Eis uma das frases que abre um dos livros mais importantes da literatura brasileira, livro esse que posterguei a leitura até me sentir pronta o suficiente para lê-lo. Não me arrependo de ter esperado.
Vidas Secas é um desses livros que você ouve falar na escola, todos lhe dizem que precisa ler, mas raramente explica o porquê ou até mesmo qual a importância dele para a literatura. A verdade é que você precisa lê-lo porque é bom.
Originalmente o livro seria apenas um conto chamado Baleia, mas o autor decidiu expandi-lo, o que Graciliano Ramos criou com sua escrita fluida e direta foi um retrato sobre a miséria e as diferenças sociais, acentuadas pelas mudanças climáticas.
Poucos títulos evocam tão bem a ideia de um livro e sua narrativa quanto Vidas Secas, é exatamente sobre isso que lemos. Se a terra, como os sertões, é explorada e sugada pelos fazendeiros e coronéis, evidenciando ainda mais seus períodos de seca, o mesmo ocorre com Fabiano, Sinhá Vitória, Menino Mais Velho, Menino Mais Novo e Baleia.
Vivem de resto, recebem menos que a metade, apesar de produzirem e darem o triplo do que foi pedido. São ensinados que não valem muito, isso é colocado na cabeça de todos desde pequenos, em determinado trecho Fabiano fala inclusive que não tem direito ao “português correto” porque é um bicho.
“Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo.’’ p. 21
Vidas Secas é um livro triste, pequeno, com muito a dizer. Eu poderia discorrer por várias páginas sobre as escolhas de Graciliano: os filhos de Fabiano e Vitória não tem nome porque representam as crianças famintas pelo Brasil, mas também porque era comum não nomear um filho até saber se ele sobreviveria aos dias de seca. Baleia padece pela fome e doenças tanto quanto qualquer humano, ela ajuda muito a família e embora seja amada, as vezes a tratam com a mesma crueldade que os patrões tratam os protagonistas humanos, ela é um bicho para aqueles que são vistos como bicho também.
“Baleia queria dormir. Acordaria feliz num mundo cheio de preás. (...). O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.” p. 87
Se ainda não leu Vidas Secas, vá ler, lembrando que o livro entrou em domínio público, então é mais fácil adquiri-lo agora. Um relato triste, cru e ainda muito atual sobre as desigualdades sociais.
Título: Vidas Secas
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Galera Record
Páginas: 176
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