fizeram pensar que existe espaço no gênero para um livro de fantasia que tentou mais do que a maioria fazer as pessoas rirem.
3 - Os Reis do Wyld foi seu livro de estreia, certo? Você já escrevia antes? Quando foi que decidiu escrever um livro?
R - Eu decidi escrever um livro quando eu tinha 25 anos. E só fui publicado aos 39, então foi uma baita jornada do início até o fim. A MAIORIA dos anos entre eles foi trabalhando em um livro que nunca irá ver a luz do dia, e apesar de não ter feito eu ser publicado, ele me ensinou várias lições, que eu apliquei quando surgiu a ideia d’Os Reis do Wyld.
4 - A ideia de um grupo mais velho, aposentado e com dor nas costas com certeza foi algo bem diferente, porém, original ao meu ver. Isso já estava decidido antes de você começar a escrever? Acredita que hoje em dia é muito difícil criar algo realmente original para um livro?
R - Eu não acho que seja tão difícil assim criar histórias originais, ou pelo menos vestir as antigas de uma maneira tão diferente que elas pareçam novas. Os Reis do Wyld é exatamente isso: ele usa metáforas antigas e faz o melhor para dar um novo toque a elas. A premissa original do livro - reunir a banda novamente - já foi contada várias vezes, mas nunca dessa maneira. Quando eu tive a ideia de igualar bandos de mercenários com bandas de rock eu tinha certeza que alguém já tinha feito isso antes. Para minha sorte, eles ainda não tinham.
5 - Seu livro inclusive traz uma ótima dose de humor, com os personagens se metendo em várias confusões peculiares. É correto dizer que seu livro faz uma crítica, ou uma paródia, de outros livros de fantasia?
R - Eu acho que livros de fantasia tendem a ser um pouco sérios. Heróis de fantasia são frequentemente estoicos - um pouco estoicos demais, eu acho. Humor é uma grande parte da minha vida, especialmente quando as coisas ficam terríveis, e um mundo onde ninguém faz uma piada, não parece certo para mim.
6 - Foi difícil equilibrar esse humor com os momentos sérios no livro?
R - Um pouco, sim - especialmente no primeiro rascunho do primeiro livro. Embora eu ache que sou muito bom em encontrar esse equilíbrio, eu devo muito a meu agente e editores que realmente me ajudaram a conseguir. Existiam definitivamente algumas cenas exageradas que precisavam ir (ou ao menos serem dosadas um pouco), então eu me beneficiei muito de sua experiência. Acho que no segundo livro eu fiquei um pouco melhor em me policiar.
7 - Outro ponto que adorei no livro foram os personagens. Todos muito bons, que apesar de ter um certo perfil clássico de personagens de fantasia, tem personalidades muito bem definidas e às vezes inesperadas. Você tem algum favorito? Teve algum que teve dificuldade em criar? Quais foram suas inspirações para cada um deles?
R - Muitos dos personagens foram inspirados em ídolos do rock clássico. Gabe e Matrick por exemplo, tem características similares com o vocalista e o baterista do Led Zeppelin, embora Matrick seja uma amálgama de vários bateristas famosos por palhaçadas selvagens e comportamentos imprudentes. Os personagens principais em em Blood Rose, por outro lado, foram inspirados em vários gêneros musicais dos anos 80: Rose é o Punk Rock, Cura o Gótico, Brune o Metal, Freecloud o Pop, e Tam um mix de Stevie Nix e toda música já feita pelo Journey. Além disso, o relacionamento entre Rose e Freecloud deve muito ao que Pat Benatar tem com seu guitarrista e marido, Neil Giraldo. Relacionamentos poderosos são raos no Rock and Roll. Os que duram, mais ainda.
Quanto aos personagens favoritos: Clay e Tam estão mais perto do meu coração porque eu vivi em suas cabeças enquanto estava escrevendo os livros, mas sou um grande fã de Moog e Roderick também. Ambos são patetas, e se alguma vez houve uma frase hilária que eu quisesse no livro, era a eles que eu recorria, porque você meio que espera coisas ridículas vindo da boca deles.
8 - E falando em personagens, temos algumas personagens femininas bem interessantes no livro, assim como representatividade. Nesse livro as personagens femininas ficam mais em segundo plano. Já no segundo, elas parecem estar mais presentes, começando pela protagonista, a Rose. Podemos esperar então um protagonismo feminino maior na sequência? E o que podemos esperar do livro Bloody Rose?
R - As mulheres têm um papel muito maior em Bloody Rose, sim. Os Reis do Wyld é uma história sobre irmandade, paternidade e amizade. Como os personagens principais de Os Reis do Wyld são homens, eu fiz o meu melhor para rodeá-los de mulheres coloridas e complexas como Larkspur e Lady Jain. O segundo livro explora temas como maternidade, amor, e as dinâmicas complexas de uma banda na estrada. Onde Os Reis do Wyld emprega um monte de referência do rock dos anos 70, Bloody Rose foi inspirado pelas músicas dos anos 80. É como uma segunda era de ouro do rock and roll, exceto que todos estavam se esforçando tanto que estavam beirando a autodestruição - e às vezes se afundando no limite. É uma história mais sombria, e leva mais tempo para conhecer seus personagens, mas você também pode esperar um pouco de risadas e leveza ao longo do caminho.
9 - Inclusive, vi em algum lugar que você tinha planos para escrever alguns spin-offs. É verdade? Se sim, quais suas ideias para o futuro da série? Pode contar se está escrevendo algo por agora e sobre o que se trata?
R - Terão três livros na série. O último, que está se mostrando difícil de escrever até agora, se chama Outlaw Empire. Você pode esperar várias referências aos anos 90 nesse, e temas inspirados no rock, hip-hop e grunge dessa época - o que quer dizer que os personagens principais tem bem pouco respeito pelas autoridades.
Quanto aos spin-offs, definitivamente é algo que eu considerei, e eu tenho algumas boas ideias, mas provavelmente eu irei esperar e as enfrentar algum dia.
10 - Vi também que compraram os direitos para uma possível adaptação. Já existe algum plano tomando forma em relação a isso? Com animações como The Legend of Vox Machina e Castlevania, onde os limites são a imaginação, você acredita que Os Reis do Wyld poderia ganhar muito se virasse uma animação?
R - Eu adoraria vê-lo animado, sim, entretanto, também adoraria vê-lo em live-action. Eu acho que o live-action se presta melhor a pungência, como atores reais são capazes de transmitir uma profundidade de emoção que o personagem animado geralmente não tem. Eu digo “geralmente” porque Arcane veio ano passado e explodiu todos os shows live-action. Foi realmente incrível, e de longe a melhor adaptação animada que já vi, então, se meus livros terminassem nesse meio, eu seria realmente sortudo.
Dito isto, a indústria cinematográfica é um negócio inconstante, então, embora os livros tenham sido escolhidos, não tem como dizer com certeza que algo irá surgir disso. No momento eu acho que todo mundo está lutando para achar o novo Game of Thrones, o que pode levar a uma saturação de projetos de fantasia. Alguns estúdios tem feito grandes apostas em shows que esbarraram no muro, então, espero que eles procurem livros novos, menos conhecidos para adaptar.
11 - Para finalizar, poderia deixar uma mensagem para os seus leitores aqui no Brasil?
R - Muitas vezes é difícil para um autor avaliar como seu livro está se saindo em outro país. Geralmente não temos ideia se é bem sucedido ou não. Mas às vezes - como foi o caso da edição em espanhol e agora em português - você vê um monte de feedback positivo nas redes sociais. Eu tenho visto tantas postagens de leitores brasileiros que amaram o livro, o que me deixa incrivelmente feliz. Sou verdadeiramente grato à minha editora por seu cuidado em traduzir o livro e seu entusiasmo em promovê-lo. A quem leu, obrigado. E para aqueles que ajudam a divulgar, seja entre amigos ou nas redes sociais, eu tenho muita gratidão por todos vocês. Eu sinceramente espero que vocês gostem do próximo livro e do outro depois!
E obrigado a VOCÊ por essa entrevista. Eu realmente gostei.