Entrevista: Marcos DeBrito

Por Fabio Pedreira •
10 junho 2020

Fala galera, temos mais uma entrevista, dessa vez com o Marcos DeBrito, autor de algumas obras, como Vozes do Joelma e Condado Macabro. Agradeço ao autor pela entrevista.

1 - Olá, Marcos, poderia falar um pouco mais sobre você?
R - Sou um sobrevivente dos traumas de infância, como qualquer outro que escolheu o mundo das histórias como segunda casa. Sou meio nômade. Nasci em Florianópolis, morei em Brasília, Estados Unidos e agora estou em São Paulo (cidade em que me formei no curso de cinema, abri produtora e constituí família), mas não pretendo ficar aqui pra sempre também. Eu costumava dormir com a luz do quarto acesa até meus 18 anos e só perdi o medo do escuro há pouco tempo, após ter me tornado um porta-voz das criaturas que habitam nas sombras. Meus personagens são sádicos, entretanto eu... gosto de pensar que sou normal.

2 - Pode contar para nós quando você decidiu começar a escrever?
R - Sempre escrevi bastante na época de escola. Se me davam duas laudas para terminar uma redação, eu grampeava mais umas três folhas pra caber minhas histórias. E desde cedo eram de terror. Mas a minha trajetória como escritor de romances é recente. Eu nunca havia pensado em publicar um livro porque a minha paixão sempre foi o cinema. Tanto que me formei e atuo na área como roteirista e diretor desde 2001. O problema é que fazer um filme é muito caro, demorado e precisa do envolvimento de várias pessoas. Imaginei que se eu adaptasse meus textos para a literatura, talvez essa pudesse ser uma maneira de conseguir levar minhas histórias adiante sem que eu tivesse que depender de editais de fomento governamental ou incentivo de empresas privadas. Apesar das diferenças entre escrever para as telas e escrever para as prateleiras, a alma de ambos é ter uma boa história. Se tenho habilidade, não sei. Apenas gosto do que faço e sofro bastante para criar as frases que me soam ideais.

3 - Como você mesmo nos contou e sabemos você também é diretor, tem filme seu que foi adaptado para livro. Já pensou ou aconteceu em fazer o caminho inverso? Transformar algum livro seu em filme?
R - Não consigo desassociar um do outro. Pra mim, são produtos complementares. Eu nunca escrevi um livro sem antes ter desenvolvido o roteiro audiovisual primeiro. Penso com mais agilidade quando estou focado numa história para o cinema. No caso do Condado Macabro, não foi uma opção minha, mas um convite. O filme estava pronto e o dono da editora Simonsen — que sabia que eu também era escritor — tinha assistido o longa em um festival e me propôs a adaptação. Todos os meus outros projetos, A Casa dos Pesadelos, À Sombra da Lua, O Escravo de Capela, são roteiros ainda não filmados que se tornaram livros.

4 - E quão difícil é conciliar esses dois trabalhos? Quais são as maiores dificuldades?
R - Felizmente eles se complementam, pois adapto meus roteiros para romance enquanto aguardo patrocínio para produzir os longas. Acaba que um ajuda o outro, uma vez que um livro publicado já começa a ganhar seu público e fortalece o projeto de apresentação audiovisual com um produto que já está sendo testado no mercado. O A Casa dos Pesadelos tem um respaldo ótimo das empresas por existir um número expressivo de vendas. Outro caso que é muito bem avaliado é o livro Vozes do Joelma, que escrevi em conjunto com o Rodrigo de Oliveira, Marcus Barcelos, Victor Bonini e Tiago Toy. Esse é um projeto que temos uma notícia bombástica para dar em breve.

5 - Opa, bom saber isso sobre o Vozes do Joelma, em breve perguntarei algo a respeito, mas por enquanto me diga, quem são suas maiores influências no cinema e na literatura?
R - Na literatura é muito difícil negar a influência de “Macário”, do Álvares de Azevedo, e dos poemas e contos do Edgar Allan Poe. São, de longe, meus autores preferidos. A maneira poética como encadeiam as palavras transcende o mero sentido da trama. Eles foram importantes para mim porque criaram a minha fixação pela Segunda Fase do Romantismo e me mostraram que quando uma história é escrita com tamanha devoção e cuidado ela pode ir além da imersão para tornar-se parte da personalidade de quem a lê. Já no cinema, a lista é bem maior. Eu sempre quis fazer audiovisual, mas me decidi de vez depois de ter assistido A Estrada Perdida, do David Lynch, e tive confirmação de que não faria outra coisa depois de Pulp Fiction, do Tarantino. Mas hoje, tenho influência de Darren Aronofsky, Christopher Nolan e até Dziga Vertov, que foi um diretor do Formalismo Russo da década de 20.

6 - Agora vamos voltar para o Vozes do Joelma. O livro, como bem sabemos, foi escrito por vários autores talentosos, sendo você um deles. Como foi para você trabalhar nesta antologia e com esses autores?
R - Trabalhar com os demais autores de gênero da Faro, que além de companheiros de editora são também grandes amigos, não podia ter dado mais certo. Cada um respeitou a visão criativa do outro e conseguimos ter um livro que funciona como romance único e como antologia. Não queríamos ser apenas mais uma coletânea de contos no mercado; queríamos um tema em que fosse possível as histórias conversarem entre si. A ideia de abordarmos as maldições que envolvem o terreno do edifício Joelma foi tiro certo. Tanto que, como falei anteriormente, algo grande está para ser revelado.

7 - Tudo isso deve exigir muita pesquisa, coisa que por sinal vemos muito bem em seus livros, então como é para você todo esse processo de escrita?
R - A pesquisa é um processo lento e que não para durante o processo da escrita. Primeiro eu penso sobre o que quero dizer e daí vou em busca de tudo que possa tornar minha história crível; aí que inicia a pesquisa. Decido a época com base em acontecimentos históricos que julgo pertinentes para a trama e começo a estudar comportamentos, roupas, arquitetura, tecnologia... tudo que for possível. Quando me sinto minimamente à vontade com o período escolhido, começo a escrever. Mas a cada cena é preciso parar e fazer uma pesquisa mais aprofundada sobre o assunto que está sendo tratado no momento. Em O Escravo de Capela, por exemplo, não adiantava eu pesquisar apenas sobre os negros na senzala enquanto estivesse criando um diálogo entre escravos, porque as mucamas geralmente ficavam mais próximas dos senhores na Casa-Grande. Esse costume me fez ir atrás de uma literatura sobre as mulheres negras no Brasil colônia.

8 - Muito interessante. Mas nos diga, você tem algum livro favorito dentre os que escreveu? Por quê?
R - Costumo sempre responder que é o À Sombra da Lua, que saiu pela Rocco. Talvez por ter sido o primeiro, por ter sido publicado por uma casa editorial grande sem que eu tivesse qualquer pretensão. Mas ele ocupa um lugar muito semelhante ao O Escravo de Capela, da Faro Editorial, que tem uma estrutura parecida e é uma evolução na minha escrita. Acho que os dois estão empatados. Agora está pra sair um novo, bem diferente desses outros dois, mas que está lutando de igual para igual.

9 - Verdade, tem livro novo seu vindo por aí, inclusive a capa está uma maravilha. Todo o projeto parece estar bem interessante. O que pode nos contar sobre ele?
R - Obrigado! Estou super orgulhoso desse livro e dessa capa. Apocalipse Segundo Fausto sairá pela minha quarta editora, a Coerência, após um convite feito por eles e liberação da Faro. É um estilo diferente do que meus leitores estão acostumados. Trata-se de uma ficção, como os outros, mas é um texto mais hermético, denso e filosófico, que remete muito ao meu início de carreira no cinema, quando eu me preocupava bastante com a estética como forma de passar uma mensagem. O Pedro Almeida (curador do Jabuti e editor-chefe da Faro) o considera um livro-proposta, não de entretenimento. É meu texto mais maduro, sem dúvida, e também o mais pessoal. Sei que causará estranhamento em alguns, mas acho que terá uma boa parcela de leitores que irão se conectar com a crítica que eu proponho ali. Está previsto ir para a gráfica agora em junho e soube por esses dias que será uma edição de luxo em capa dura e corte das páginas em vermelho.

10 - Parece muito bom, com certeza já estou de olho. Esse está perto de sair, mas e sobre os trabalhos futuros? Já existe algo em mente tanto na literatura como no cinema? Para finalizar nossa entrevista, poderia falar mais sobre isso?
R - Sempre temos um projeto acontecendo enquanto outro está sendo lançado. No momento estou finalizando meu terceiro longa-metragem, As Almas que Dançam no Escuro, que deve ser lançado no final do ano ou primeiro semestre de 2021 e estou na corrida por captação de recursos para outros filmes. Assim que terminar a montagem começarei a adaptá-lo para a literatura com o título de Clube Inferno. Mas há várias ideias de livros novos. O que estou mais empolgado em começar é um sobre uma comunidade animista que adora um antigo deus de Canaã. Depois desse, espero poder voltar à tão aguardada continuação de À Sombra da Lua.

Conheçam e sigam o IG do autor, basta clicar aqui.

É isso, pessoal. Gostaram? Já leram algum dos livros do Marcos? Comente aqui embaixo. Nos vemos na próxima.

Comentários via Facebook

30 Revelaram sentimentos:

  1. Parabéns Fábio por mais uma excelente entrevista.
    Conheço o Marco do Instagram apesar do gênero que ele escreve ser bem distinto do que curto ler.
    Gostei pude conhecer um pouco mais do lado pessoal do autor.

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    1. Obrigado Chele

      Recomendo o Vozes do Joelma, é muito bom. Sempre bom conhecer um pouco mais =D

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  2. Amei conhecer mais o autor :D

    https://www.submersaempalavras.com/

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  3. oi Fabio
    parabens pela entrevista
    não li nenhum livro dele ,gostei de conhecer o historia dele ,parece ser alguem bem determinado e muito talentoso
    Desejo sucesso para ele e espero um dia quem sabe conhecer a escrita dele
    bjs

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    1. Olá Eliane

      Obrigado ^^. Espero que consiga ler também. Recomendo o Vozes do Joelma =D
      Bjs

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  4. Fábio, eu acho que nunca vou me cansar de agradecer você por essa oportunidade única de conhecer um pouco mais sobre alguns autores.
    Mesmo só tendo lido Vozes do Joelma, onde Marcos faz seu conto e maravilhosamente bem, sou louca para conhecer mais. Eu amo o gênero..rs aí, fico louca(aliás, o senhor podia continuar nessa vibe e pegar na cadeira os outros autores de Vozes né???rs) Tudo "cabra" bom de terror..rs
    Aí vai, traz um Raphael Montes, um César Bravo.rs(ao menos, pensa com carinho??)
    Adorei e que mais e mais autores nacionais possam sim, ter um espaço assim para divulgar seus trabalhos e fazer essa ligação entre leitor/autor(a)

    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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    1. Olá Angela =D

      kkk que nada ^^. Olha, acho que o Tiago Toy, que faz as introduções seria mais fácil de entrar em contato, os outros já não sei kkkkk. Mas eu ainda não li nada do Toy. Já li do Marcus Barcelos. Posso tentar contato sim =D. Difícil é essa galera me responder kkkkk mas vale tentar.

      Mas pode ficar tranquila que tem mais autor já confirmado (editoras também) kkkkk.

      Bjs

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  5. Adorei demais conhecer mais do autor. Nossa, eu sempre escuto falar bem de Vozes de Joelma. Espero ler esse livro em breve.

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    1. Olá Bia

      Sempre bom né? Conhecer mais. Olha, Vozes do Joelma é massa, recomendo =D

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  6. Fábio!
    Suas entrevistas estão arrasadoras, parabéns!
    E essa com o Marcos de Brito, nosa, sensacional, sou bem fã dele e já li A Casa dos Pesadelos, À Sombra da Lua, O Escravo de Capela.
    E fiquei feliz em saber que terá livro novo em breve e que haverá continuação de À Sombra da Lua.
    Desejo cada vez mais sucesso para o Marcos.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Olá Rudy.

      Obrigado =D. Tô doido para ler O Escravo de Capela. Eu já li A Casa dos Pesadelos e o do Joelma, por sinal recomendo demais.

      Já preciso conhecer logo esses trabalhos também kkk
      Bjs

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  7. Adoro essas entrevistas que vocês fazem!! Gostei muito que o autor foi todo sincerão hahah interessante ele pesquisar tanto para escever seus livros, nem todos autores se dedicam o suficiente a essa parte antes de escrever sua obra (e no caso dele até durante). Ainda não li nenhum livro do Marcos, mas pretendo ler em breve!

    Beijos,
    Amanda Almeida


    Beijos,
    Amanda Almeida

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    1. Olá Amanda

      Obrigado =D. Sim, o Marcos é gente boa. Verdade viu, e acredito que é uma das coisas que faltam para boa parte dos autores, pesquisar direito sobre o que quer falar. Recomendo =D.

      Bjs

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  8. Olá! ♡ Adorei a entrevista, foi ótimo conhecer mais sobre o Marcos DeBrito. Sempre tive curiosidade em ler as obras do autor, depois de ler essa entrevista fiquei mais empolgada ainda para conhecer sua escrita, que pelo que vejo é admirada por muitos.
    Já ouvi falar de Vozes do Joelma e apesar de não fazer muito meu estilo de leitura, eu gostaria muitooo de conferir.
    Gostei bastante de saber mais sobre a vida do autor, principalmente sobre o que o levou a começar a escrever ♡
    Parabéns pela entrevista! Beijos! ♡

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    1. Olá Rayssa =D

      Obrigado =D. Fica ligada que quarta que vem tem outra kkkk. Sim, é um excelente autor, já li dois livros dele, ou melhor, um dele e outro com ele kkkk recomendo demais. Recomendo uma tentativa no Vozes, é bem variado.

      Obrigado *-*
      Bjs.

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  9. Oi, Fábio
    Conheço um pouco do autor pelo instagram, mas não li nenhum livro dele.
    Adorei a entrevista, através das suas perguntas podemos conhecer um pouco mais da vida pessoal e profissional.
    Nossa nem imaginava que os livros eram roteiros de filmes, espero que ele possa conseguir gravar os filmes.
    Beijos

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    1. Olá Luana

      Aahh, recomendo viu =D. Queria muito ver uma adaptação do Vozes do Joelma.

      Bjs

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  10. Vozes do Joelma é um livro que esta na minha lista de compras. Desde a primeira resenha que li, me interessei, até porque desde criança eu ouço as histórias desse edifício. Sendo verdadeiras ou não, sempre senti medo. E agora sabendo um pouco como o autor pensa, me interessei ainda mais. Òtima entrevista.

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    1. Olá Ana

      É um livro muito massa. Recomendo. Eu também, nunca esqueço o programa do linha direta.
      Obrigado ^^.

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  11. Oiii ❤ Gostei muito da entrevista, foi tão legal poder conhecer mais sobre o autor e sua escrita.
    Ainda não tive a oportunidade de ler algo do Marcos DeBrito, mas tenho vontade pois é incrível ver quantas pessoas adoraram a participação do autor Vozes de Joelma.
    É tão maravilhoso ver um escritor falar sobre o que faz, deu pra perceber o quanto o autor gosta de escrever, criar histórias, ao ler suas resposats às perguntas.
    Com certeza preciso acrescentar livros do autor nas minhas próximas leituras.
    Beijos

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    1. Olá Rayane

      Obrigado ^^
      O livro do Vozes é todo bom, alias, A Casa dos Pesadelos também. É um excelente autor.
      Sim, um contador de historias nato.
      Recomendo =D
      Bjs

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  12. Oi, Fabio
    Excelente entrevista, parabéns!
    Tenho um livro do autor aqui e tô louca pra ler.
    Achei bem legal a trajetória dele e suas pesquisas, muito importante os autores pesquisarem tanto.
    Bjs

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    1. Olá Ana

      Obrigado ^^
      Recomendo, acho que você vai gostar bastante.
      Sim, concordo, pesqueisa é uma coisa muito importante =D
      Bjs

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  13. Olá! É sempre muito legal ter a oportunidade de conhecer um pouco mais dos nossos autores, gostei bastante da entrevista e das novidades (até aquelas que ficaram nas entre linhas, aí minha pobre curiosidade fica como nessa hora hein!). Confesso que o gênero não é um dos meus favoritos, tenho certo medo #culpada, mas depois de ler a entrevista, bateu sim a vontade de tentar mudar isso!

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    1. Olá Elizete

      Verdade, sempre bom conhecer autores novos. Obrigado ^^. Vai ter que ficar ligada para novidades kkkkk. Encara alguns, tem muita leitura de terror boa =D

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  14. Parabéns por mais uma ótima entrevista! Não conhecia o autor, mas achei muito interessante como ele concilia as adaptações literárias e cinematográficas. Mesmo não tendo muita experiência com o gênero, vou procurar saber mais sobre os novos livros do autor.

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    1. Olá Fabiolla

      Obrigado =D. Verdade, é bem interessante mesmo =D. Eu recomendo conhecer mais. Já li A casa dos pesadelos e é massa. =D

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  15. Olá!
    Conhecia o autor, já tinha lido um livro dele e gostei bastante da escrita. Não sabia que ele iria lança mas outro livro, já fiquei curiosa!

    Meu blog:
    Tempos Literários

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    1. Olá Lily

      Sim, tem muita coisa boa vindo por ai. Quero ler mais coisas dele também =D

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