Totalmente sem palavras. (Entenda no pior sentido)
“E já não tem mais nada a fazer a não ser verdade e verdades e mais verdades e verdades a dizer, a declarar...” – Raul Seixas.
Sim, meu caros. Eu tenho muita verdade a declarar. E eu vou declarar mesmo porque a leitura desse livro me fez sangrar os olhos. Certo. Vamos com calma para não preocupar os patrocinadores.
Contém o que os chatinhos chamam de spoiler.
O planeta Terra está entrando em extinção e ficando completamente inabitável. A salvação agora é um projeto que está construindo três “naves colossais”, em segredo (?), para enviar possíveis escolhidos para o espaço à procura de um novo lar. Este é o Projeto Neo Gaia.
Fato é que após dezesseis anos do lançamento, um novo planeta é encontrado. Gliese832c, planeta muito semelhante à Terra. A missão agora é mandar uma equipe explorar o local e verificar a possibilidade de fazerem morada lá embaixo.
Com muitos personagens que poderiam ocupar facilmente o posto de protagonista, Neo Gaia é “uma ficção espacial” que precisa de reparo. Não podemos dizer que é uma história original. Em certo momento, a mim pareceu uma mistura de “Os 100” com “Guerra Mundial Z”, com uma pitada de “The Walking Dead”. Mas, afinal, o que é único hoje em dia? Por isso, não culpemos a criatividade de nosso autor, ao contrário, afirmo e dou firma que Sperafico tem futuro.
Porém, o livro é claramente escrito por um principiante. Nosso autor ainda tem muitos vícios de linguagem que deixam o texto chato. Ele não é lá um grande fã de figuras de linguagens e senti falta de algumas alegorias, metáforas e analogias. A linguagem é simples e o conteúdo é pouco descritivo. Em partes é bem desenvolvido, sim, mostrando certo domínio do assunto ou estudo acerca do está sendo dito, mas quando ele deveria descrever certas passagens ou lugares, fica devendo.
O roteiro, em meu ponto de vista, tem muitas falhas. Peço desculpas, e me corrijam se eu estiver errado. Mas, por exemplo, como um planeta encontrado dezesseis anos depois já tem um nome? A contracapa diz que “Rimor finalmente encontrou o seu destino”. Antes de lançarem as naves, eles já sabiam pra onde iam? Eu não achei essa parte.
Há outra passagem que me lembrou muito filmes de terror. Sabem aquela hora em que a mocinha deveria correr, fugir, chamar a polícia, mas ela vai até a porta escura pra ver se tem alguma coisa lá? Pois é. O grupo encontra uma cratera, desce e lá no buraco são atacados por seres “semelhantes a besouros, do tamanho de gatos”. Você ficaria na porra de um lugar habitado por bichos desses? Sem contar que depois foi descoberto que eles transmitem uma infecção que deixa as pessoas loucas, extremamente fortes e com desejo de transformar todos.
Água!! Não me lembro da menção de um rio no livro.
Onde estão as outras duas naves?
Por que é proibido ter um pendrive dentro da nave?
Por que 99% dos personagens têm nomes estrangeiros?
É muita pergunta sem resposta.
Agora, um papo reto com nosso autor: Meu querido, elimine do teu vocabulário o pronome possessivo “seu” e derivados. Em 99.99% dos casos ele é descartável. Inútil. E deixa o texto muito pobre. Por exemplo: “Usavam (erro de concordância) seu (1) colete preto e empunhava sua (2) arma, mas estava sem seu (3) traje. Começou a digitar em seu (4) comunicador, emitindo um sinal para todos os outros seguranças.” Percebe?
Usava o característico colete preto e empunhava a arma a tiracolo, mas estava sem o traje. Começou a digitar no comunicador...
It's better, isn’t it?
Busque também equivalentes para a expressão “à sua frente”. O texto é recheado dessa expressão, com crase, sem crase, separado por vírgula, grudado. E vários na mesma página.
Mais uma pergunta: Por que cargas d’água você acha que tem o direito... Ah, não, isso é Raul Seixas.
Por que cargas d’água o seu livro não passou por uma revisão? Porque, se você disser pra mim que ele passou por uma revisão, eu vou te chamar de mentiroso.
É inconcebível! INCONCEBÍVEL!!!!! A quantia de erros nesse livro. É inconcebível que uma empresa que trabalha com a Língua Portuguesa, lance no mercado um livro tão precário. Se fossem erros de digitação, seria coisa aceitável. Uma palavra que saiu grudada, um ponto que saiu separado da palavra, tranquilo. Mas é inaceitável o uso errado dos Porquês. E tem muito! É inaceitável o erro da crase. É inaceitável que não se corrijam erros de concordância. O verbo “haver” com significado de “existir” ou “acontecer” sempre concorda no singular.
Próclise ou mesóclise? Você escolhe! Mas, construções como “[...] não os reconhecendo-o” não existe. Além da falta de concordância, né?
“[...] seu primeiro instinto foi engatilhar sua arma, mas antes de houver tempo”. Quê? “antes de houver tempo”? Whatafuck??
“Eu nasci há dez mil anos atrás e não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais”. Vocês não nasceram há dez mil anos, mas deveriam saber que não se usa o verbo “haver” com o advérbio “atrás”. O verbo “haver” + verbo no pretérito já me indica que a ação aconteceu no passado. Eu não preciso mais do “atrás”.
“Ah, mas por que Raul Seixas usa?” Porque ele faz uso de sua Liberdade Poética. Em um livro em prosa não há liberdade poética.
Em duas páginas, o mesmo nome foi citado quatro vezes. Em duas, ele foi escrito de uma forma e em outras duas, de outra forma. Da próxima vez escolhe um nome mais fácil. Não adianta nada ter nomes fantasiosos se virá cheio de erro.
Enfim. A leitura não me foi prazerosa. Poderia ser, mas o trabalho da editora me jogava ácido nos olhos a cada página virada. Eu até pensei em desistir, mas me forcei um pouco, honrei meu trabalho e fui até o final.
Avalio em duas estrela por conta da história e da inspiração de Matheus Sperafico, e o débito fica por conta da editora. Caso a editora tenha interesse, eu sou profissional de revisão ortográfica, há mais de dez anos no mercado. Além disso, posso trabalhar como Beta para iniciantes também.
Título: Neo Gaia (exemplar cedido pela editora)
Autor: Matheus Sperafico
Editora: Pendragon
Páginas: 251
Ano: 2017